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TEMAS MILITARES EM ENGELS

O PROGRAMA DO MANIFESTO

Um fruto desta época de trabalho militante de Marx e Engels durante a revolução alemã foi a definição de um posicionamento claro ligado aos princípios defendidos até então pela Liga Dos Comunistas da Alemanha, ainda que neste período, fosse obrigada a se relacionar de modo tenso com “as pautas do dia” (o que implicava também as forças políticas e grupos sociais que sustentavam estas pautas), como se pode observar nos textos escritos para a Nova Gazeta Renana (Neue Rheinische Zeitung), como a unificação nacional, a participação política e outras. Apesar de escritos em um período que apresentou uma posição mais radical e avançada representada pelo Manifesto do Partido Comunista, cabe notar que mesmo no final deste documento, na parte IV sobre a Posição dos comunistas diante dos

diversos partidos de oposição destacavam-se as formas pontuais de intervenção, situando o

movimento dos comunistas na Alemanha situando-se ao lado das pautas burguesas durante o

145 HOBSBAWM, Eric. Marx, Engels e o Socialismo Pré-marxiano. In: HOBSBAWM, Eric. [et al.]

História do marxismo vol. I. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1983(b), p.56.

146 RINGER, Fritz K. O Declínio dos Mandarins Alemães. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000, p.56-7.

levante, ou ao menos “todas as vezes em que esta age revolucionariamente – contra a monarquia absoluta, a propriedade rural feudal e a pequena burguesia”147.

O Manifesto do Partido Comunista contem a análise da economia política que deixaria de ser uma denúncia das condições atuais dos trabalhadores, que já se observava no livro de Engels A Situação da classe trabalhadora na Inglaterra, ampliando seu foco e passando a direcionar-se, principalmente, para o esforço suplementar em relação à análise geral das condições econômicas como sistema geral de dominação.148 O descompasso entre a exposição do Manifesto e suas pautas, explica-se pela pretensão teórica e política de Marx e Engels de não apenas apresentar princípios que serão buscados a despeito da realidade, mas localizados a partir dela, como condições concretas dadas pela história, e não apenas isto, também como um apontamento para o futuro149 amparado na capacidade dinâmica de transformação atribuída, não apenas à burguesia que protagonizara as revoluções anteriores, mas ao ator político esperado nos próximos eventos históricos, o proletariado. A revolução de 1848 mostrava-se, para Marx e Engels, como a oportunidade para uma intervenção sobre a realidade no sentido de alterar as condições em que se apresentam o conflito de classe, modificando sua configuração e apontando novas condições futuras de combate.

Além disso, o Manifesto, como manifesto, apresentava várias funções, tanto como efeito perlocucionário que não apenas exorta à ação, mas que convoca à união do proletariado expressa no famoso lema “proletários de todos os países uni-vos!”150, tudo isso dentro de um

espaço determinado de ação, a Europa, e ligado à conjuntura da crise de 1847 e aos levantes na França e em outros países que se acreditava prestes a se intensificar. Através deste mesmo ato que chama à unificação, tentava-se nomear (e conjurar) o ator que realizaria um efeito no

147 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Editora Boitempo, 2010 (b), p.69.

148 Segundo Maurice Dobb “Considera-se habitualmente que o interesse de Marx pelos problemas econômicos (enquanto distintos dos filosóficos e dos historiográficos) teve início com a investigação sobre as condições dos camponeses da Mosela, à qual ele se dedicou entre 1840 e 1843, quando dirigia a “Rheinische

Zeitung.” Um estudo sério das obras dos economistas – em particular, Smith, Ricardo, James Mill, McCuldoch e

Say – começou seguramente no período da estadia em Paris, depois da transferência de Marx para a capital francesa, ocorrida em 1843; um estudo que prosseguiu mais intensamente no longo exílio londrino, uma vez concluídos os episódios revolucionários de 1848[...]. Depois de 1850, Marx e Engels partilharam o ponto de vista da Liga dos Comunistas, segundo o qual ‘a revolução tornara-se impossível no futuro imediato’; nessa situação, ‘ a tarefa da Liga devia consistir em dar prioridade ao trabalho de educação, ao estudo e ao desenvolvimento da teoria revolucionária’.” (HOBSBAWM, Eric. Marx, Engels e o Socialismo Pré-marxiano. In: HOBSBAWM, Eric. [et al.] História do marxismo vol. I. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1983(b), p.127 a partir do prefácio de Martin Nicolaus à edição inglesa dos Grundrisse de 1973)

149 Ou como “poesia do futuro,” como colocado por Martin Puchner em Poetry of the Revolution. Marx, manifestos, and the avant-gardes. Princeton, New Jersey, Princeton University Press, 2006.

150 BURGER, Marcel. Les manifestes: paroles de combat. De Marx à Breton. Paris/ Lonay (Suisse): Delachaux et Niestlé, 2002, p.25.

futuro, o fim do capitalismo.

É possível dizer que, para capturar a falta de autoridade que os revolucionários ainda não teriam, mas pretendiam instaurar, pode-se dizer

Paradoxalmente que o Manifesto pretende criar o contexto que garantirá que seu ato de fala tenha sido propriamente autorizado por um contexto que o autorize. O ato de fala do manifesto, portanto é lançado no futuro anterior, clamando que sua autoridade será provida por uma mudança que ele mesmo quer trazer à tona. Mas esta construção no futuro perfeito não é ainda senão a esperança, um clamor, uma reivindicação, um desejo que muitas vezes vem a nada. 151

Por esta razão, seu posicionamento pode ser pensado nos termos de certa teatralidade também como um sujeito que é ainda um espectro no momento de enunciação, algo que se prenuncia, mas cuja mera prenunciação faria temer os opositores por antecipação quanto à sua efetiva aparição. Além disso, o Manifesto, como texto manifestário,152 ao apresentar uma

situação de crise, ao mesmo tempo econômica e social resultante da história da luta de classes, procurava mostrar a possibilidade de que o momento presente resultaria de uma contradição insanável cuja resolução seria, para os proletários, conduzir a crise para outro nível, passando de uma crise econômica e social a uma crise política.

Temporalmente, o Manifesto se volta para dois planos temporais, o de uma história imediata no contexto político local da Alemanha: “é sobretudo para a Alemanha que se volta a atenção dos comunistas, porque a Alemanha se encontra às vésperas de uma revolução burguesa e porque realizará essa revolução nas condições mais avançadas da civilização europeia e com um proletariado infinitamente mais desenvolvido que o da Inglaterra no século XVII e o da França no século XVIII”153 e o futuro, onde se reporiam os conflitos de

classe em outro nível “porque a revolução burguesa alemã só poderá ser, portanto, o prelúdio imediato de uma revolução proletária”154 , resultante da evocação necessária que o Manifesto

faz da realidade o antecedente que traz como consequência concreta da história o domínio da burguesia, como nova forma de crise, a ser superada pelo domínio político do proletariado.

Assim, os termos práticos que se desdobram sobre o tempo imediatamente posterior fixaram o que seria o programa revolucionário dos comunistas alemães apresentando por um lado o paradigma revolucionário francês, onde a burguesia exerceu papel revolucionário na

151 PUCHNER, Martin. Poetry of the revolution. Marx, manifestos and the avant-gardes. Princeton: Princeton University Press, 2006, p. 24.

152 Termo de Marcel Burger em Les manifestes: paroles de combat De Marx à Breton, recomendação do colega Antonio Vidal Longo Filho.

153 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Editora Boitempo, 2010 (b), p.69.

derrubada dos escombros do antigo regime e, por outro a crença firme na existência de uma disposição capaz de enfrentar as condições do atraso alemão e o olhar para o futuro superando aquilo que é mostrado como seu antecedente necessário. Deste modo, o foco das ações é ligado a uma atuação no presente, fruto de um processo histórico, em que o ator principal, ainda seria a burguesia, mas que prepararia, por sua vez o tempo presente para uma outra cena onde, passaria a antagonista do proletariado, ainda um ator coadjuvante ao lado da burguesia. Isto, ao menos, segundo o roteiro do Manifesto.