5. CAMPOS TEÓRICOS E CAMPO EMPÍRICO
5.2 RECURSOS TERAPÊUTICOS
5.2.2 O programa dos Doze Passos
Na residência terapêutica pesquisada, o Programa dos Doze Passos predominava como filosofia orientadora do atendimento prestado, ainda que mesclado a intervenções psicológicas e médicas, oferecidas por profissionais especializados. Vejamos, segundo Mota (2004), algumas características relacionadas ao processo de ajuda mútua, também
nomeado por alguns autores como auto-ajuda:
Os grupos de auto-ajuda são voluntários, pequenas organizações com características de ajuda mútua e de realização de alguma meta. Eles geralmente são formados por companheiros que se unem em assistência mútua com o objetivo de satisfazer uma necessidade comum, sendo geralmente a de superar uma dificuldade relacionada com um estilo de vida autodestrutivo, buscando desta maneira uma mudança social ou pessoal. (MOTA, 2004)
Os grupos de ajuda mútua acabam muitas vezes exercendo uma importante função de socialização, já que, sobretudo no início do tratamento, as pessoas chegam a frequentá- los por diversos dias na mesma semana, criando um círculo de referência, para além dos encontros nas reuniões do grupo. Neste sentido, o envolvimento e a participação pessoal são fatores essenciais para que os grupos de ajuda mútua possam de fato auxiliar a pessoa que o freqüenta. Segundo Borkman (apud MOTA, 2004), quanto mais envolvida a pessoa está, com o propósito de partilhar sua experiência e ajudar o outro, mais ajuda receberá em troca, ao longo do processo vivenciado. Este princípio parece convergir com diversas falas apresentadas pelos participantes, sobre o trabalho no campo da dependência química:
“Me sinto realizada quando eu consigo ajudar alguém, dar uma palavra . (...) Tenho uma necessidade de ajudar o outro. Não sei se por culpa... Tanto tempo fiz o mal para os outros. Agora quero fazer o bem. Isto está muito forte em mim. As identificações; a idéia de que o meu problema é o do outro.” (Michele, 25 anos)
“Tive uma experiência muito boa com isso. Me sentia muito bem, fazendo uma coisa bacana, passando para as pessoas coisas valiosas. Senti uma coisa espiritual que me preencheu.” (Carlos, 36 anos)
“O benefício é o tratamento”. (Carlos, 36 anos)
“Acho que esse trabalho vai ser bom para mim, porque eu não consigo ficar sozinho.” (Guerreiro, 39 anos)
“Me interesso muito pela parte científica da dependência química. Primeiramente conhecer um pouco para mim mesmo, para eu entender o que eu tenho.” (Espanhol, 32 anos)
“É fascinante ver a evolução do outro... Estou encontrando aqui uma satisfação, uma recompensa que não é financeira. É diferente de todos os outros trabalhos. Primariamente é mais investimento do que lucro. É novo para mim e é gostoso.” (Michele, 25 anos)
Ainda nesta direção, a solidariedade destaca-se como princípio central, nos grupos de ajuda mútua, fazendo predominar um tipo de relação, entre os participantes, que tende a ser horizontal, conforme enfatiza Mota (2004):
Os grupos de ajuda mútua trabalham com uma idéia de solidariedade na qual o dar e o receber se confundem. Trata-se de uma estrutura informal que inibe hierarquias fixas. Todos são sócios, todos são membros, e cada membro é o centro da rede no momento em que atua dentro dela. (MOTA, 2004)
Se, por um lado, este princípio pode constituir-se de extrema valia para promover a coesão entre os membros do grupo, favorecendo possibilidades de mudança, ao potencializar a experiência de novos papéis sociais, por outro, o tipo de interação propiciada pode tornar-se um tanto indiscriminada, ao prescindir de uma estrutura que delimite funções e papéis. Este fato emergiu entre o grupo pesquisado, em falas que denunciavam um funcionamento, por vezes, confuso – quer fosse na experiência atual de tratamento, vivenciada na Casa, quer fosse em experiências terapêuticas prévias, vivenciadas em outras clínicas também embasadas nos Doze Passos:
“Na verdade, virou uma confusão lá. Todo mundo recaiu. O dono recaiu. Eu fiquei sozinho lá um tempo. Não deu certo. O lugar fechou. Eu comecei a conhecer tudo e já me atribuíram um monte de coisas.” (Carlos, 36 anos)
“Não me resta mais nada? Agora, só porque eu parei de usar drogas, eu tenho a obrigação de tirar outros disso. Só me resta isso? ‘Você tem a mensagem, agora é com você...’”. (Daniel, 34 anos)
“Disciplina é algo muito solto aqui.” (Cristina, 46 anos)
Originalmente proposto pelo grupo de ajuda mútua dos Alcoólicos Anônimos (AA), surgido nos Estados Unidos em 1935, o Programa dos Doze Passos visa a promover uma profunda alteração na visão de mundo do indivíduo, enfatizando um despertar espiritual que transformaria o indivíduo da condição de vítima para a condição de agente, auxiliando no processo terapêutico de pessoas em situações similares, conforme destaca Mota (2004):
Segundo AA, a prática dos Doze Passos propicia aos membros muito mais que a liberdade da antiga dependência: o indivíduo emerge da condição de “vítima” a “servidor”, trabalhando ativamente no auxílio à recuperação de outras pessoas recém- chegadas ao grupo, impulsionado por um “despertar espiritual” obtido no decorrer deste processo. (MOTA, 2004)
Os Doze Passos podem ser reunidos de acordo com o propósito predominante, relacionando-se: à decisão (do 1
º ao 3º passo
); à ação (do 4º ao 9º passo) ou à manutenção das conquistas obtidas durante o processo (do 10º ao 12º passo). Listamos a seguir uma breve descrição de cada passo (MOTA, 2004):1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool; que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
2. Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
3. Decidimos entregar a nossa vontade e a nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano a natureza exata de nossas falhas.
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados. ]
9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
11. Procuramos, por meio da prece e da meditação, melhorar nosso contato com Deus, na forma em que O concebíamos; rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e força para realizar essa vontade.
12. Tendo experimentado um despertar espiritual graças a esses passos, procuramos transmitir essa mensagem aos alcoólicos e praticar esses princípios em todas as nossas atividades.
Segundo dados publicados no site oficial da organização, a irmandade dos Alcoólicos Anônimos agrega mais de dois milhões de pessoas, em cerca de 95.000 grupos espalhados por aproximadamente 150 países. No Brasil, os Alcoólicos Anônimos surgiram em 1947, e atualmente agregam em torno de 120.000 membros, espalhados
em mais de 4.700 grupos, por todo o país. Estes dados constituem uma estimativa, já que os grupos de AA não mantêm um registro dos membros filiados. Os grupos de Narcóticos Anônimos (NA) funcionam nos mesmos moldes dos grupos de AA, também seguindo o programa dos Doze Passos.
Tais grupos também apresentam seu funcionamento regido por princípios específicos, dentre os quais a ênfase no anonimato dos participantes, a filiação voluntária e gratuita à irmandade e a desvinculação de quaisquer causas, religiosas ou políticas ou de outras naturezas. Em relação à divulgação, os grupos de ajuda mútua também não utilizam estratégias específicas para atrair as pessoas, desenvolvendo o trabalho a partir da promoção dos próprios participantes, conforme destacado na fala de um dos participantes da pesquisa:
“Não é por promoção, é por atração” (Breno, 23 anos)
O entendimento sobre a dependência química, assim como a maneira de se encaminhar esta problemática, varia em relação a outras abordagens, como a medicamentosa por exemplo. A fala apresentada por Guerreiro evidencia tal distinção:
“Eu não aceito mais que eu sou um dependente químico, porque eu estou tratando essa doença. Eu aceito que sou um adicto.” (Guerreiro, 39 anos)
Vale destacar que, a despeito das diferenças de concepções, em relação ao tratamento especializado, ou até mesmo em função delas, os grupos de AA e NA representam importante fonte de ajuda para as pessoas com problemas relacionados ao abuso de substâncias, atuando, cada vez mais, conjuntamente aos serviços especializados, e não de maneira excludente. O fato de conseguirem atingir um grande número de pessoas, ao disponibilizarem ajuda gratuita, sete dias por semana, em horários diversificados, incluindo noites e madrugada, extrapola em muito a possibilidade de alcance de qualquer serviço especializado, privado ou público.
Observada a filosofia de tratamento subjacente à residência terapêutica pesquisada, vejamos alguns aspectos relacionados ao histórico e ao funcionamento das residências terapêuticas – também chamadas moradias assistidas – a fim de acessar as especificidades deste dispositivo de tratamento.