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PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

CAPÍTULO 1: EM TORNO DO PENSAMENTO PEDAGÓGICO DE

2.2. A Educação de Infância na 1ª República

2.2.6. O programa e a organização das Escolas Infantis

Ao apresentar o programa das Escolas Infantis, em 23/8/1911, o Governo pretendia esclarecer as inúmeras dúvidas que toda a sociedade tinha sobre esta nova escola. Parecia-lhe impossível uma escola para crianças desta idade. Era tudo novo, escolas, conceitos, hábitos, horários, materiais, uma idade diferente.

Era novo para os pais, para os professores e para a sociedade em geral, que não conheciam qualquer escola a não ser a Escola Primária. Nunca até então lhes tinham dito os benefícios que os filhos teriam em ir à escola aos quatro anos de idade. Não foi um processo fácil, conseguir levar a mensagem, numa época em que ainda não se tinha assimilado totalmente a ideia e a necessidade da frequência escolar depois dos sete anos, mais difícil seria antes dessa idade: “Assentes estas considerações prévias, necessárias pelo melindroso do assunto e pela sua novidade entre nós, onde, a tal respeito, ainda se não passou de simples tentativas infelizes” (DG, N.º198, 25/8/1911).

Havia necessidade de informação, de exemplos práticos sobre o que fazer com crianças tão pequenas que durante séculos tinham permanecido em casa. Ao lançar este programa, o Governo antecipava-se a toda uma sociedade de homens e Instituições que teriam de se preparar para esta nova exigência social.

“Não se trata nesta idade da preocupação de armazenar conhecimentos, mas de aperfeiçoar os instrumentos de os adquirir, precisos, conscientes e perduráveis. […] Todo o fim, pois, das Escolas Infantis deve estar no robustecimento do organismo, na Educação dos órgãos dos sentidos, e no desenvolvimento das faculdades intelectuais das crianças segundo as leis naturais do desenvolvimento humano, enriquecendo as faculdades infantis, hora a hora, dia a dia, progressivamente, com um considerável numero de conhecimentos justos, precisos e verdadeiros.” (DG, N.º198, 25/8/1911).

Houve um cuidado especial neste programa para preparar as novas professoras, que deviam possuir uma formação específica e completa no sentido pedagógico, moral e profissional da especialidade “ O que mais importa, portanto é habilitar – educar – as professoras e não lhes tornar efectiva a nomeação sem que hajam durante dois anos, depois de admitidas ao serviço nas Escolas Infantis, dado evidentes provas da sua capacidade e aptidões” (Ibid.: 1911).

A idade dos alunos era diferente e por isso, não poderiam sujeitar-se a uma sistematização de programas, de horários e de exercícios como na Escola Primária. Tinha que se respeitar o aluno e o seu ritmo e não ser contrariado ou constrangido, tomando sempre como ponto de partida a sua curiosidade natural, desenvolvendo qualidades como a observação e a reflexão. Preconizava-se que se seguisse este programa no sentido de orientar toda esta nova estrutura organizativa, pois, se assim não fosse, correr-se-ia, “…o risco de se

transformarem estas escolas, este ensino preliminar, em verdadeiros centros de desordem, de brincadeira ou de puro charlatanismo pedagógico” (Ibid.:1911).

Este programa apresentava as bases para a professora realizar o seu trabalho nas diversas áreas de Educação, com directrizes como:

- Favorecer o desenvolvimento da Educação Física onde se valorizava a liberdade e acção da criança, os jogos e exercícios de relaxamento, não esquecendo os cuidados com o vestuário, a higiene, a alimentação. Os espaços onde ocorriam estes exercícios deviam ser ventilado com luz e boa temperatura;

- Dos órgãos dos sentidos realça a importância das particularidades dos objectos quanto à forma, cor e modos da sua utilidade;

- Sobre o desenvolvimento do sentido da visão, realça a importância de uma boa e cuidada observação do que nos rodeia, exemplificando com alguns exercícios a fazer pelos alunos;

- Para o desenvolvimento do sentido da audição, deviam proibir-se as crianças de gritar, evitar sons bruscos, agudos e intensos. Referia também a importância de conhecerem os objectos pelos sons que produziam. Realçou a importância de cantar em coro a duas e três vozes hinos e canções populares;

- No desenvolvimento do sentido do tacto, este programa referiu a importância de manter as mãos bem cuidadas, exercitar as crianças em tactear objectos sem os verem para os poderem identificar. Referiu também a importância de jogos e o jogo da cabra-cega;

- No desenvolvimento da habilidade manual, valorizou as construções escolares, a composição, decomposição e recomposição de objectos de variadas formas, naturais, arquitectónicas e artísticas, segundo as indicações de Froebel, a modelagem em plasticina e barro e trabalhos elementares de jardinagem e horticultura também faziam parte do programa;

- Para o desenvolvimento da linguagem, propôs contos infantis, exercitação do vocabulário, da sílaba e da palavra, como precioso preliminar do ensino da leitura;

- Os sentimentos morais e os sentimentos de solidariedade social, deviam ser desenvolvidos, chamando a atenção da criança para as suas próprias

necessidades, valorizando a vida em comum, despertando o amor do próximo, bem como a valorização das relações dentro e fora da escola.

“Levar suavemente a criança ao cumprimento dos seus deveres infantis, preceituados em harmonia com o que lhes é mais natural e possível, tanto em relação aos cuidados do asseio pessoal e conservação dos objectos do seu uso, como ao tratamento devido aos seus semelhantes, aos animais domésticos, etc. Conhecimento das diversas autoridades locais e pessoas mais prestimosas da terra, chamando a atenção das crianças para os serviços que umas e outras prestam á localidade, incutindo-lhes assim naturalmente os sentimentos de estima, de respeito e acatamento que se lhes devem. Despertar nas crianças o respeito e a sujeição ás leis e ás autoridades da República chamando-lhes a atenção para as garantias de bem-estar e de segurança que estas representam na sociedade” (DG, N.º198, 25/8/1911).

- Sobre o desenvolvimento da inteligência, valorizou-se o exercício de todas as funções intelectuais, destacando a percepção e a atenção pela observação de objectos e fenómenos que rodeiam o aluno, satisfazendo a sua natural curiosidade. Não se referiu especificadamente à Matemática, propôs o auxílio a objectos do dia a dia da criança para fazer simples adições, subtracções, para ensinar a contar até dez e até cem.

As noções de Geografia Descritiva também faziam parte deste programa, através da observação de lugares que a criança conhecia, principalmente os da sua localidade. Para tal realizavam-se passeios com as crianças e exemplificava-se através de construções e desenhos.

O ensino da Língua Materna mereceu especial atenção, pois todo o cidadão devia saber falar correctamente a sua língua. A Língua Materna segundo os Republicanos não podia tratar-se isoladamente e abrangia todos os níveis de ensino, e devia iniciar-se logo que a criança balbuciasse as primeiras palavras. De realçar que neste programa não existe qualquer tipo de intenção de ensinar a ler ou a escrever, mas sim a preocupação de preparar a criança para tal. A criança devia conhecer o máximo dos nomes de objectos, animais, vegetais, minerais, móveis, utensílios caseiros, peças de vestuário, alimentos, pesos e medidas mais vulgares, realçando as suas qualidades, bem como as principais partes do corpo humano que deviam repetir para corrigir defeitos de dicção. Deverão repetir pequenas frases acerca desses mesmos objectos. Pensava-se que esta forma de ensino devia ser feito gradual e progressivamente e de uma forma intuitiva, separando claramente as crianças de quatro a cinco anos onde as lições deviam ser curtas e dedicadas

quase exclusivamente ao aperfeiçoamento físico e orgânico (art.2.º, 3.º e 4.º). Somente dos seis aos sete anos as crianças podiam receber lições metódicas, não devendo ultrapassar os vinte minutos de duração, intercalando sempre com cânticos populares e patrióticos, e jogos, pois é “brincando que a criança se educa” (art.5).

Para a estrutura organizativa de funcionamento das Escolas Infantis, era muito importante esclarecer de forma clara qual o tipo de escola e dependências, o mobiliário e material de ensino pedagógico, o pessoal necessário e a frequência e divisão de grupos. Houve especial cuidado com a construção das Escolas Infantis. Deviam ser instaladas em edifícios próprios, construídas em terrenos vedados, em qualquer edifício público ou particular plenamente adaptado com todas as condições higiénicas e pedagógicas. Além de mostrarem preocupação pela qualidade do ensino estavam a acautelar possibilidades de construírem Escolas Infantis em outros locais. Legislou-se sobre a importância de haver um terreno anexo arborizado onde se pudesse praticar a jardinagem e a horticultura e próprio para crianças. (art.6.º). As salas deviam ser espaçosas, com excelente disposição de luz, ventiladas e sempre que possível ao mesmo nível do jardim; estar preparadas para a necessidade que as crianças têm de representar objectos ou animais; de riscar, garatujar e escrever, como tal, deviam ser forradas a ardósia ou ter quadros pretos à altura das crianças. A professora tinha a oportunidade de trabalhar com a criança o gosto pelo desenho e a observação, desenvolvendo a Educação dos sentidos e da destreza manual. (art.7.º e 8.º).

Devia haver: dormitórios para repouso das crianças de quatro e cinco anos (art.9.º), uma sala para cabides; um gabinete para a professora; uma sala com lavatórios e um balneário para as crianças tomarem banho sempre que necessário; na impossibilidade da existência deste deveriam existir “tinas para o mesmo fim na sala dos lavatórios” (art.10.º).

Na ausência de uma cantina devia a Escola Infantil possuir uma “...cozinha com fogão e o material necessário para que as empregadas possam aquecer e preparar as refeições que as crianças devem necessariamente tomar na escola” (art.11.º).

O mobiliário que se revelava muito importante para a especificidade desta escola, “…constará de uma mesa grande em forma de ferradura, disposta no meio de cada uma das salas, com bancos-cadeiras em volta, uma e outra proporcionados à altura das crianças; de cadeiras e secretárias para as professoras, e cadeiras pequenas para as crianças” (art.12.º).

O material de ensino também mereceu especial atenção pois seria também aqui uma novidade pedagógica, este devia compreender um ou dois quadros pretos, sendo um deles, quadrado; colecções de desenhos coloridos das plantas mais conhecidas e de animais do nosso País, uma colecção do material Froebeliano entre os quais se destacaria os dons de Froebel; colecções de jogos próprios para exercitar a atenção e a observação, a precisão e a destreza dos movimentos e auxiliar a Educação Física e a dos órgãos dos sentidos; uma colecção dos minerais mais conhecidos; barro ou plasticina para modelagem; alguns pesos e medidas e balança de braços iguais bem como utensílios de jardinagem. (art. 13.º).

Sobre o pessoal a trabalhar nas Escolas Infantis, o ensino devia “…ser ministrado somente por senhoras de mais de vinte e um anos de idade, convenientemente habilitadas e dotadas de faculdades especiais indispensáveis a este ensino”. Refere-se a importância de possuir habilitação própria, ou seja a especialização neste nível de ensino, bem como faculdades especiais indispensáveis. Na impossibilidade de existência de professoras especializadas, as Câmaras Municipais podiam contratar as professoras primárias com bom e efectivo serviço, que provassem competência especial para ministrar este ensino. As nomeações anulavam-se, se durante os primeiros dois anos de serviço se verificasse que a professora não possuía as qualidades, aptidões e competências indispensáveis, ou se mostrasse menos “zelo, cuidado, paciência e docilidade com as crianças”. Passados estes dois anos de bom serviço eram nomeadas definitivamente.

“A professora que melhores provas tiver dado da competência e aptidão, juntas a mais tempo de serviço, assumirá as funções de regente da escola, tendo a seu cargo o trabalho da escrituração e fiscalização, dos empregados menores e sendo-lhe concedida uma vigilante. Esta vigilante deve, pelo menos, saber ler e escrever e apresentar documentos que atestem o seu bom comportamento e boa Educação” (art.14.º).

Além das professoras e vigilante, as Escolas Infantis deviam dispor de tantos empregados quantos fossem julgados necessários (art.16.º). Só com bons profissionais e bem formados e com as condições ideais, as Escolas Infantis podiam vingar. Era uma Educação cara, que precisava de muitos recursos materiais e humanos.

A inspecção e fiscalização destas escolas estavam a cargo das professoras desta especialidade das escolas normais, dando conta anualmente à Direcção Geral da Instrução Primária de dados da competência e qualidade (art.15.º).

A frequência e a divisão das crianças também mereceram realce. As crianças deviam ser admitidas nesta escola depois de feitos os quatro anos de idade e com a apresentação de atestado médico, “…ser vacinada e sem sofrer de doenças ou defeito físico que possa prejudicar os companheiros” (art.º17.º). Realçamos também que a matrícula era permanente e a família da criança recebia no acto da matrícula o certificado de admissão e as condições regulamentares.

Sobre o horário da escola, estabeleceu-se que “As crianças conservar-se-ão na escola, em regra das nove horas da manhã às três horas da tarde”. (art.º20.º), sendo assim um horário igual ao das escolas primárias. As crianças eram distribuídas por grupos de quinze a vinte, sem distinção de sexo e idade, mais pelo seu desenvolvimento, temperamento, robustez e precocidade ou atraso. Cada um destes grupos estava a cargo de uma professora. (art.º21.º e 22.º). Nestas escolas os feriados e férias eram os mesmos estabelecidos no regulamento das escolas primárias (art.º23.º).