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3 O MOBRAL NO BRASIL, EM ALAGOAS E EM SANTANA DO IPANEMA: O

3.3 Estrutura organizacional do MOBRAL

3.3.2 O surgimento de novos Programas no MOBRAL

3.3.2.1 O Programa de Educação Integrada

Historicizando sobre a continuidade dos estudos, que foi implantada por meio do Programa de Educação Integrada, Corrêa (1979) relata que os idealizadores do MOBRAL, a princípio não pretendiam implantar a educação continuada o que vai de encontro do que menciona Paiva (2003, p. 373), ao dizer que:

A oferta da oportunidade de ‘educação continuada’ pós-alfabetização não constituiu, ao longo da história do MOBRAL, uma preocupação importante do movimento nem foi pensada antes de ter sido o programa lançado. O próprio MOBRAL admite que o programa de ‘educação integrada’ não nasceu do conhecimento prévio dos responsáveis pelo movimento dos problemas relativos à regressão da aprendizagem e do malogro das campanhas anteriores48.

A educação continuada realmente surge, segundo o então Secretário Executivo, a partir de um telefonema aflito que recebeu da coordenação do MOBRAL do Estado do Rio de Janeiro, comunicando que:

Em um dos municípios, os alunos já alfabetizados de duas classes recusavam-se a dar seus lugares aos que se haviam matriculado para o convênio seguinte. Apesar de alfabetizados, argumentavam que gostaram de aprender, da professora e do MOBRAL. Queriam fazer o curso de novo, mesmo já tendo seus diplomas. [...] Convencê-los foi impossível. Por isso aquele município ganhou suas classes de educação integrada e o MOBRAL do lugar começou a expandir-se. (CORRÊA, 1979, p. 32).

A resistência dos alunos em não deixarem a sala de aula, após serem declarados alfabetizados, sobretudo os adultos, cuja idade não os permitia ter acesso ao Ensino Fundamental do ensino diurno ou mesmo noturno, foi marcadamente um divisor no pensar do então Secretário Executivo, para a implantação de um Programa que permitisse a continuidade dos estudos dos egressos do MOBRAL. Essa realidade, anunciada na citação acima também foi registrada em Santana do Ipanema, na voz de uma ex-alfabetizadora entrevistada, ao dizer:

As alunas que se alfabetizavam rápido elas ficavam repetindo porque não tinham

onde continuar os estudos (grifo nosso). O MOBRAL era uma base pra o aluno se

alfabetizar e buscar outros campos, os que eram mais jovens se engajavam nas séries do ensino fundamental e os mais velhos que não mudavam pra cidade não tinham a oportunidade de continuar os estudos (EX-ALFABETIZADORA – A).

Essa fala mostra também que o MOBRAL possibilitou, no sertão, a circulação de estudos, quando a ex-alfabetizadora menciona que “Os que eram mais jovens se engajavam nas séries do ensino fundamental”. Ficou demonstrado que foi a partir do acontecido no Rio de Janeiro e “Por consenso dos então Coordenadores Estaduais/Territoriais e dos técnicos do MOBRAL Central, foi decidido no início de 1971 a criação do Programa de Educação Integrada” (CORRÊA, 1979, p. 177). Dessa forma o prosseguimento dos estudos surge, sobretudo, por motivos pragmáticos.

48Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA) – 1947; Campanha Nacional de Educação Rural (CNER) – 1952; Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo (CNEA) – 1958.

O PEI tinha a duração de 12 meses e correspondia às quatro primeiras séries do então ensino de 1º grau. A relevância da sua implementação dava-se ao fato em que no aprender a ler, não basta ao aluno: “Identificar, pela memória, a palavra lida. É necessário que essa identificação, mais que isso, essa vivência, tanto prévia quanto posterior à leitura, encante o aluno, tocando sua sensibilidade e elevando-o para verdadeira magia do aprendizado” (FARIA, 1977, p. 40). A citação acima evidencia a continuidade aos estudos para os alunos egressos do PAF, considerando a necessidade de:

1) Proporcionar conhecimentos básicos relativos aos conteúdos das diferentes áreas, correspondentes ao núcleo comum das quatro primeiras séries do ensino de primeiro grau, observando as características de funcionalidade e aceleração (grifo nosso); 2) Fornecer informações para o trabalho, visando ao desempenho em ocupação que requeira conhecimentos em nível das quatro primeiras séries do 1º grau, proporcionando condições de maior produtividade aos já integrados na força de trabalho, e permitindo o acesso a níveis ocupacionais de maior complexidade. (CORRÊA, 1979, p. 178).

Conforme o autor, o princípio metodológico da funcionalidade implementado no PAF requeria o princípio didático da aceleração, levando em consideração as experiências prévias dos alunos, tendo por base o método global, ou seja, partia de temas geradores provenientes das necessidades humanas e utilizavam-se os cartazes geradores.

Nesse sentido, o PEI seguia quase sempre as mesmas estratégias, mas com o objetivo de dar continuidade aos estudos pós-alfabetização. Ao final do curso avaliava-se o rendimento do aluno em todo o processo, “Sendo considerado apto a receber o atestado de escolaridade do Programa de Educação Integrada49 o aluno que domine os conteúdos propostos nos objetivos terminais” (CORRÊA, 1979, p. 186).

3.3.2.2 Programa MOBRAL Cultural

O MOBRAL Cultural teve seu lançamento em 1973, seguindo as ações que vinham sendo desenvolvidas pelo Programa de Educação Integrada. Seu objetivo foi o de:

Envolver o Mobralense e a comunidade em que ele vive, tentando integrá-lo nessa mesma comunidade com sua bagagem de cultura oral, acrescida das técnicas recém- adquiridas para ler, escrever e contar. Por outro lado, a atitude receptiva da comunidade usufruiria, da participação desses elementos novos, fluxos que auxiliariam o processo de integração. (CORRÊA, 1979, p. 241).

49 Segundo Faria (1977, p. 41) com o PEI “o MOBRAL atendeu de 1971 a 1977 cerca de 3.300.000, pelo Parecer nº 44/73, e ministrado pelas secretarias estaduais e municipais de educação”.

Nessa direção o citado Programa buscava a integração dos sujeitos que passaram pelo processo de alfabetização e pela Educação Integrada, ao meio social a partir da valorização das expressões culturais que estes sujeitos possuíam, concebendo a ação cultural como: “Complementação da ação pedagógica, preenchimento sadio das horas de lazer e valorização ou descoberta das potencialidades criativas do homem” (CORRÊA, 1979, p. 241-242).

Faria (1977, p. 43) ao tecer considerações acerca do lançamento e aceitação desse programa esclarece que foi enviada aos municípios uma circular que informava a pretensão da criação de mais um novo programa. Segundo o autor: “A receptividade foi magnífica, pois cerca de 2.000 municípios informaram, em apenas 15 dias, o seu desejo de participar do programa, oferecendo locais para utilização dos futuros postos culturais”. Acredito que isso aconteceu devido à carência de opções nas cidades, de atividades deste porte.

O objetivo maior era estimular as manifestações culturais existentes nas comunidades tais como: grupos de danças, grupos musicais, artesanato local, teatro, entre outros. O apoio dado aos postos culturais era efetivado pela passagem das Mobraltecas nos municípios. Faria (1977, p. 43) ao descrever as Mobraltecas esclarece que:

Essas unidades são caminhões equipados com videocassete, receptor de televisão, projetor de cinema, livros, pinacoteca, material de artesanato, palco desmontável – onde o animador da MOBRALTECA promove um verdadeiro ‘show’ de cultura e consegue a adesão e amparo de todos os talentos locais.

Observei que a partir da avaliação dos autores a relevância do MOBRAL Cultural para a valorização da cultura das comunidades foi notória, traduzida na forte aceitação do programa, uma vez que, “O primeiro Posto Cultural foi inaugurado em novembro de 1973, em Salvador, Bahia; em 1978 já totalizavam 3.150 instalações em todo o país” (CORRÊA, 1979, p. 254).