• Nenhum resultado encontrado

O Programa Gestão de Aprendizagem Escolar – GESTAR I

CAPÍTULO 3 - O PROGRAMA GESTÃO DE APRENDIZAGEM

3.3 O Programa Gestão de Aprendizagem Escolar – GESTAR I

professora Wilsa Maria Ramos (coordenadora de projetos especiais), foi

desenvolvida uma proposta de formação continuada para os professores de

português e matemática (o Programa GESTAR).

Martinelli (2009), na mencionada dissertação de mestrado, afirma que a

professora Wilsa Ramos

solicitou à professora Nilza Bertoni e ao professor Cristiano

Alberto Muniz [

43

] que construíssem uma proposta, já que

ambos conheciam o GESTAR I em função do trabalho de

formadores dele. Os grupos de professores constituídos

participaram do processo licitatório para a construção e

venceram a licitação.

A ideia inicial se consolidou em termos da Educação

Matemática, da Teoria de Philippe Perrenoud, por meio das

habilidades e das competências, da teoria da resolução de

problemas, do conhecimento matemático, da transposição

didática, da teoria dos quadros, da interdisciplinaridade e da

resolução de situação-problema.

Ao final das reflexões acerca dessas teorias, a essência do

programa foi constituída em torno da Educação Matemática,

conhecimento matemático e da transposição didática. Essas

teorias desencadearam o currículo em rede, os campos

conceituais e a resolução de situações-problema.

44

(MARTINELLI, 2009, p. 35-6).

Após essas considerações iniciais sobre as razões da criação do

Programa Gestão de Aprendizagem Escolar, passaremos a discutir a estrutura

do Programa GESTAR I e, em seguida, a estrutura do Programa GESTAR II.

3.3 O Programa Gestão de Aprendizagem Escolar – GESTAR I

43

A professora Nilza Eigenheer Bertoni e o professor Cristiano Alberto Muniz, como consultores

da área de matemática, compunham a Assessoria de Áreas Temáticas do

FUNDESCOLA/MEC..

44 A teoria dos campos conceituais, apesar de não ser em si uma teoria didática, “é uma teoria

cognitivista que busca propiciar uma estrutura coerente e alguns princípios básicos ao estudo do desenvolvimento e da aprendizagem das competências complexas, sobretudo as que dependem da ciência e da técnica”. O currículo em rede, por sua vez, “imprime novas concepções acerca da produção do conhecimento matemático através da resolução de situação-problema, exploração do conhecimento em ação, significação da matemática em situações de contextos da realidade do professor e concepção de situação didática como atividade maio da aprendizagem matemática, tendo por objetivo maior do ensino a capacitação do aluno em resolver situações matemáticas fora do contexto escolar”. (BRASIL, 2006b, p. 87 e p. 141).

Em 2001, ainda na gestão de Paulo Renato Souza, o Ministério da

Educação e Cultura do Governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) deu

início ao processo de implantação do Programa GESTAR, em nível de teste,

para as disciplinas de português e matemática, com a finalidade de atender ao

Ensino Fundamental I, da 1

a

a 4

a

séries (2º ao 5º ano). Essa iniciativa

correspondia ao esforço de implantação de mais uma etapa do Programa

Fundescola, e contemplava seis estados brasileiros: Rondônia, Acre, Bahia,

Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.

Com base em uma entrevista realizada com a professora Nilza Bertoni,

uma das conceptoras do GESTAR, como já citado, concedida em 12 de

outubro de 2009, Martinelli (2009, p. 36-7) informa que o GESTAR II

corresponde ao primeiro Programa de formação continuada do MEC, do 6º ao

9º ano do ensino fundamental e que uma das principais virtudes desse

Programa, corresponde ao modelo de formação e material fundamentado nas

teorias de Educação Matemática.

De acordo com o seu Guia Geral (BRASIL, 2002), o Programa Gestão

de Aprendizagem Escolar – GESTAR I apresenta-se como um conjunto de

ações articuladas para serem desenvolvidas junto aos professores habilitados

que atuavam nas primeiras quatro séries do ensino fundamental, nas escolas

públicas dos estados acima mencionados. É importante frisar que, no momento

em que o GESTAR foi elaborado, as exigências da Lei de Diretrizes e Bases da

Educação Nacional (LDBEN 9394/96), de licenciatura plena para os

profissionais da educação básica, ainda era uma realidade distante de sua

plena execução e a proposta do GESTAR I visava então capacitar profissionais

“leigos”, no intuito de “contribuir para a qualidade do atendimento ao aluno,

reforçando a competência e a autonomia dos professores na sua prática

pedagógica”. (BRASIL, 2002, p 11)

Um ponto importante nesse programa foi a sua estratégia. Esta foi

desenvolvida na modalidade de educação a distância, levando em conta o fato

de que os professores estavam em exercício profissional e naturalmente com a

rotina comprometida para o desenvolvimento de outras atividades. Conforme

enfatizado no Guia Geral (BRASIL, 2002, p. 11), a proposta também previa

momentos presenciais, voltados para dois objetivos: acompanhamento da

prática das atividades desenvolvidas no curso e apoio a aprendizagem dos

professores cursistas.

Essa dinâmica oferecida pelo programa era uma orientação constante,

durante a aplicação dos quatro semestres/módulos:

A orientação para a escola e para o aluno constitui a marca

específica do Programa Gestão da Aprendizagem Escolar.

Como o próprio nome sugere, o GESTAR é mais do que um

curso de formação continuada, incluindo outras ações

articuladas de intervenção na prática cotidiana do cursista.

(BRASIL, 2002, p. 11)

Observa-se então a valorização do profissional como peça fundamental

para alcançar o principal objetivo do programa que era provocar

transformações. Isso fica bem claro no delineamento desses objetivos gerais,

no quesito das transformações esperadas: nas práticas de aprendizagem dos

alunos, na qualidade do ensino, na ação pedagógica da direção e do corpo

docente e na reflexão sobre as representações acerca da profissão magistério,

do seu papel social e das competências que lhe são exigidas.

As concepções pedagógicas do GESTAR I orientavam para que o

professor promovesse no aluno o preparo para o mundo produtivo reclamado

pelo atual sistema econômico. Essa orientação estava em acordo com o artigo

205 da Constituição Federal, de 1988, segundo o qual a educação será

promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, “visando ao pleno

desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua

qualificação para o trabalho”.

De acordo com o Guia Geral (BRASIL, 2002), uma educação de

qualidade deveria contribuir para a realização do ser humano:

preparando o indivíduo para o mundo produtivo reclamado pelo

sistema econômico, não no sentido de dar-lhe formação para a

ocupação de um determinado posto de trabalho, mas de

desenvolver-lhe capacidades básicas para: (a) compreender e

transformar o mundo produtivo; (b) comunicar-se

adequadamente nas formas oral e escrita; (c) trabalhar em

equipe; e (d) exercer a função produtiva de maneira criativa e

crítica. (BRASIL, 2002, p. 13)

O citado Guia Geral traz também concepções sobre os elementos que

fazem parte do cenário educacional, entre as quais podemos citar a concepção

de escola, de aprendizagem, de avaliação, de apoio à aprendizagem, do

professor, de competência e da formação continuada em serviço.

No que diz respeito à formação continuada em serviço, ou seja, realizar

o curso durante as suas atividades de trabalho, a proposta do programa

entende que o processo de formação é permanente e sistemático para os

professores, tendo como objetivo o desenvolvimento de novos saberes

advindos da produção de conhecimento e uma estreita relação entre a prática e

o cotidiano da escola. Com isso, visava a implantação de uma ação

pedagógica em um movimento contínuo, no qual o professor, através da

formação continuada em serviço, aprimoraria o seu senso crítico costumeiro e,

a partir de um suporte teórico organizado, estimularia a reflexão crítica,

revendo a sua prática em sala de aula, com ampliação ou confirmação de sua

atuação profissional. Através dessa experiência, o projeto acreditava que o

professor vincularia o processo de ação e reflexão à sua prática, contribuindo

para a sua autonomia profissional.

A matriz do “Curso de Formação Continuada em Serviço” pode ser vista

no Quadro 3 do Guia Geral, o qual aqui recebeu a denominação de Quadro 11.

O material didático de apoio, conforme descrito no Guia Geral (BRASIL,

2002, p. 21), era composto pelos Cadernos de Teoria e Prática – TP

.

No caso

do GESTAR de matemática, eram usados 8 Cadernos de Teoria e Prática, de

Matemática. No de Língua Portuguesa, eram usados também 8 Cadernos de

Teoria e Prática dessa área. No caso do Programa Gestão de Aprendizagem

Escolar – GESTAR 1, os professores cursistas eram obrigados a participar dos

cursos de Matemática e de Língua Portuguesa, enquanto no Programa de

Aprendizagem Escolar – GESTAR II, conforme veremos adiante, só participava

de um deles, de acordo com a sua formação. Os cadernos de Matemática,

segundo o Guia Geral (BRASIL, 2002, p. 24), abordavam os aspectos relativos:

(a) à conceitualização de números e de Sistema de Numeração Decimal;

(b) às ideias das operações, as relações entre elas e seus algoritmos;

(c) à observação das formas e do espaço na Geometria;

Quadro 11 – Matriz curricular – Teoria e Prática do Programa Gestão de Aprendizagem Escolar – GESTAR I utilizada na Bahia.

Para o processo de aprendizagem, todos esses aspectos são

examinados em situações-problema. Cada Caderno de Teoria e Prática

constava de:

(a) uma página de apresentação do bloco ou TP;

(b) 3 unidades de conteúdo específico;

(c) uma Lição de Casa, a cada unidade, para ser concluída na Sessão

Presencial de Avaliação, no final de cada módulo;

(d) comentários sobre as respostas esperadas dos professores em relação às

atividades integradas propostas;

(e) uma bibliografia comentada;

Todavia, para a consecução dessas atividades e ainda para a

manutenção da proposta inicial do programa de “provocar transformações”,

foi elaborado um cronograma de atividades que deveriam ser realizadas a

distância, levando em consideração o número de horas semanais de estudo

que o professor realizaria.

Ainda conforme o Guia Geral, o apoio à aprendizagem deveria ser dado

pela ação ativa do formador e tutor que, ao considerar as especificidades da

escola, deveria organizar a implementação das ações do GESTAR I, na escola,

com o planejamento das atividades presenciais, o atendimento ao professor,

quinzenalmente, com acompanhamento da sua prática, e apoio ao aprendizado

do aluno. Com isso percebe-se a importância dada ao professor dentro da

proposta geral desse programa, inserindo uma nova modalidade de apoio ao

seu trabalho.

Cadernos de Teoria e Prática, de Matemática – GESTAR I

A seguir, será apresentada uma visão geral do conteúdo que foi

proposto para ser abordado. Vale destacar que esta era a proposta geral do

curso e que cada grupo formador realizou adaptações à realidade local,

conforme será visto mais adiante. Aqui comentaremos sobre o conteúdo

apenas do Caderno 1, os sumários dos demais poderão ser vistos no Anexo 2

Figura 6 – Capa do Caderno de Teoria e Prática 1 (TP1)

Quadro 12 - Sumário do Caderno de Teoria e Prática (TP1) - Gestar I - 2007

Caderno de Teoria e Prática 1 (TP1): Planejando o Ensino de Matemática

Era objetivo do Caderno de Teoria

e Prática 1 (p. 9) estudar “aspectos que

caracterizam a Matemática como ciência,

particularmente a sua linguagem e o

processo histórico-social na sua

construção”. Nesse Caderno é feita uma

reflexão sobre a importância do ensino da

matemática como conhecimento e suas

relações com a sociedade.

Na Unidade I, denominada,

Fundamentos para a construção do

objetivo geral da matemática, as

atividades apresentadas

caracterizavam-se por uma reflexão contínua sobre o caracterizavam-seu

papel disciplinar, definindo o seu objetivo geral no ensino fundamental, ao

mesmo tempo em que deixa claro quais competências matemáticas devem

exercer ao final desse ciclo, complementando como tais competências podem

ajudar no desenvolvimento do processo de exercício de cidadania conforme

dita o Art. 2ª da LDB-9394/96.

Na Seção 1, em que se aborda “O Conhecimento matemático e o

processo de ensino e aprendizagem” o objetivo é explicar a natureza histórica e

social de construção do conhecimento matemático; Na seção 2: A linguagem

matemática traz o objetivo de reconhecer que a Matemática possui uma forma

de linguagem universal que comunica aspectos qualitativos e quantitativos da

realidade e, na Seção 3, reforça a construção do objetivo geral do ensino da

matemática com uma avaliação pelo professor sobre todas as atividades que

foram realizadas durante a Unidade I, e quais os acréscimos que poderá

realizar em sua prática de ensino.

Na Unidade 2, o professor cursista é convidado a realizar uma análise

das habilidades e conteúdos que viabilizarão a aprendizagem dos assuntos

abordados e os que serão trabalhados nesse segmento de ensino. É

destacado que o trabalho em sala de aula pode levar a ultrapassar o senso

comum, levando o educando a aprender a raciocinar, a observar, interpretar

situações, abstrair, estabelecer relações entre conceitos dentre outras

habilidades que facilitem o aprendizado. A Unidade 3 traz atividades e

reflexões que possam promover o desenvolvimento das habilidades dos alunos

cursistas na identificação de atitudes e na reflexão constante de estratégias de

ensino.

Figura 7 - Incêndio no prédio da Secretaria da Educação e Cultura do Estado da Bahia, 2003. Fonte:

http://secbahia.blogspot.com.br/2008_07_01_arc hive.html

3.3.1 Implementação do GESTAR, de matemática, na Bahia

Como já mencionado, uma das principais dificuldades desta pesquisa foi

encontrar documentos sobre a implementação do programa GESTAR, na

Bahia, entre outras razões, pelo fato de esse programa não ter sido alocado no

Instituto Anísio Teixeira, como seria de se esperar, considerando ser esse um

local destinado a estudos, pesquisas, experimentações e formação de

professores do Estado. Na realidade, o programa ficou sob a responsabilidade

do Secretário da Educação, Eraldo Tinoco, do Governo Cesar Borges,

instalado no prédio da Secretaria de Educação, situado no Centro

Administrativo da Bahia (CAB).

Como já mencionado, um grande

incêndio ocorrido em uma parte do

prédio da Secretaria de Educação, em

2003, dificultou ainda mais esse cenário

(Figura 7). A destruição causada pelo

incêndio obrigou os profissionais do

Programa, segundo relatos formais e

informais, a se instalarem

provisoriamente em uma “salinha” do

Instituto Anísio Teixeira, os quais logo

foram transferidos para o prédio do

antigo Instituto do Cacau, no Bairro do

Comércio, onde ficou até retornar para o

prédio da SEC, nas instalações do

Projeto Bahia.

Em razão dessas dificuldades e para cumprir o objetivo geral

estabelecido nesta pesquisa, fez-se necessário buscar alternativas, o que nos

levou a optar pela produção de fontes orais, dando voz aos atores históricos

participantes desse Programa – líder, especialistas, professores formadores e

professores cursistas – para que os mesmos traduzissem a materialização

GESTAR, o que poderia ser complementada por eventuais registros de seus

acervos pessoais.