O programa História das Ideias Linguísticas, conhecido como HIL, no Brasil, foi desenvolvido a partir da década de 1980 coordenado por Eni Orlandi e um grupo de pesquisadores, através de um convênio estabelecido entre o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) – Unicamp e a Universidade de Paris VII representado pelo pesquisador Sylvain Auroux, o qual coordenava um trabalho internacional sobre a história das teorias linguísticas na França. Dessa colaboração, consolidou-se o projeto franco-brasileiro e Eni Orlandi organizou o livro “História das Ideias Linguísticas: Construção do Saber Metalinguístico e a Constituição da Língua Nacional”. Uma obra importante para os estudos das ciências da linguagem.36
Um dos objetivos do programa foi produzir conhecimento sobre a história da língua e a história do conhecimento sobre a língua nos países de colonização. Complementa Orlandi (2001) ao afirmar que esse projeto visa ainda
estabelecer e difundir estudos sistemáticos que tocam a questão da história do conhecimento linguístico e da história da língua, articuladamente, explorando novas tecnologias de pesquisa. Visamos conhecer a língua e o saber que se constrói sobre ela ao mesmo tempo em que pensamos a formação da sociedade e dos sujeitos que nela existem. Não menos importante, nessa perspectiva, é pensar a relação Língua/ Nação/ Estado e o cidadão que essa relação constitui (ORLANDI, 2001, p.9).
Essa obra possibilita indagações ao que concerne os discursos difundidos à sociedade, as propostas de ensino da língua e sobre a língua no período de
colonização até o ensino contemporâneo, assim como propicia analisar de que lugar e quais possíveis sentidos utilizam-se desses recursos para a constituição dos sujeitos, da sociedade e da história (ORLANDI, 2001).
Com o programa da História das Ideias Linguística, no Brasil, Orlandi (2001) e um grupo de pesquisadores se propõem a (re)pensarem a relação entre os processos de gramatização da língua e a constituição da identidade brasileira. Repensar a instrumentalização da língua e a questão da identidade de uma nação requer analisar as políticas de línguas (ORLANDI, 2001) no processo de institucionalização da língua portuguesa no Brasil como língua oficial e nacional (GUIMARÃES, 2005a, 2007).
É importante observar que a HIL está ancorada na perspectiva discursiva e analisa os discursos da e sobre a língua, propiciando novas leituras e gestos de interpretações (ORLANDI, 2015). Além de trabalhar com as contradições da Educação e das Ciências da Linguagem, se propõe também a partir da organização da língua, “atravessar um imaginário que mobiliza os sujeitos nos processos discursivos, pela descrição-análise dos processos de significação presentes no texto, mobilizando o dispositivo teórico e metodológico da AD”, explicita Silva (2007, p.143).
Para Bressanin e Leal (2017),
Essa articulação se dá, assim, na medida em que a Análise de Discurso faz com que esses objetos discursivos sejam relacionados às suas condições de produção, e sejam tomados não como documentos transparentes, mas modos específicos de produzir conhecimento em determinadas conjunturas históricas, que tecem determinados efeitos para os sujeitos, para os sentidos e para a história dos saberes. Tal relação nos possibilita dizer, ainda, que esse liame Análise de Discurso-História das Ideias Linguísticas joga no entremeio da própria constituição dessas disciplinas e põe em movimento a questão do político que necessariamente constitui as práticas linguísticas (BRESSANIN e LEAL, 2017, p.14).
Para Lagazzi-Rodrigues (2007, p.11), a História das Ideias Linguísticas, no Brasil, considera “a língua, em sua incompletude, configura um espaço político que delimita trajetos, propõe continuidades, silencia percursos. Assim, a HIL é uma história sempre tensa, marcada por injunções, possibilidades e apagamentos”. Segundo Orlandi (2007), para a HIL, a ciência, o Estado e o político são elementos indissociáveis. Nessa perspectiva, a HIL propõe (re)pensar o estudo da língua portuguesa como a língua nacional e do Estado brasileiro.
Para Pfeiffer (2001, p. 98) “compreender a HIL a partir dessa relação constitutiva, coloca, notadamente, o político como parte estruturante do conhecimento científico, contribuição indiscutível da análise do discurso para a história das ideias”. Dito de outra forma, a HIL busca compreender os sentidos para essa língua, assim como para os falantes dessa língua e outros envolvidos nesse processo de entender qual é a língua que nós brasileiros falamos, que nós professores ensinamos, que nós pesquisadores estudamos.
Nessa conjuntura, o projeto História das Ideias Linguísticas, inscrita em uma visão histórica das Ciências da Linguagem, tomou como objeto de observação os instrumentos linguísticos: dicionários e gramáticas (AUROUX, 2014) produzidas por brasileiros e outros aparatos textuais como catecismos, relatos dos viajantes, listas de palavras, manuais, normas entre outras textualidades como objetos discursivos.
Vale ressaltar que a abordagem de Eni Orlandi, no Brasil, difere de Auroux, na França, porque Eni Orlandi e o grupo de pesquisadores consideram as condições de produção como um elemento importante no processo de gramatização no Brasil. Segundo Orlandi (2015), as condições de produção37 envolvem a relação entre o
sujeito e a situação, incluem também o contexto sócio-histórico e ideológico.
Essas pesquisas no campo teórico da HIL redefiniram o sentido do que se conceituava como língua materna e língua nacional, deslizes que Eni Orlandi, no livro “Terra à Vista”, mostra através de análise dos relatos categorizados como documentos, a partir dos quais foi construída a identidade brasileira. Orlandi (1990) propõe abrir a História do Brasil para os tantos outros sentidos além dos produzidos pelos europeus.
Nessa perspectiva, a Análise do Discurso (AD) é um marco para a HIL no que tange a distinção entre a história e historicidade. A noção de história, grosso modo, estava atrelada à dimensão temporal e aos aspectos cronológicos dos fatos. A partir dos estudos da AD, considera-se a historicidade, a relação constitutiva entre os sujeitos e os sentidos afetado pelas condições de produção, pela temporalidade histórica.
Para Orlandi (2004, p.57), a historicidade está relacionada à história do sujeito e do sentido, elementos inseparáveis, pois a medida em que o sujeito produz sentido, “o sujeito se produz, ou melhor, o sujeito se produz, produzindo sentido. É esta a
dimensão histórica do sujeito - seu acontecimento simbólico - já que não há sentido possível sem história, pois a história que provê a linguagem de sentido”.
A autora alerta acerca de um ponto fundamental nas pesquisas envolvendo a HIL. Orlandi (2001) escreve:
Nós fazemos história das ideias linguísticas e não historiografia. Essa é uma diferença com consequências importantes. Fazer história das ideias nos permite: de um lado, trabalhar com a história do pensamento da linguagem no Brasil mesmo antes da linguística se instalar em sua forma definida; de outro, podemos trabalhar a especificidade de um olhar interno à ciência da linguagem tomando posição a partir de nossos compromissos, nossa posição de estudiosos especialistas em linguagem.[...] Trata-se de uma história feita por especialistas da área e portanto capazes de avaliar teoricamente as diferentes filiações teóricas e suas consequências para a compreensão do seu próprio objeto, ou seja, a língua (ORLANDI, 2001, p. 16).
Nessa conjectura, nossa ancoragem se dará na AD e na articulação com HIL para estudar o ensino de língua portuguesa na escola. Isso implica considerar que esta língua tem uma história afetada pelas políticas linguísticas e relações de força (ORLANDI, 2007b) ao considerar a língua portuguesa, imaginariamente, como a língua materna dos brasileiros.
Após explanarmos sobre o projeto da História das Ideias Linguísticas no Brasil, na perspectiva de Eni Orlandi e um grupo de pesquisadores, abordaremos a questão da gramatização (AUROUX, 2014) com o foco no período em que esse movimento ocorreu no Brasil.