4 O OLHAR DE ASSISTENSTES SOCIAIS SOBRE SUA PRÁTICA
4.1. Materiais E Métodos
4.1.1. A escolha do lócus
4.1.1.1. O Programa Luamim: Peças interventivas na realidade
O Luamim8, como é comumente chamado, foi criado em 1992, pelo jornalista e poeta Paulo Roberto Martins Ferreira, a partir do poema (homônimo) de sua autoria, denominado “Luamim: um anjo urbano” (1991), que relata a história de uma criança vivenciando risco pessoal e social em uma metrópole, tendo sido publicado pela editora CEJUP. É salutar ressaltar que a partir do poema, outras obras foram surgindo com o intuito de reproduzir por meio de vários tipos de manifestações da arte a denúncia em relação ao abandono de meninas e meninos, tanto pelo Poder Público, quanto pela família e pela sociedade. Manifestações da arte como vídeos, fotografias, esculturas, música e uma performance teatral encenada pelo próprio poeta e autor de Luamim, compõem o conjunto de artes que buscaram interpretar esta obra poética.
O conjunto desses trabalhos resultou de uma exposição artística denominada “Exposição Itinerante Luamim”. Objetivando se constituir em instrumento de sensibilização da população para a temática abordada, essa proposta multi-arte foi visitada por um número considerável de pessoas em Belém, onde ocupou ,em dezembro de 2000, uma praça pública. Juntamente com a exposição, outro meio de propagação do projeto foi utilizado, “as oficinas sócio-educativas de produção artística e de comunicação social”. Oficinas de teatro, música, vídeo, fotografia e estamparia.
No decorrer dos anos que se seguiram a isso, o projeto desempenhou suas atividades, primeiro em instalações de centros comunitários e associações de moradores dos bairros do Guamá (1992), e escolas estaduais de Belém (1993) e, em seguida em municípios do interior do Estado do Pará (1994/95), como Bujarú e Rondon do Pará, consecutivamente, oportunizando uma incorporação à visão timoneira do projeto em função do contato com a realidade interiorana destes municípios que, embora refletissem a lógica de precariedade das políticas públicas impressa na capital, apresentavam características peculiares e de graus alarmantes.
8“O filho da lua minguante, da fome e da solidão, a conjunção da palavra lua com o pronome obliquo mim, a sugerir lua minha, lua pequena, ou pequeno, minguado, explorado ou na interpretação de André Kisil, minguar: tornar-se pequeno, humilhar-se, descer ao chão e perceber”. (MARTINS, 1998,
Em 1997 com a aprovação de seu idealizador Paulo Martins, para o Curso de Mestrado em Serviço Social, do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, da Universidade Federal do Pará/PPGSS-UFPA, o projeto assume contornos científicos. Sua pesquisa9 relacionou os experimentos da arte-educação e da comunicação social com os procedimentos do Serviço Social. Esse acontecimento é embrião do desenvolvimento de metodologias que irão demarcar o espaço do Luamim na cena cientifica e cultural da sociedade. Daí surge, em diálogo com os Círculos de Cultura de Paulo Freire10 (1921-1997) e com construções de outros pensadores como Martin Heidegger, Jürgens Habermas e Max Weber: o conceito de “Peças Interventivas”.
Definido por Martins (2001) como “[...] a parte que faltava no processo, na coleção de instrumentos utilizados na intervenção social ante as novas exigências sociais e comunicacionais”, conforme o conceito de peças interventivas, empregado nas ações do Programa Luamim:
[...] são instrumentos da arte e da comunicação utilizáveis na prática do trabalhador social que, articuladas individualmente ou em conjunto, integram-se como documento à coleção de instrumentos próprios da área do Serviço Social e diligenciam a intervenção na realidade, podendo formar módulos auto-recicláveis conforme as necessidades e demandas do problema, da situação a ser enfrentada. (MARTINS, 2001).
Em 2005, o Luamim assume a condição de Programa e passa a desenvolver atividades de ensino, pesquisa e extensão nos bairros Guamá e Terra Firme em Belém, agregando mais dois projetos, o Projeto Crianças e Adolescentes Resilientes (PROCRIAR) e o Projeto Profissionalizante Luamim (PROLUAMIM). O PROLUAMIM, durante os anos que se desenvolveu, contou com o apoio do curso de Engenharia Civil, traduzindo-se na capacitação através do curso de informática básica dos usuários do Programa. O PROCRIAR desenvolve suas atividades inicialmente numa parceria entre o curso de Serviço Social, o de Comunicação Social e o de Arte, nas instalações do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) do bairro do Guamá, e nas dependências da UFPA. Tem por objetivo
9
“As técnicas da comunicação e da arte no desenvolvimento do trabalho social”. (COSTA JUNIOR, 2002)
10 Círculos de Cultura em Paulo Freire significa um método que agrega em co-existência conceitos como a participação, o diálogo e o respeito aos outros e o trabalho em grupo, possibilitando a promoção de trocas de valores entre os indivíduos.
trabalhar o desenvolvimento da resiliência.11, com crianças e Adolescentes que
vivenciam situações de violência.
Em 2007 o Programa passa a ter mais um projeto, o SER BRASILEIRO, idealizado por Heliana Baia Evelin Soria, assistente social, professora doutora da Faculdade de Serviço Social/UFPA e Coordenadora do Programa Luamim. O SER BRASILEIRO visa desenvolver atividades de cunho artístico que expressem as manifestações da dança e do folclore brasileiro, assim como o desenvolvimento de estudos e pesquisas sobre a cultura nacional, tendo como público alvo, acadêmicos ingressantes de vários cursos da UFPA. Nesse ano também, como reconhecimento às contribuições do Programa Luamim ao desenvolvimento da cultura em nosso país, o Ministério da Cultura (Minc) por meio do Fundo Nacional de Cultura premia o Programa com o “Selo Cultura Viva”, sendo uma das 120 melhores iniciativas do ramo escolhidas entre quase 3.000 inscritas em todo o território nacional.
Em 2008, com o apoio financeiro do Minc, e com a proposta de capacitar as lideranças comunitárias, produtores de cultura popular e artistas dos bairros do Guamá e da Terra Firme, surge o Projeto GUAMÁ E TERRA FIRME: a morada de artistas, prevendo como uma de suas ações a realização do 1º Encontro de Artistas e Produtores Culturais desses bairros. O Encontro aconteceu em maio de 2010, nas instalações da UFPA. Expressou a necessidade cada vez maior de se dar ênfase às manifestações populares desses bairros, além de colocar em pauta a falta de incentivos, principalmente financeiros, para a efetivação de direitos sociais básicos, como o da livre manifestação cultural, que contribuem para a desarticulação da violência. Um II Encontro de Artistas e Produtores Culturais dos Bairros do Guamá e da Terra Firme foi realizado em janeiro de 2013.
Em 2009 a Faculdade de Serviço Social reconhece a necessidade de tornar o Luamim campo de estágio para o aprimoramento dos saberes da profissão nas áreas da Educação e da Cultura, estabelecendo para tal, parcerias com o Programa e a Escola de Aplicação da UFPA.
11 A Resiliência é a capacidade que o individuo adquire de perceber suas adversidades, enfrentá-las, superá-las e sair fortalecido. 11[...], Resiliência é a ”capacidade humana para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado por experiência de adversidade” (GROTBERG, 2005 apud RIBEIRO, 2007, p. 26).
Para Evelin (2007), o Programa Luamim incentiva o protagonismo social de um modo singular de se fazer ciência, não excludente dos saberes populares, da arte e da cultura e busca através de suas iniciativas:
[...] construir conhecimentos relacionados ao Serviço Social no contexto das ciências da cultura de forma a subsidiar a prática profissional mais qualificada na dimensão da ciência e consciência, contribuindo para que grupos excluídos possam ver atendidos os seus direitos constitucionais à cultura; [...] identificar novas peças interventivas empregadas na prática profissional de assistentes sociais e outros trabalhadores sociais; [...] (EVELIN, 2007, p. 14-15).
Em 2010, portanto, forma-se a primeira turma de Serviço Social, com estágio curricular na área da Educação e da Cultura, da qual fizemos parte. Até este ano de 2014, já são cinco turmas formadas, nessa área sob orientação das professoras doutoras Silvia da Costa Stockinger Flores e Heliana Baia Evelin Soria. Isso significa dizer que a produção acadêmica sobre os bairros lócus de nossa pesquisa se ampliaram consideravelmente nesse período uma vez que, a maioria dos Trabalhos de Conclusão de Curso dos alunos (das turmas citadas) se desenvolveu utilizando a realidade desses bairros como referência.