3. PROGRAMA NACIONAL BIBLIOTECA DA ESCOLA: IDEOLOGIA E
3.1 O PROGRAMA NACIONAL BIBLIOTECA DA ESCOLA EM FOCO
Segundo Aparecida Paiva (2015), desde 1930, o MEC desenvolveu ações com o intuito ao acesso à leitura, contudo nos anos de 1980, a formação de leitores passou a ser debatida e defendida por meio de políticas públicas. Naquele momento, as políticas foram avaliadas como assistemáticas e descontinuas, conforme os princípios da administração, tendo como foco as bibliotecas escolares, a formação de leitores e a leitura. Os livros literários por si não garantem aos alunos o desenvolvimento de potencialidades leitoras. Por isso, o investimento na mediação de leitura do professor e da constante circulação de livros na formação de leitores, instituído na escola, por meio de bibliotecas escolares foi alto.
O PNBE iniciou em 1997 uma operacionalização importante na política, relacionada com o cumprimento de metas do Programa Nacional de Livro Didático (PNLD) com a vinculação de recursos para os programas do livro em vigência desde o início dos anos 1990 (SILVA,P., 2005, p. 52).
QUADRO 7 – DISTRIBUIÇÃO DE LIVROS ENTRE OS ANOS DE 1980 E 2015.
Ano Grupo atendido
1980
O MEC obteve livros para as bibliotecas das escolas por meio de parcerias:
Início de 1980 Ciranda da Leitura; no final de 1980 Viagem da Leitura; 1988, Sala de Leitura.
1998
Foram distribuídos para as escolas do segundo ciclo do Ensino Fundamental um acervo de 123 títulos, dentre os quais dicionários, obras literárias, atlas histórico, globos terrestres e um guia para orientar o uso do acervo.
1999
O acervo foi constituído com obras de literatura infanto-juvenil e foi distribuído para todas as escolas dos anos iniciais do Ensino Fundamental com mais de 150 alunos matriculados.
2000
O acervo foi constituído apenas com textos elaborados pelo MEC ou sob sua demanda para uso dos professores e distribuído para mais de 18 mil escolas do Ensino Fundamental.
2001 Coleções Literatura em Minha Casa, primeiramente dirigidas para alunos de 4ª e 5ª séries do Ensino Fundamental.
2002 Coleções Literatura em Minha Casa, primeiramente dirigidas para alunos de 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental.
2003
Coleção Palavra da Gente, para alunos da Educação de Jovens e Adultos.
Neste último ano, além dos livros das coleções Literatura em Minha Casa e Palavra da Gente, também foram constituídos acervos para a Casa da Leitura (bibliotecas itinerantes para uso comunitário no município), para a Biblioteca Escolar e para a Biblioteca do Professor.
2004 O programa suspendeu suas ações para reavaliação e retornou em 2005.
2005
Aquisição e a distribuição de livros apenas para a biblioteca escolar e com foco na literatura. A partir daí o PNBE passou a alternar a seleção das obras entre as escolas dos anos iniciais do Ensino Fundamental e as dos anos finais, progressivamente incorporando outros segmentos educacionais.
PNBE/2008 Educação Infantil. Educação Especial.
PNBE/2009 Ensino Médio..
PNBE/2010 Educação de Jovens e Adultos. O PNBE do Professor PNBE/2011 Anos finais do ensino fundamental e Médio.
PNBE/2012 Educação infantil creche, pré-escola, anos iniciais do ensino fundamental e educação e jovens e adultos.
PNBE/2013
Anos finais do ensino fundamental e Médio. PNBE/ temático para a valorização da diversidade: indígena, quilombola, campo, educação de jovens e adultos, direitos humanos, sustentabilidade socioambiental, educação especial, relações étnico-raciais e juventude.
PNBE/2014 Educação infantil creche, pré-escola, anos iniciais do ensino fundamental e educação e jovens e adultos.
PNBE/2015 Anos finais do ensino fundamental e Médio. Temático indígena.
FONTE: Adaptado de PAIVA (2015, p. 162).
Os estudos de Célia Regina Delácio Fernandes e Maisa Barbosa da Silva Cordeiro (2012) apresentam as mudanças dos critérios utilizados na escolha de obras literárias. O estudo analisa a progressão do programa e o compromisso com a literatura, por meio de focos distintos e que compõem na atualidade os aspectos referenciados nele como um todo. Nos anos de 1999 a 2004, os livros selecionados corresponderam ao projeto Literatura em minha casa, para compor uma biblioteca individual, por isso as bibliotecas escolares não foram contempladas. A relação entre o livro, a escola, o aluno, e a família é uma herança do PNBE, e, apesar de
configurações distintas, esta relação também existe como base no programa de leitura em Curitiba.
N: Falamos sempre para a pedagoga, a família é um agente que requer também a sua formação, ser formadora na unidade, você não fica só nos professores, você ganha dimensão e tem o apoio com a sua gestora, da sua diretora para fazer esse papel, como a gente faz essa família conhecedora.
Isso por meio de ações como empréstimos de livros, tardes literárias, acontecem em muitas unidades em que muitas famílias são convidadas a ler as histórias que seus filhos estão lendo na unidade. Estão tendo iniciativas muito legais principalmente em CMEIS. Eu também estou voltada com um olhar para a escola pela reescrita dos parâmetros da escola, de fazer cantos de leitura para adultos, daí não é a literatura infantil que vai e a literatura(…), mas desejando esse mesmo critério de qualidade que o adulto possa ler bons livros nesse canto, enquanto aguarda seu filho, ele deve ser convidado nesses momentos de integração são essas iniciativas que estão acontecendo (Entrevista realizada com a Comissão de livros em 06 de novembro de 2015 para a pesquisadora).
Ao considerar o quadro sobre os espaços de poder, apresentado no início deste capítulo, identificamos o alcance do discurso institucional do PNBE ao enunciar critérios de qualidade; a importância nos empréstimos de livros; a identificação dos parâmetros da escola para a leitura e a relação com a família. Em resumo, a pretensa qualidade enaltece grupos e sinaliza a escolha de critérios sobre o trabalho com a literatura infantil em dimensões sociais definidoras do que ler e em como ler municipais.
Os critérios de seleção, em 1999, foram estipulados pela Fundação Nacional do Livro Infantil (FNLIJ), por ser uma instituição com reconhecimento nacional na área da literatura para o público infantil e juvenil e pela Secretaria de Educação Especial (SEESP). O ingresso da secretaria foi pela escolha de quatro obras voltadas às crianças com necessidades educacionais especiais. Naquele ano, foram atendidas 36 mil escolas de 1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental com 150 ou mais alunos e com investimento de R$ 21.427, 859, 77, com o total de 110 obras selecionadas de literatura infanto-juvenil. Os critérios sobre a seleção das obras não foram disponibilizados pelo site do FNDE, elas foram obtidas no site do FNLIJ, mencionando a qualidade do texto, imagem e o projeto gráfico. Apesar de não haver detalhes sobre os critérios, havia dois pareceres de alguns especialistas que acompanharam a seleção, atentando para a questão. Neste período, o programa enfrentou muitas críticas, “pois em boa parte das escolas, os livros não foram entregues aos alunos por razões que precisam ser esclarecidas por meio de pesquisas” (FERNANDES; SILVA, 2012, p.321).
No ano de 2001, a comissão técnica era composta por um Representante do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED); Representante da Associação de Leitura do Brasil (ALB); Representante da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e técnicos especialistas na área de leitura, literatura e educação. Os critérios apresentaram uma pequena introdução e as considerações recaíram sobre gênero, assuntos, títulos e autores representativos de várias regiões e épocas, projeto gráfico e ilustrações adequadas ao público. O critério avaliativo considerou a importância do público infantil, contudo sem especificar a formulação deles e tal edital seguiu próximo aos critérios de 1999 (FERNANDES; SILVA, 2012).
Em 2002, a comissão técnica foi composta por um representante do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) e por um representante da União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME) por estado; membros da comissão técnica estabelecido pela Portaria 1.440 de 15 de maio de 2002 e oito representantes do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER). Os critérios foram: não escolher nenhum dos livros do ano anterior, ênfase no leitor para proporcionar diferentes experiências literárias e como primeiro aspecto a representação da cultura brasileira. O projeto gráfico e as ilustrações foram especificados em um projeto editorial. Naquele ano, a ênfase foi o aprimoramento dos critérios na seleção e avaliação do edital (FERNANDES; SILVA, 2012).
Em 2003, o PNBE começou a qualificar as bibliotecas escolares com o envio de obras a serem usadas pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) junto aos professores e comunidade. Neste ano, no tópico sobre a seleção quanto ao projeto editorial foi mencionada a ideia de “projeto orgânico” e não uma série de textos reunidos, “como um pequeno retrato da cultura brasileira, convidando e instigando o leitor à experiência estética e a reflexão crítica sobre o mundo que vive ” (BRASIL, 2012, p.322). Mantiveram, naquele ano, a representatividade dos autores em várias regiões e épocas e na escolha de títulos. A equipe recebeu nomes novos para definir a seleção e a avaliação. Em 2004, tais ações permaneceram, e em 2005 o PNBE se volta para a manutenção das bibliotecas. O Programa naqueles anos conseguiu a universalização e atendeu a todas as escolas brasileiras iniciais do Ensino Fundamental de 1ª a 4ª séries.
Desde 2005, tendo como parceria o Ceale/UFMG, o PNBE se voltou à qualificação das bibliotecas, escrevendo um texto inicial sobre os critérios gerais para
a seleção das obras especificados como: “critérios de seleção”, termo utilizado em 2005 e 2006 (FERNANDES; SILVA, 2012).
Neste termo, são importantes os critérios na ampliação e qualidade dos livros literários pelo programa, como também assinalamos os aspectos de controle por meio dos discursos institucionais em espaços de poder na suposição de que esses aspectos influenciarão outros programas institucionais.Talvez, isto, pareça muito bom, mas devemos manter a cautela quando as regras e os critérios compartilhados, são expressos por um único grupo, durante muito tempo. É natural supor que as atividades de produção de um livro são distintas no modo de investigação em como os livros operam com os textos, pois corporificam estruturas ideológicas sociais. Na continuidade dessas reflexões, o subcapítulo abaixo pretende observar os critérios das obras voltados ao acervo da educação infantil.