3 A FUNÇÃO EDUCATIVA DA BIBLIOTECA ESCOLAR
4 BIBLIOTECA ESCOLAR E LEITURA: O QUE SE TECE NAS LEIS DA EDUCAÇÃO E NAS POLÍTICAS PÚBLICAS
4.4 O PROGRAMA NACIONAL BIBLIOTECA DA ESCOLA PNBE
O desejo de ampliar o acesso aos bens culturais tem sido ideal perseguido por diversos pensadores da educação brasileira, a exemplo de Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Paulo Freire e suas propostas têm alicerçado os profissionais da educação na busca pelo acesso à cultura e à educação para todos.
Nesse sentido, o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) do Ministério da Educação (BRASIL, 2012b) tem por objetivo promover o acesso do aluno e de professores à cultura bem como incentivá-los a ler, através da
distribuição de obras literárias, de pesquisa e referência. O atendimento às escolas é realizado em anos alternados de modo a corresponder à toda educação básica e educação de jovens e adultos, de forma universal e gratuita, considerando as escolas cadastradas no senso escolar. Assim, contemplam, em um ano, as escolas de educação infantil, de ensino fundamental anos iniciais, e de educação de jovens e adultos. No ano seguinte, são contempladas as escolas de ensino fundamental para os anos finais e de ensino médio.
Segundo o Ministério da Educação (BRASIL, 2012c, 2012d) o programa, desenvolvido desde 1997, é realizado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), em parceria com a Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (SEB) e tem recursos financeiros originários do Orçamento Geral da União e da arrecadação do salário-educação.
O Ministério da Educação (BRASIL, 2012b) evidencia que o programa divide-se em três ações: 1. avaliação e distribuição de obras literárias compostas por textos em prosa, em verso, livros de imagens e livros de histórias em quadrinhos; 2. o PNBE Periódicos que avalia e distribui periódicos com conteúdo didático e metodológico para as escolas da educação infantil ao ensino médio; e o 3. PNBE do Professor, que tem por objetivo apoiar a prática pedagógica dos professores da educação básica e também da Educação de Jovens e Adultos por meio da avaliação e distribuição de obras de cunho teórico e metodológico. As ações do PNBE são executadas de forma centralizada, com apoio logístico das escolas públicas, prefeituras e secretarias estaduais e municipais de educação.
Sendo uma política pública educacional, o PNBE, conforme Guimarães (2009) apresenta dificuldades, “[...] dentre elas, destacamos a falta de controle após a distribuição dos livros pelo programa, isto é, não se sabe que tipo de atividade as escolas realizam com os livros.” Assim, diante da desigualdade social e divergências políticas e econômicas do país,
Não é possível ao governo federal, nem mesmo ter controle se eles realmente serão utilizados pelos alunos, pois muitas escolas mantêm os livros em caixas fechadas por medo de que eles sejam ‘estragados’. Há ainda casos que os livros não
chegam às escolas. (GUIMARÃES, 2009)
Nesse sentido, a autora relata que faltam políticas educacionais que promovam a estrutura física da biblioteca escolar, informatizando-a e equipando-a de maneira adequada, com existência do bibliotecário no cenário da biblioteca escolar para cumprir a sua função. Vale destacar que “[...] outra questão importante é a ausência de ações que priorizem a capacitação de professores para realização de um trabalho utilizando o acervo e os recursos que a biblioteca escolar possui ou deveria possuir.” (GUIMARÃES, 2009) Assim, o acervo se não utilizado e referenciado, para o processo da leitura, torna-se sem sentido para o usuário.
Paiva e Beremblum (2009), em parceria com a UNESCO, nos anos de 2005 e 2006, avaliaram o PNBE a partir da política de distribuição de livros para as práticas pedagógicas e educativas e as diversas formas de apropriação e implementação dessa política, por parte dos educadores da escola, no que se refere ao uso e a significados da biblioteca e das obras literárias oferecidas. Os resultados da pesquisa demonstraram que
[...] O cotidiano das escolas visitadas, as condições sociais em que estão inseridas definem o PNBE como uma ação cultural de baixo impacto nas políticas de formação de leitor e produtor de textos [...] mais além da limitação de espaço, demonstraram práticas interessantes e vívidas, transformando o impossível em espaço renovado, ativo dinâmico e propício para a formação de leitores e escritores. (PAIVA; BERENBLUM, 2009, p. 184)
As autoras também mencionam a compreensão distorcida da comunidade escolar sobre as finalidades sociais das bibliotecas resultando em enfoques unicamente didáticos, simplistas e alienadores. (PAIVA; BERENBLUM, 2009) Nesse sentido, é imprescindível que o corpo técnico da escola composto pelo diretor, coordenador, supervisor, com formação superior, conceba a biblioteca da escola como espaço de aprendizagem e conhecimento, proporcionando aos professores e alunos condições para utilizarem esse espaço e seu acervo de forma criativa e habitual.
Ainda, de acordo com Paiva e Berenblum (2009, p. 185), na pesquisa diagnóstica, fica evidenciada
[...] a fragilidade da formação técnica dos profissionais que atuam na escola: professores, coordenadores, pedagogos e diretores, independentemente do tempo de formação de cada um e do nível de formação (magistério, formação universitária de graduação ou de pós-graduação).
Diante de tal realidade, é visto que a biblioteca da escola, espaço difusor da leitura é “[...] substituído por salas de leitura, ‘cantinhos’, etc.” (PAIVA; BERENBLUM, 2009, p. 185). Assim, na concepção das autoras, estes educadores poderiam perceber que o ambiente da biblioteca é propício para o desenvolvimento da autonomia de pensamento, de criatividade e fonte de conhecimentos utilizando-a como recurso pedagógico na formação da identidade dos alunos e da comunidade escolar.
Nos resultados da pesquisa diagnóstica sobre o PNBE, pôde-se vivenciar que “[...] a figura mais comum encontrada neste espaço é a do ‘professor readaptado’, ou seja, deslocado da função de regente de turma por problemas de saúde.” (PAIVA; BERENBLUM, 2009, p. 186)
Contudo, essas distorções que dificultam o reconhecimento da biblioteca escolar como espaço de difusão da leitura, quando compensadas pela existência de um acervo diversificado para o entretenimento e acesso do aluno, obtém-se o seguinte resultado, conforme relatam Paiva e Berenblum (2009) sobre mudança a partir dos programas, implicando na frequência dos alunos às bibliotecas ou salas de leituras das escolas e a relação dos alunos com a leitura. Diferente da atitude dos professores, os alunos revelaram concepções claras de leitura e escrita e sua importância para vida, evidenciando grande interesse por diferentes práticas de leitura.
Nesse viés, é importante considerar e afirmar que, apesar das dificuldades vivenciadas pela biblioteca escolar no Brasil, o resultado da pesquisa de Paiva e Berenblum (2009, p. 187) evidenciou a seguinte informação:
[...] que as coleções estão produzindo importantes impactos de incentivo à formação de leitores, ainda que seja necessário dedicar tempo e recursos para a realização de acompanhamento desses resultados e novas avaliações.
Nesse sentido, importa também dar destaque à pesquisa Salvador Lê - Observatório de Leitura11 bem como à atividade de extensão Leitura Com..., desenvolvidas na Escola Municipal do Pau Miúdo, Salvador –Ba, pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem (GELING), sediado na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, e que vem resultando na circulação de livros de diferentes acervos do PNBE, entre os quais se destacam O Gato Malhado e Andorinha Sinhá, Jorge Amado; A bolsa amarela, A casa da madrinha - Lygia Bojunga Nunes; Do outro mundo, Hoje tem espetáculo: No país dos perequetés - Ana Maria Machado; Varal de poesia – Cecília Meireles e outros poetas; Quatro mitos brasileiros - Mônica Stahel; O fantástico mistério do Feiurinha - Pedro Bandeira; Uma história de Futebol - José Roberto Torero; Histórias que o povo conta, Bazar do folclore - Ricardo Azevedo; Canções do Brasil - Álvares de Azevedo, Olavo Bilac e outros poetas; O pequeno príncipe - Antoine de Saint-Exupéry; O Santinho - Luis Fernando Veríssimo; Chapeuzinho Vermelho - João de Barros (adaptado); Ludi vai à praia - Luciana Sandroni; História de lenços e ventos - Ilo Krugli; Poesia das crianças - Casimiro de Abreu, João Cabral de Melo Neto e outros poetas.
Vale ressaltar que as ações nas políticas públicas educacionais, especificamente do PNBE, em prol da leitura e da biblioteca, quando continuada, avaliada e diagnosticada devem, ao longo do tempo, contribuir significativamente para a educação do país em todas as instâncias.
Sobre as políticas públicas na área da leitura em 2011, o governo concebe o Plano Nacional do Livro e da Leitura como ação de governo, que será tratado a seguir.