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PARTE II CONTEXTUALIZANDO A PESQUISA

Capítulo 4 As ações do Estado contra a pobreza em Cabo Verde

4.1. O Programa Nacional de Luta contra a Pobreza

Os estudos sobre a pobreza realizados em 1993, com base nos resultados do inquérito às receitas e despesas familiares realizado em 1988/1989, mostraram que, na ocasião, 30% da população cabo-verdiana era pobre, dos quais, 14% viviam numa situação de extrema pobreza (CODESRIA, 2008, p. 19).

Posteriormente, nos anos 2001/2002, um novo Inquérito às Despesas e Receitas Familiares (IDRF) foi realizado pelo Instituto Nacional de Estatística. Neste âmbito, foi definido como linha de pobreza o montante de 43.250$00/ano, per capita, que corresponde a uma despesa mensal de 3.604$00, cerca de 120$00/dia (equivalente e 1,40 dólar). Assim, todas as pessoas cujo nível de despesa se situe abaixo desse limiar são integradas na categoria de pobres. Dentre os pobres, o IDRF identifica os muito pobres, ou seja, pessoas cujo nível de despesa anual não ultrapasse 28.833$00, cerca de 80$00 diários (equivalente a 0,93 dólar).

Os resultados do IDRF 2001/2002 mostraram um agravamento da situação da pobreza em Cabo Verde, verificando-se um total de 36% de pobres e 20% de muito pobres. Assim, de um total de 470 687 habitantes estimados em 2001/2002, 172.727 viviam no limiar da pobreza, ou seja viviam com um rendimento anual não superior a 43.250$. Destes, 93.000 são muito pobres, isto é, o grupo de indivíduos que vivem com menos de 28.833$, por ano (CODESRIA, 2008, p. 19-20) e 80$00 (escudos cabo-verdianos) por dia, equivalente a 0,93 dólar.

No sentido de pôr cobro a esta situação de pobreza, a partir de 1997, o Governo de Cabo Verde, com apoio de parceiros internacionais, concebeu o Programa Nacional de Luta contra a Pobreza (PNLP), um programa-quadro, que visa congregar recursos financeiros e organizacionais das instituições governamentais, dos municípios e da sociedade civil para uma intervenção profunda, abrangente e eficaz no combate à pobreza, especialmente nas comunidades rurais do país.

Além disso, em 2004, em uma abordagem que se pretende mais integrada e holística, foi elaborado um Documento de Estratégia de Crescimento e Redução da Pobreza (DECRP, 2004, 2008) que tem como uma das principais finalidades uma maior

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centralização da problemática da pobreza no âmbito da formulação e implementação de políticas públicas.

Assim sendo o PNLP constitui-se como um dos instrumentos principais da implementação do Documento de Estratégia de Crescimento e Redução da Pobreza (DECRP),151 cujos objetivos se articulam estreitamente com as Grandes Opções do Plano152 e com os programas específicos elaborados pelo Plano Nacional de Desenvolvimento.

Importa sublinhar que o DECRP não aborda a questão da pobreza como um fenômeno isolado, mas como uma dimensão específica da orientação global da estratégia nacional de planejamento do desenvolvimento, definida pelas Grandes Opções do Plano (GOP), com o objetivo de responder sobretudo ao desafio de estimular o desenvolvimento e o crescimento econômico com inclusão, fazendo participar os mais pobres nos benefícios do dinamismo da economia. Aliás, é consensual o reconhecimento de que esta preocupação tem inspirado os sucessivos governos do país, desde a independência nacional, em 1975 (CABO VERDE, 2008).

Nessa perspectiva, o Programa Nacional de Luta contra a Pobreza (PNLP) assenta e orienta a sua estratégia e metodologia de intervenção nos seguintes princípios: i) reduzir a pobreza de forma durável e sustentável, ii) combater a pobreza no quadro descentralizado e iii) promover a participação e a coordenação de esforços dos atores e parceiros do Programa (CABO VERDE, 2004, 2008).

Dada a dimensão e complexidade do fenômeno da pobreza e do próprio programa para a sua erradicação, o PNLP estrutura-se em quatro sub-programas: i) integração dos pobres na economia, ii) melhoria do acesso dos pobres aos serviços básicos da educação, saúde, planificação familiar, saneamento e proteção social, iii) melhoria da capacidade das instituições e organizações nas técnicas e métodos de planificação, coordenação e seguimento das atividades de luta contra a pobreza, iv) mobilização social (CABO VERDE, 2009, p. 2).

151 Documento estruturado em torno de cinco pilares: i) Boa Governação (Reforma do Estado e da Nação), ii)

Capital Humano, iii) Competitividade, iv) Infraestruturação Econômica do país e v) Coesão Social (DECRP, 2004).

152 As Grandes Opções do Plano visam fornecer o quadro de referência para a execução desse Programa e

definir a estrutura de base do Plano Nacional de Desenvolvimento, constituindo a agenda estratégica para a actuação convergente das várias áreas da governação. Disponível em: <http://www.minfin.gov.cv/index.php?option=com_docman&amp;task=cat_view&amp;gid=62&amp;Itemid =100065>. Acesso em: 03 set.2012.

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O PNLP focaliza a sua atuação na camada da população que vive abaixo do limiar da pobreza, com prioridade para os seguintes grupos alvos: i) mulheres, sobretudo as mulheres chefes de família; ii) desempregados e, particularmente os jovens desempregados; iii) grupos em situação de vulnerabilidade; iv) trabalhadores das Frentes de Alta Intensidade de Mão-de-Obra (FAIMO) (CABO VERDE, 2004, 2008).

Para atingir os objetivos da luta contra a pobreza, o Governo, com a ajuda de diferentes parceiros internacionais, financia várias ações integradas, consubstanciadas em três projetos específicos, implementados pelo PNLP, recobrindo três componentes fundamentais: i) integração dos pobres na economia; ii) construção das infra-estruturas econômicas e sociais de base; iii) e melhoria do acesso dos pobres aos serviços sociais de base (CODESRIA, 2008, p. 20).

1. Projecto de Desenvolvimento do Sector Social (PDSS), no montante de 18,1 milhões USD foi 90% financiado pelo Banco Mundial, através da Associação Internacional para o Desenvolvimento (IDA) e 10% pelo Governo de Cabo Verde. Implementado de 2000 a 2004, o PDSS visa a redução da pobreza através da criação de empregos e utilização de materiais locais, construindo infraestruturas socioeconômicas em 109 localidades, dos 17 municpios153do país, a partir da implantação da convenção-quadro de 2001. Coordenado pela Unidade de Coordenação de Projetos do Programa Nacional de Luta contra a Pobreza (UCP-PNLP), a execução dos projetos (lançamento no mercado e seguimento) foi efetuada pela Agência Cabo-verdiana de Promoção do Emprego e do Desenvolvimento Local (AGECABO), a partir da escolha das Comissões Municipais de Parceiros (CMP)154.

Importa destacar que, antes da sua implementação a nível nacional, o PDSS foi objeto de uma fase piloto de um ano, nos municípios do Porto Novo, São Vicente, Praia e Santa Cruz. Neste âmbito, a construção de 22 infraestruturas gerou 22.250 hj de trabalho, no montante de 57.350.000$00 CVE (escudos cabo-verdianos), equivalente a 674.706,00 dólares.

2. Programa de Luta contra a Pobreza no meio Rural (PLPR), dotado de um orçamento de 18,335 milhões USD, 50% financiado pelo Fundo Internacional de

153 Até 2004 existiam 17 municípios em Cabo Verde. A partir de 2005 foram criados mais 05, totalizando,

atualmente, 22 municípos.

154 As Comissões Municipais de Parceiros (CMP) precederam a criação das Comissões Regionais de

Parceiros (CRP) estas implementadas no âmbito da execução do Programa de Luta contra a Pobreza no Meio Rural (PLPR), a partir da 2ª fase da execução do PLPR, iniciada em 2004.

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Desenvolvimento Agrícola (FIDA), 36% pelo Governo de Cabo verde e 14% pelos beneficiários do Programa, para um período de nove anos, de 2000 a 2009. Ilhas de intervenção do PLPR são Santo Antão (municípios de Porto Novo, Paul e Ribeira Grande), São Nicolau (municípios de Ribeira Brava e Tarrafal de São Nicolau), Fogo (municípios de São Filipe, Mosteiros e Santa Catarina do Fogo) Brava e Santiago (municípios de São Miguel e Tarrafal)155.

3. Projecto de Promoção Socioeconômica de Grupos Desfavorecidos (PSGD), no montante de 6,1 milhões de dólares, 90% financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e 10% pelo Governo de Cabo Verde. Para um período de cinco anos, o PSGD iniciou em dezembro de 2000 e terminou em 2006, tendo beneficiado comunidades pobres das ilhas de Santo Antão, São Vicente e São Nicolau. Centrado nas micro-finanças, este projeto contemplou, igualmente, ações de formação e de apoio às iniciativas locais.

Além dos parceiros/financiadores internacionais acima referidos, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) financiou o Observatório da Pobreza e a diretora administrativa e financeira da Unidade de Coordenação de Projetos (UCP) do PNLP.

De resto, segundo UNOPS (2001), outros parceiros do desenvolvimento de Cabo Verde financiaram ações específicas de luta contra a pobreza, complementares ao PNLP, dentre os quais destacamos i) a Cooperação Alemã, através da Sociedade Alemã para a Cooperação Técnica (GTZ), implementou o projeto de apoio ao desenvolvimento comunitário e fomento à pesca artesanal - Fopesca - nas ilhas do Fogo e Brava, ii) a União Europeia participou financeiramente na reafetação dos trabalhadores das Frentes de Alta Intensidade de Mão-de-obra (FAIMO), através de um programa de infraestruturas rurais realizadas em colaboração com os municípios, iii) a Cooperação Austríaca financiou o mesmo programa (da EU) nas componentes: mobilização social, formação técnica e apoio às Pequenas e Médias Empresas (PME), com o projeto Alterfaimo, iv) a Cooperação Francesa financiou projetos sociais orientados para a criação de empregos permanentes e actividades geradoras de rendimentos (AGR), destinados às ONG, associações

155 No entanto, em 2007, último ano da 2ª Fase do PLPR, o Governo de Cabo Verde submeteu uma proposta

de alargamento da 3ª Fase de 03 para 04 anos e a extensão do PLPR aos restantes municípios da ilha de Santiago: Ribeira Grande de Santiago, São Salvador do Mundo, São Lourenço dos Órgãos, São Domingos, Santa Cruz, Santa Catarina, Praia Rural e às Ilhas do Maio e São Vicente. Sal e Boavista, por serem ilhas de vocação turística, não foram incluídos (CABO VERDE; FIDA, 2008, p. 8).

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comunitárias e câmaras municipais. As áreas prioritárias de sua intervenção são: a) apoio a inserção econômica das mulheres, b) apoio a inserção dos jovens e prevenção da delinquência, c) promoção de direitos humanos e proteção da infância.