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CAPÍTULO III – O PROGRAMA DE INCLUSÃO DIGITAL NAVEGAPARÁ

3.2 O PROGRAMA NAVEGAPARÁ E AS ARTICULAÇÕES COM O CONTEXTO

A ideia de articular um movimento para a construção da Sociedade da Informação em nível mundial surge no ano de 1998, por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) e da União Internacional das Comunicações (UIT), culminando, posteriormente, no encontro em Genebra que dá origem à Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI). Essa cúpula teve como objetivo reunir os países para que, juntos, pudessem traçar um marco global que servisse de bases para a sociedade que se pretendia consolidar. Organizada em duas fases, a primeira em Genebra (Suíça), em 2003, e a segunda em Túnis (Tunísia), no ano de 2005,

seus desdobramentos deram origem a 4 (quatro) documentos10 que servem de referência para as políticas de inclusão digital, implementadas nos países signatários (CGIBR, 2013).

No Brasil, a discussão da Sociedade da Informação data do final da década de 1990, com a criação do Decreto 3.294 (BRASIL, 1999), que institui o Programa Sociedade da Informação (SOCINFO). Conhecido como Livro Verde da Sociedade da Informação, lançado no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, no ano 2000, o documento traçava as metas e objetivos a serem alcançados para que o Brasil pudesse se inserir na nova sociedade que estava sendo formada. Em seus objetivos o SOCINFO previa:

Promoção da universalização do acesso à internet, buscando soluções alternativas com base em novos dispositivos e novos meios de comunicação, promoção de modelo de acesso coletivo ou compartilhado à internet, bem como projetos que promovam a cidadania e a coesão social. [...] integrar, coordenar e fomentar ações para a utilização de tecnologias de informação e comunicação, de forma a contribuir para a inclusão social de todos os brasileiros na nova sociedade e, ao mesmo tempo, contribuir para que a economia do país tenha condições de competir no mercado global (TAKAHASHI, 2000, p. 10).

Do exposto, conclui-se que o objetivo que caracterizou a elaboração do programa buscou criar um mercado de produtos tecnológicos, com intuito de fortalecer a economia nacional para que o país pudesse competir no mercado internacional. Além disso, buscou promover a inserção das tecnologias da informação e comunicação nos diversos espaços, como possibilidade de realizar a complexa inclusão social. Aliás, esse discurso tem caracterizado quase a totalidade dos objetivos, que caracteriza o desenho das políticas de inclusão digital no país.

Passados quinze anos de sua constituição, as críticas ao SOCINFO são inúmeras. Estudos denunciam que esse Programa “foi construído não para promover a inclusão digital e a democratização da informação no país, mas, sim, para preservar e expandir o capitalismo” (PIMENTA, 2014, p. 9). Essa autora argumenta que o Programa se apresentou como mais um projeto capitalista de ajuste do Estado brasileiro às pressões políticas dos países hegemônicos, tendo como objetivo inserir o país na economia mundial globalizada.

Coerente com esse ideário, a proposta envolveu, desde o seu início, a participação de diversos parceiros, públicos e privados, e a sociedade civil. Essa premissa se torna evidente quando afirma que “o Estado, nesse particular, tem a responsabilidade de induzir o setor

10 Declaração dos Princípios de Genebra (2003), Plano de Ação de Genebra (2003), Compromisso de Túnis (2005) e Agenda de Túnis pata a Sociedade da informação (2005) (cf. CMSI, 2014).

privado a se envolver no movimento de universalização e a participar ativamente das ações nesse sentido” (TAKAHASHI, 2000, p. 11).

Pimenta (2014) avalia que o Programa se fundamenta em um discurso apologético, que mascara as reais intencionalidades da dita “Sociedade da Informação”, pois atua na expansão do capitalismo, tendo em vista os elementos constitutivos de sua lógica que advogam em favor dos interesses de grupos dominantes em detrimento dos interesses da classe trabalhadora. Conclui-se, assim, que, apesar de o programa se apresentar como uma importante referência para a construção da Sociedade da Informação, no Brasil, sua ação foi limitada e não conseguiu alcançar os objetivos a que se propôs.

A partir de 2003, com a mudança de governo, o SOCINFO foi aos poucos sendo reformulado até a sua extinção. O atual Programa de Inclusão Social e Digital Brasileiro afirma que tem promovido a inclusão digital com foco no social, proporcionando o acesso à tecnologia, o desenvolvimento local e social, causando impacto nas realidades mais carentes e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da população (BRASIL, 2016). Ao que parece, a nova concepção adotada, segue os mesmos princípios da anterior, ou seja, articular políticas e programas de inclusão digital com a prerrogativa de alavancar a inclusão social.

Desta feita, apesar de o governo ter redefinido sua área de atuação, ainda assim continua comungando com as mesmas premissas formuladas pela Cúpula da Sociedade da Informação, no que tange à articulação do binômio inclusão digital versus inclusão social. No entanto, a política iniciada no governo de Luís Inácio Lula da Silva e que teve sequência no atual governo da Presidenta Dilma Rousseff amplia o debate para questões importantes. Conforme afirma o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), as políticas atuais buscam fortalecer a participação cidadã no acesso e apropriação das tecnologias digitais, a fim de inserir as pessoas em várias dimensões.

Identifica-se, a partir das premissas apresentadas do Programa, que a política de inclusão digital do governo brasileiro amplia a concepção e passa a incorporar o acesso à informação no campo dos direitos do cidadão. Ao menos, no nível do discurso, vem sendo valorizada a participação das pessoas no processo de inserção tecnológica, o que, aliás, é um dos elementos definidos pelos Princípios de Genebra. A referida declaração afirma que a “Sociedade da Informação é voltada para as pessoas, inclusiva e orientada para o desenvolvimento, em que todos possam criar, acessar, utilizar e compartilhar informação e conhecimento” (CMSI, 2014, p. 16).

Logicamente que a promessa de uma sociedade onde “todas” as pessoas possam ter acesso ao mundo digital é sedutora. Todavia, as bases que lhe dão sustentação jamais permitirão, por sua própria lógica, que alcance tal objetivo. Há de se considerar ainda que o interesse intrínseco que mobiliza a inserção dos países na Sociedade da Informação “está claro, no contexto do capitalismo, utilizar a informação como um meio de melhorar seus perfis de competitividade em um mercado mundial cada vez mais exigente e competitivo” (PIMENTA, 2014, p. 89).

Diante das constatações, tornou-se relevante analisar como as orientações da CMSI vêm sendo incorporadas no desenho das políticas de inclusão digital implementadas no país. A análise do projeto que dá base legal ao Programa faz menção à CMSI e articula, inclusive, diversas metas em seu desenho institucional. Dessa forma, tornou-se relevante evidenciar como tais princípios foram incorporados na proposição do Programa Navegapará e quais as implicações dessas orientações para o contexto educacional.

Neste contexto, tornou-se imprescindível para qualquer governo que pretende alcançar a sustentabilidade e um padrão de desenvolvimento que respeite as diferenças e busque o equilíbrio regional, como via para promover o acesso da população, dos diferentes segmentos e regiões, aos recursos da informática e da rede mundial de computadores: a Internet. [...] Reconhecendo a importância da democratização do acesso à informática e à comunicação para a convivência equilibrada entre os povos, a própria ONU está coordenando a chamada Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, cuja primeira reunião, realizada em dezembro de 2003, discutiu alternativas para combater o analfabetismo digital (PARÁ, 2010, p. 8) Ao analisar as premissas da sociedade da informação para os entes federados, parece que o estado do Pará aceitou e acatou as orientações externas, e incorporou em seu projeto muitas das diretrizes e concepções delineadas pela Cúpula Mundial. De fato, o governo não esconde de onde se originam as concepções que servem de fundamento político, econômico e ideológico ao Programa Navegapará. Comprometido com as premissas da dita “sociedade da informação”, destaca, textualmente, em seu projeto de implementação, que suas diretrizes seguem as orientações da CMSI, de 2003, que traça diretrizes para o combate à exclusão digital no mundo.

Um dos pontos centrais a ser analisado no debate é a “visão comum” que essa Cúpula pretende construir para que os países a incorporem em suas políticas. A Declaração dos Princípios de Genebra evidencia, no Princípio 2, que a Sociedade da Informação objetiva aproveitar o potencial das TICs para promover a erradicação da extrema pobreza e da fome. Em seu Princípio 14, destaca que “[...] estamos determinados a capacitar os pobres,

especialmente aqueles que vivem em regiões remotas, rurais e áreas urbanas marginalizadas, a acessar a informação e a usar as TIC como ferramenta de apoio a seus esforços para se livrarem da pobreza” (CMSI, 2014, p. 19).

Essa visão comum que se tenta construir é uma visão de sociedade que busca democratizar o acesso aos grupos desfavorecidos economicamente, como forma de amenizar os efeitos da pobreza. Identifica-se, assim, que existe uma face fetichista que insiste em atribuir um imenso potencial às TICs, ao ponto de pretender resolver a histórica exclusão social, mas não expõe as faces perversas do conhecimento tecnológico que, em grande medida, estão a serviço do capital e da produção de mais-valia.

Parte-se do entendimento de que essa concepção mascara a realidade e desvia o foco, pois o fenômeno da exclusão social é mais complexo e tem relação com a desigualdade que ocorre na sociedade, em decorrência do próprio sistema capitalista.

Nesse sentido, o Projeto de Implementação do Navegapará traz como objetivos:

Potencializar e expandir as oportunidades de desenvolvimento regional, através da democratização do acesso da população às Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), principalmente da informática e da Internet no Estado, possibilitam às pessoas melhores oportunidades na disputa no mercado de trabalho e a apropriação do conhecimento para o benefício da comunidade. Promover o acesso de grupos de baixa renda à informática, capacitando-os para o uso de softwares e, principalmente, para o acesso a Internet. Ampliar a alfabetização funcional em informática da população economicamente ativa (PEA), aumentando a empregabilidade e a capacidade de geração de renda. Contribuir para inclusão social de grupos com necessidades especiais (PARÁ, 2010, p. 7).

Como é possível observar, os objetivos elencados no Programa se articulam às orientações da CMSI e contemplam objetivos sintonizados com as necessidades tanto do mercado, quanto da chamada “Sociedade da Informação”. Salta aos olhos a pontuação textual no bojo do projeto de alguns Princípios da Declaração de Genebra, como, por exemplo, a questão da conexão com o mercado de trabalho, no sentido de aumentar a empregabilidade e a geração de trabalho e renda; a questão do acesso às tecnologias digitais para a inclusão social de pessoas com necessidades especiais e o acesso às tecnologias digitais, como condição de cidadania.

Pode-se concluir, então, que as premissas básicas que dão suporte ao Programa estão em sintonia com as orientações internacionais para fazer avançar o processo de inserção tecnológica em todos os espaços. Tem-se a impressão de que o fato de esse Programa se apoiar em condicionantes internacionais tenha passado despercebido no âmbito dos debates,

pois, ao analisar as produções acadêmicas, embora poucas, foram identificadas algumas dissertações que tomavam o Programa como objeto, mas, em nenhuma delas, havia menção à essa articulação.

Ainda no âmbito da análise, o princípio 23 da Declaração dos Princípios de Genebra (2003) orienta que os governos devem propor:

Políticas que criem condições favoráveis para a estabilidade, previsibilidade e concorrência justa em todos os níveis devem ser desenvolvidas e implementadas de uma forma que não apenas atraiam mais investimentos privados para o desenvolvimento de infraestrutura das TICs, mas também permitam que sejam cumpridas as obrigações de serviços universais nas áreas em que tradicionalmente as condições de mercado não funcionam. Em zonas pouco favorecidas, o estabelecimento de pontos de acesso público às TICs, como pontos de correios, escolas, bibliotecas e arquivos, pode ser um meio eficaz para garantir o acesso universal à infra-estrutura e aos serviços da Sociedade da Informação.

Nas análises do projeto que dá suporte ao Programa Navegapará, foi possível identificar como as articulações globais têm ressonância nos projetos em nível regional e local. Com isso, pode-se inferir que, ao propor aos governos que implementem políticas focalizando questões como concorrência, capital privado, mercado, serviços, próprias do mercado capitalista, tais direcionamentos se alinhavam com o projeto hegemônico do capital. Não é sem razão que o Navegapará propõe que os infocentros possam “ampliar a alfabetização funcional em informática para aumentar a empregabilidade e a capacidade de geração de renda” (PARÁ, 2010, p. 7).

Portanto, uma análise mais detida da Declaração dos Princípios de Genebra, sobre o papel dos governos nos processos de promoção das ações e projetos para a inserção do país na sociedade da informação, é significativo e fornece indicativos para visualizar como esses princípios foram materializados na proposta de inclusão digital no Pará. Outro direcionamento importante, que deixa evidente a essência das políticas direcionadas aos países pela Cúpula da Sociedade da Informação, é apresentado no Princípio 39, sobre a criação de um ambiente habilitador para as TICs. Diz esse princípio:

Os governos devem intervir, se necessário, para corrigir falhas do mercado como formas de se manter uma concorrência justa, atrair investimentos, intensificar o desenvolvimento da infraestrutura da TIC e aplicações, maximizar os benefícios sociais e econômicos e estar a serviço das prioridades nacionais.

Pelo exposto no Princípio 39, não parece que a Declaração de Princípios de Genebra faça questão de esconder a predileção pelas políticas de cunho neoliberal, articuladas em sua

gênese com as demandas do mercado capitalista. Isso, no entanto, não surpreende, pois, um dos principais órgãos articuladores dessa Cúpula é a UIT, empresa do setor privado das telecomunicações.

Os debates apresentados evidenciam as articulações do Programa Navegapará com as orientações internacionais para o estabelecimento da sociedade da informação, que fundamenta as políticas públicas de inclusão digital implantadas no país. A análise desse processo é relevante, uma vez que:

Compreender o contexto global é de extrema importância programas pois as discussões sobre tecnologia na educação extrapolam o âmbito local e mesmo nacional, uma vez que programas educacionais que envolvem tecnologias na educação sofrem influência internacional, intensificada atualmente, entre outros fatores, pela globalização, possibilitada pelo desenvolvimento tecnológico (BASNIAK, 2014, p. 52).

Argumenta a autora que as políticas educacionais de tecnologias na educação exigem financiamento elevado, o que encaminha os países em desenvolvimento a submissão de empréstimos aos organismos internacionais. Dessa forma, ocorre uma submissão dos países aos condicionantes impostos pelos detentores do capital. Com isso, interferem, ainda que indiretamente, nos rumos que as políticas devem tomar para se adequar aos critérios impostos pelas agências financiadoras.

Outras análises revelam uma preocupante aproximação entre nossas políticas públicas e os organismos internacionais. A literatura aponta que nas décadas de 1980 e 1990, o fluxo de empréstimos dos organismos internacionais para os países da América Latina e Caribe foi bastante elevado. Esse processo foi capitaneado por inúmeros organismos internacionais como o Banco Mundial (BID), Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização Mundial do Comércio (OMC), entre outros.

Destaca-se que a intervenção das agências internacionais no Brasil ocorreu de forma consentida “articuladas e pactuadas com o Governo Federal, parte dos governos estaduais e as elites dirigentes nacionais” (SILVA, 2002, p. 4). Portanto, refletem a opção dos governos à época em atender aos imperativos do capital internacional. As orientações advindas dos organismos internacionais encontraram grande aceitação no Brasil nos anos de 1990, uma vez que traziam a promessa de integrar o país ao conjunto dos países desenvolvidos.

Aponta-se, inclusive, que na década de 1980 o Banco Mundial passou a influenciar diretamente na formulação da política econômica interna, assim como na própria legislação brasileira. Por meio de inúmeros condicionantes, o Banco Mundial passou a impor aos países

endividados um conjunto de reformas para atender as necessidades do capital internacional, entre elas a redução dos gastos públicos, abertura comercial, liberalização financeira, desregulamentação dos mercados internos e privatização das empresas e dos serviços públicos (SOARES, 2003).

No atual contexto, afirma-se que existe uma estreita afinidade entre as políticas públicas e os interesses das elites econômicas, sendo que, a definição das políticas públicas é condicionada aos interesses das elites globais por força da determinação das amarras econômicas próprias do modo de produção capitalista (BONETTI, 2007). Desse modo, identifica-se que as políticas públicas implementadas no Estado capitalista visam atender as demandas externas como forma de se inerir na economia globalizada.

Os interesses das elites globalizadas são expressos nas políticas de expansão das relações capitalistas por instituições internacionais, ainda que haja pressão para legitimar as agendas locais, os condicionantes impostos e a própria aceitação pelos governos abrem possibilidades para a imposição e legitimação de regras que interessam ao capital internacional. Atualmente, o intervencionismo das instituições financeiras ocorre através de redes que oferecem patrocínios, entre eles o Banco Mundial, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a União das Nações Unidas e outros, que se encontram financiando projetos de tecnologias na educação no Brasil (BASNIAK, 2014).

Os debates apresentados até o momento buscaram evidenciar as articulações do Programa Navegapará com as orientações internacionais da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação. Na próxima seção serão analisadas as parcerias público-privadas construídas em torno da elaboração do Programa Navegapará.