4 A MINA ITATAIA NO CENÁRIO DO PROGRAMA NUCLEAR BRASILEIRO:
4.1 O Programa Nuclear Brasileiro e o Plano de Metas do governo Juscelino
O projeto desenvolvimentista que caracterizou o Estado brasileiro a partir do pós-guerra centrou-se na implementação das indústrias nacionais de base no primeiro período varguista (1930-1945) em substituição a uma economia primário- exportadora com o fim de estimular o crescimento econômico. Essa política de industrialização colocou em cena os interesses antagônicos dos grupos econômicos nacionalistas, dos militares e dos grupos econômicos estrangeiros na construção de uma infraestrutura energética que o país carecia.
Um caso paradigmático desses interesses conflitantes é o impasse em que se viu o Governo Vagas na construção da usina Siderúrgica de Volta Redonda. Sem financiamento do capital estrangeiro, a usina não sairia do papel. Por outro lado, esse projeto não poderia depender desse capital. Aproveitando-se de um cenário político internacional de rivalidade entre EUA e Alemanha, Vargas conseguiu o financiamento americano e a execução do projeto por uma empresa de economia mista, satisfazendo aos interesses do capital nacional aliado ao capital internacional e dos militares nacionalistas. Portanto, a política conciliatória e modernista de Vargas foi possível com forte intervenção do Estado, orientando as políticas de financiamento e regulando as atividades econômicas.
Esse modus operandi de fazer política, mutatis mutandis, continuou no Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), com ênfase na criação de um parque industrial destinado à produção de bens de consumo duráveis, principalmente a indústria automobilística e setores da economia que serviam diretamente à produção
desses bens, como a produção siderúrgica, a geração de eletricidade, extração e refino de petróleo. (BÔA NOVA, 1985).
O lema “cinquenta anos em cinco” do Plano de Metas de Kubitschek expressava exatamente o interesse do Estado em promover o desenvolvimento centrando sua ação em um discurso modernista para superar o “tradicionalismo” presente nas sociedades agrárias e subdesenvolvidas que apresentavam industrialização atrasada e uma economia de mercado incipiente. Portanto, pouco estímulo houve ao setor agrário centrado na expansão das fronteiras agrícolas, ao privilegiar um conjunto integrado de investimentos para o setor público e privado.
Ivo (2014) afirma que, na década de 1950, a noção de desenvolvimento referia-se a um regime de acumulação capitalista baseado na industrialização, no crescimento econômico e progresso técnico, na modernização das relações produtivas sob a égide do empresariado nacional. O Estado Nacional teria um papel central no planejamento de longo prazo para fomentar as transformações técnicas e econômicas, políticas e jurídicas, as quais visavam a modernização de suas instituições de forma a alavancar o crescimento econômico.
Essas transformações estavam assentadas na Teoria da Modernização, que defendia, via o incremento de um modelo de racionalização, a substituição de uma estrutura tradicional presente na esfera política (clientelismo político e poder centrado nas mãos dos coronéis) e socioeconômica (sociedade agrária) pela instauração de formas de governo democráticas, urbanização e industrialização da sociedade. (BERTONCELO, 2011).
No Brasil, os debates sobre a ideia de desenvolvimento e o papel do Estado em sua promoção estavam acirrados e predominavam as linhas interpretativas do nacional-desenvolvimentismo que surgiu no Instituto Superior de Estudos Brasileiros
– ISEB –, instituição que nasceu na década de 1950 e se estendeu até a queda do governo constitucional de João Goulart, em 1964. Para aqueles que integravam o ISEB, o desenvolvimento econômico do país se daria através de um maior incentivo
à industrialização mediante “[...] planejamento da economia por meio de uma maior
intervenção do Estado na esfera econômica, o alargamento do mercado interno e a
maior distribuição da renda nacional” (ABREU, 2005, p. 108). Os “isebianos”
contrapunham-se às posições teóricas do grupo dos tecnocratas e burocratas, formado, sobretudo, por engenheiros e administradores formados pela Fundação
Getúlio Vargas, os quais defendiam um projeto desenvolvimentista baseado na cooperação internacional.
Para os Isebianos, o Brasil só poderia ultrapassar o subdesenvolvimento mediante um projeto largo de industrialização de estrutura nacionalista. Essa concepção não encontrou abrigo nas ações políticas do governo Kubitschek, que tinha interesse em fomentar a industrialização, mas em parceria com o capital internacional. Isso ficou notório na disputa vencida pelos tecnocratas e “[...] políticos situados no
sistema de decisões” que compunham o Conselho de Desenvolvimento, órgão
responsável pela elaboração do Plano de Metas, que incorporou, segundo Santos (2001, p. 39), tanto as orientações da Comissão Econômica para América Latina (CEPAL)61 quanto da Comissão Mista Brasil – Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico (CMBEU)62, sobretudo a ideia do papel central do estado na condução do desenvolvimento. Esse cenário, segundo Abreu (2005) e Santos (2009), marcou a transição da influência que exercia uma intelectualidade humanista na orientação das políticas estatais para uma leitura tecnocrática de cunho desenvolvimentista, mas pouco nacionalista.
O Plano de Metas contemplava trinta itens referentes aos setores de energia (metas 1-5), transportes (metas 6-12), alimentação (metas 13-18), indústria de base (metas 19-29), educação (meta 30) e a meta-síntese, que foi a construção de Brasília, capital federal. Especificamente para o setor de energia, previa-se investimentos em energia elétrica e nuclear, aproveitamento do carvão mineral, produção e refino de petróleo.
Em relação à energia nuclear, planejava-se a expansão da metalurgia de minerais atômicos, o estabelecimento de uma usina atômica pioneira de 10.000 KW e mais quatro objetivos que demarcaram o interesse do governo na produção da energia nuclear: a fabricação nacional de combustível nuclear, seja de urânio natural ou
61 A CEPAL iniciou seus trabalhos no ano de 1949, com o objetivo de estabelecer os marcos do desenvolvimento para o continente latino-americano. Com um abordagem histórico-estruturalista, a CEPAL formulou a concepção do sistema econômico globalizado em centro e periferia. O centro abrange as economias industrializadas, com um alto grau de desenvolvimento técnico-científico. Na periferia do mundo globalizado estão as economias exportadoras de recursos primários, com baixo desenvolvimento tecnológico e uma estrutura social marcada pelas desigualdades socioeconômicas. Para superar essa diferença entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, propunha-se a necessidade de um planejamento estatal visando à condução deliberada do processo de industrialização dos países periféricos. (BERTONCELO, 2011).
62 Essa comissão foi criada em dezembro de 1949 e funcionou entre 1951 e 1953. Sua principal contribuição naquele momento foi estabelecer os principais pontos de estrangulamento do desenvolvimento brasileiro: energia, transporte e alimentação. (SANTOS, 2009).
enriquecido, de tório e seus óxidos; a formação do pessoal; o planejamento e a realização de um programa de instalação de usinas termelétricas nucleares; e a elaboração e execução de um corpo de normas jurídicas de direito público e internacional para regulamentar especificamente aquele setor. (SANTOS, 2009, p. 32- 33).
Foi durante a vigência da gestão de JK que se deu a formação da Comissão Nacional de Energia Nuclear para efetivar os planos de seu governo para o setor nuclear com fins pacíficos. Todos os projetos que antes estavam sob responsabilidade do CNPq foram transferidos para a Comissão, incluindo aqueles voltados para a prospecção do urânio. Um ponto importante de sua Política Nacional de Energia Nuclear foi a formulação das Diretrizes Governamentais para a Política Nacional de Energia Nuclear, que inclui um programa de preparação de cientistas, técnicos e especialistas, visando, principalmente, as atividades de pesquisa e prospecção de minerais ricos em urânio. (SANTOS, 2009).
O Plano de Metas trazia a geração de energia nuclear como um dos pilares do desenvolvimento e, naquele momento, já era justificada pela contribuição que poderia fornecer para evitar uma possível crise no abastecimento de energia elétrica cada vez mais solicitada pelas indústrias e pelo crescimento urbano de regiões do Brasil como o Centro-Sul. Como atesta seu pronunciamento no Senado Federal:
Aproxima-se a era das usinas atômicas, para cuja utilização o país deve se preparar desde já, incluindo no programa de expansão da indústria de eletricidade algumas usinas atômicas, embora de pequeno porte, a fim de que nossos engenheiros possam se familiarizar com essa nova técnica e estejam preparados para os grandes projetos que fatalmente surgirão no futuro não muito remoto. (BRASIL. Senado Federal. Discursos. Brasília: Senado Federal, 1983, p. 37 apud SANTOS, 2009b, p. 33).
Cogitou-se, durante seu governo, a construção de uma usina nuclear no Estado de São Paulo, outra próxima à nova capital, Brasília, e mais uma no Estado do Rio de Janeiro, mais especificamente à margem do rio Mambucaba, entre os municípios de Angra dos Reis e Parati. Mas, com sérios problemas financeiros, essas usinas demorariam alguns anos para sair do papel. Apesar dos acordos e das parcerias firmadas com os Estados Unidos da América, Itália e Inglaterra – com esta última o acordo ficou no papel –, pouco avançou a política de JK para o setor nuclear, olhando-a retrospectivamente.
Para o bem ou para o mal, o Programa Nuclear Brasileiro tomou novo fôlego com o regime militar a partir dos investimentos pesados em pesquisa mineral. Antes houve avanços no período em que João Goulart foi presidente. Um acordo assinado entre o CNEN e o Comissariat à l’Energie Atomique (CEA), em colaboração com o Ministère Français des Affaires Économiques, no ano de 1962, com duração de cinco anos, teve o objetivo de auxiliar os técnicos brasileiros no inventário dos recursos minerais. (SANTOS, 2009b).
Como resultado desse trabalho ficaram equipamentos destinados ao trabalho de campo, a formação qualificada de pesquisadores brasileiros, e, talvez, a certeza de que mais cedo ou mais tarde o resultado das pesquisas em território nacional renderia boas reservas de urânio.
4.2 O urânio de Itataia no cenário de expansão da política nuclear sob marca