A necessidade de profissionais que compreendam as necessidades e as especificidades da população do campo é que possibilita a sua interação com o meio acadêmico e é algo latente na realidade brasileira.
Neste sentido, Molina (2009, p. 18) ressalta que o “Programa Residência Agrária surge como instrumento da educação profissional agrária, comprometida com a classe trabalhadora do campo, que busca a transformação da sociedade”, ao assumir um compromisso com a mudança do meio rural e com as condições de vida dos seus sujeitos.
Esmeraldo (2009), por outro lado, aponta as dificuldades das universidades públicas na formação de profissionais da área agrária, principalmente no que diz respeito às demandas da reforma agrária, agricultura familiar e agroecologia. Além disso, existem sérias deficiências no processo de interação com o campo, onde falta desde metodologias pedagógicas adequadas até uma concepção atual dos povos do campo, o que inviabiliza a interação necessária para atingir o principal objetivo: o uso do conhecimento tecnológico para promover o desenvolvimento sustentável, sem romper com a cultura e saberes já adquiridos.
Embora a necessidade de investimentos na educação profissional específica devesse ser uma atitude das universidades, foram os movimentos sociais rurais, através de lutas na defesa da agricultura familiar, que viabilizaram as primeiras atitudes neste sentido. Na década de 70, no fervor das lutas políticas e no avanço do agronegócio, estes movimentos iniciaram uma luta pela posse da terra, que mais tarde ampliou seu foco para o direito à educação, bem como, a preservação do meio ambiente e na construção de outro modelo de desenvolvimento do campo e de sociedade baseado nos princípios da agroecologia (OLIVEIRA, 2001).
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é um exemplo de um movimento social do campo que tem um forte investimento na educação, buscando oferecer oportunidades desde o ensino fundamental até o ensino superior, sempre com o foco nas questões agrárias e que viabilizem a permanência no campo. Isso acontece na elaboração de
13 O PRONERA corresponde a uma política pública do Movimento de Educação do Campo, desenvolvida nas
áreas de Reforma Agrária. Ele nasceu da luta dos movimentos sociais e sindicais de trabalhadores rurais pelo direito à educação com qualidade e justiça social. Fundamenta-se na gestão participativa e na descentralização das ações das instituições públicas envolvidas na educação. “Seu objetivo é fortalecer o mundo rural como território de vida em todas as suas dimensões: econômicas, sociais, ambientais, políticas, culturais e éticas” (BRASIL, 2004).
materiais didáticos específicos, que contemplem a realidade da produção agrícola e cultural do campo, respeitando diferenças regionais, de gênero, etnia e religião, bem como, na formação de educadores para atuação nas escolas públicas das áreas de reforma agrária. Dados do movimento apontam que 300 mil trabalhadores rurais estão estudando, 120 mil deles em escolas públicas. Mais de 350 mil já se formaram em cursos de alfabetização, ensino fundamental, médio, superior e técnico. 14
Bruziguessi (2010) esclarece que, na década de 80, estudantes de ciências agrárias manifestaram insatisfação com o modelo de formação profissional implantado pelas universidades, quando surgem os Estágios de Vivência, organizados inicialmente pela Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB). O sucesso destas experiências levou a criação, em 1991, do Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV), que continuou recebendo o apoio dos movimentos sociais, tais como o MST. O momento político do país naquela década viabilizou a interação da FEAB com o MST.
O objetivo principal do EIV era de “construir uma consciência crítica nos estudantes e de instigá-los ao questionamento quanto às ações da universidade, a formação recebida e a estrutura da sociedade,” o que culminou, em 1996, na elaboração de três princípios básicos que sustentam o EIV: interdisciplinaridade, não-intervenção e parceria. A evolução desta interação entre os movimentos sociais rurais e organizações não governamentais gerou a necessidade de intervenções do governo, no sentido de estruturar programas voltados para a reforma agrária (BRUZIGUESSI, 2010, p. 66).
A mobilização das entidades e movimentos sociais ligados aos assentados e acampados da Reforma Agrária culminou em 1998, na criação do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA). Nesse contexto, registra-se a atuação e presença do PRONERA, responsável pela Educação do Campo junto aos assentamentos rurais e que teve a preocupação de estender a formação também em níveis técnicos de especialização. O PRONERA tem a finalidade de atender o novo modelo de desenvolvimento para o campo, bem como as suas necessidades de educação.
Segundo Brasil (2004), em continuidade ao fortalecimento da educação neste setor, o governo federal criou o Programa Residência Agrária (PRA), em 23 de julho de 2004, através da Portaria nº 57 (Anexo I). Instituído como “Programa Nacional de Educação do Campo: Formação de Estudantes e Qualificação de Profissionais para a Assistência Técnica”, ganha legalidade jurídica como ação no Plano Plurianual (PPA), 2000-2007 e 2008-2011 no
14 Informações recuperadas no sítio eletrônico em http://www4.ensp.fiocruz.br/radis/88/capa-02.html, acessado
PRONERA. Este novo Programa tem como objetivo geral “orientar a formação profissional dos recém-graduados de ciências agrárias para uma nova concepção de assistência técnica, direcionada para uma matriz tecnológica ambientalmente sustentável e condizente com as peculiaridades dos assentamentos de Reforma Agrária e dos Agricultores Familiares”. Assim, os egressos do programa deverão estar aptos ao trabalho na ATER e ATES. Conforme ressalta Bruziguessi (2010, p. 67), existe uma semelhança entre o EIV e o PRA “principalmente em sua primeira etapa, que também foi denominada Estágio de Vivência”.
De acordo com o Relatório Nacional da Experiência Piloto do Programa Residência Agrária (PIRES et al., 2007), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Instituto Nacional de Colonização na Reforma Agrária (INCRA) convidaram para participar 16 universidades públicas de 15 estados diferentes, sendo criados cinco cursos de especialização, com abrangência nacional, executados pelas universidades responsáveis, conforme demonstrado no Quadro 02 a seguir.
Quadro 02 - Universidades de cada região que participaram do projeto piloto do PRA, com suas respectivas localizações (estado/cidade).
Região Estados
Selecionados Universidades Cidades
Universidade Resp.
Goiás UFG Goiânia
UFMT Cuiabá
Centro-oeste
Mato Grosso
UNEMAT Cárceres e Tanguará
UNEMAT (Cárceres)
Acre UFAC Rio Branco
Norte
Pará UFPA Altamira, Belém e Marabá
UFPA
Ceará UFC Fortaleza
Piauí UFPI Teresina
Nordeste I
Rio Grande do Norte UFRSA Mossoró
UFC
Bahia UFBA Cruz das Almas
Pernambuco UFPE Recife
Paraíba UFPB Areia
Nordeste II
Sergipe UFS Aracaju
UFPB
Paraná UFPR Curitiba
Rio de Janeiro UFRRJ Seropédica
Rio Grande do Sul UFSM Santa Maria
Sudeste/Sul
São Paulo UNICAMP Campinas
UFPR
A descrição mais detalhada das formas de atuação do Programa pode ser encontrada nas diretrizes básicas da Norma de Execução nº 42, publicada pelo INCRA, em 02 de setembro de 2004,15 onde se pretende “promover uma formação humanista de estudantes dos cursos de Ciências Agrárias para atuarem em áreas de Reforma Agrária e Agricultura Familiar, com ações de pesquisa-ação, promovendo o desenvolvimento sustentável de forma crítica e participativa” (BRASIL, 2004, p.01).
Estas instituições de ensino superior se habilitaram em compor o Programa em função da história de produção científica com a temática da Reforma Agrária e da Agricultura Familiar Camponesa. Estas universidades apresentaram o projeto do estágio [de] vivência (graduação), sendo que no decorrer do estágio construíram o projeto [do] curso de especialização na formatação de rede (PIRES et al., 2007, p. 10).
Como o Programa Residência Agrária volta-se para a preparação de profissionais para trabalhar com famílias ligadas à Reforma Agrária, torna-se necessária examinar a literatura que trata da família como uma categoria analítica.