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3.3 Os planos de salvaguarda e gestão

3.3.3 O Projeto do Centro Cultural

Após sobreviver às diversas mudanças no Plano Diretor de Porto Alegre durante as primeiras oito décadas do século vinte, que impactaram diretamente no entorno do Campus Centro, e na instituição, o antigo campus central da UFRGS precisava de cuidados. Ao longo de mais de oitenta anos a situação dos chamados “Prédios Históricos” era a pior possível, pois, por mais que tivessem experimentado pequenas reformas e ampliações, ainda não haviam passado por um processo completo de restauro desde sua construção.

Partindo de uma ideia muito comum naquela época, Ferraz propôs um projeto que carregava consigo um sentido de conjunto para o Campus Central da Universidade, o Projeto do Centro Cultural. Este projeto tinha como ideia central a refuncionalização do velho Campus Central, considerado obsoleto para o uso acadêmico, transformando-o para o uso cultural, prática muito comum em projetos da mesma época.

Amplamente divulgado na mídia gaúcha na metade dos anos 1980393, o Projeto

foi uma ação de readequação do Campus Central da UFRGS para entregar para a cidade de Porto Alegre, um espaço que funcionasse como centro de cultura para a cidade. Idealizador do projeto, Ferraz tinha como proposta a readequação do espaço físico do Campus Central para abrigar eventos culturais de todo o tipo, como exposições, palestras, espetáculos teatrais e musicais, criando assim um novo polo cultural para a Cidade394.

Dirigido de forma direta pelo reitor, foi criado a partir de diagnósticos relativos ao espaço físico da Universidade, à recuperação e destinação dos Prédios Históricos e à função cultural da universidade. Duas ações constituíam o Projeto do Centro Cultural: a Reestruturação dos Prédios Históricos e a Programação de Férias395.

393 Uma compilação dos recortes de jornal da época do Centro Cultural está reunida em quatro publicações chamadas: “Programação de Férias: Documentação Imprensa / Depoimentos”, “Programação de Férias: Documentação Imprensa”, “Centro Cultural da Universidade Federal do Rio

Grande do Sul: Documentação Imprensa” e “Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Manifestações de Apoio”.

394 FERRAZ, Francisco. Introdução. In: UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL.

Projeto Centro Cultural. Porto Alegre: UFRGS, 1987, n.p.

A readequação do espaço físico no Campus do Centro previa obras de restauração dos prédios históricos considerando as diretrizes do Plano Diretor de Espaço Físico da UFRGS o qual já situava sua destinação às atividades do Centro Cultural396. Desta forma, o projeto do Centro Cultural:

[...] foi então concebido, contemplando a restauração tecnicamente adequada desses prédios, com a gradual eliminação dos apêndices e das “gambiarras” que os mutilavam. Previa também a eliminação de galpões e edificações provisórias - que se tornavam permanentes -, que destoavam e desvalorizavam o conjunto. Em seu lugar, o paisagismo cuidadoso tomaria forma, enobrecendo mais ainda o conjunto.397

Cyrillo Crestani, autor da proposta de intervenção urbanística do Projeto do Centro Cultural (Fig. 69 a Fig. 72), assim a descreve:

No primeiro quarteirão, aproveitando o posicionamento dos prédios, é criada uma praça central cuja composição aproveita as árvores ali existentes e cria planos verticais com vegetação de porte, demarcando assim espaços funcionais distintos, e dirigindo o olhar para os prédios recompostos, para os espelhos d’água ou para o monumento alusivo à fundação da Universidade. O desnível natural do terreno favorece a construção de um pequeno anfiteatro aberto. No segundo quarteirão, integrado ao primeiro por caminhos e aberturas, a composição é centralizada num lago circular de onde partem os planos verticais que formam e orientam as perspectivas para os pontos de interesse deste grande espaço. Há também áreas específicas para encontro, exposições ou apresentação de um coral ou de uma orquestra. Tudo está pensado para recriar os valores dos grandes espaços, sem perder, contudo, o senso da escala humana.398

A viabilização da restauração dos prédios históricos dependia de recursos financeiros que estavam sendo negados pelo MEC sob a justificativa da impossibilidade de repasse a um projeto isolado399. É diante dessas dificuldades que

a Programação de Férias se conforma como estratégia para captar o apoio necessário. Entendeu-se que seria necessário criar fatos com grande impacto social de modo a demonstrar à sociedade “como seria a cidade com seu Centro Cultural”400.

396 FERRAZ, 2004, op. cit., p.105. 397 Idem, p.107.

398 CENTRO apud TONIOLI, 2014, op. cit. p.86. 399 FERRAZ, 2004, op. cit., p.108.

Fig. 69 – Projeto Centro Cultural. Implantação geral. Fonte: UFRGS, 1987, op. cit.

Fig. 70 - Projeto Centro Cultural. Perspectiva geral. Cyrillo Severo Crestani. Fonte: UFRGS, 1987, op. cit.

Fig. 71 - Projeto Centro Cultural. Perspectiva segundo quarteirão. Cyrillo Severo Crestani. Fonte: UFRGS, 1987, op. cit.

Fig. 72 - Projeto Centro Cultural. Perspectiva primeiro quarteirão. Cyrillo Severo Crestani. Fonte: UFRGS, 1987, op. cit.

Desta forma, Ferraz relata que a programação de férias ambicionava abrir a universidade à sociedade para programas culturais e educativos durante o período de férias, o que teria o efeito de mostrar a viabilidade e a necessidade social de tal Centro, sensibilizando as autoridades para o financiamento das restaurações planejadas401.

As programações foram realizadas em três períodos (julho de 1986, dezembro de 1986 e agosto de 1987) promovendo ampla participação da sociedade e sua integração com a universidade, demonstrando a viabilidade de um Centro Cultural e a importância de apoiar a restauração dos prédios históricos para sediar suas atividades402.

Uma grande reformulação no Salão de Atos de Paglioli foi um legado dessa iniciativa. A visibilidade conquistada auxiliou na realização de um convênio com o governo estadual que garantiu os recursos necessários para concluir a obra403.

O antigo Salão, construído por Paglioli, histórica sede da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e dos grandes eventos acadêmicos, científicos e culturais da nossa cidade, foi deixada apenas na sua “casca”. Toda a parte interna do salão foi desmanchada, escavadeiras e caminhões passaram a transitar no seu interior, enquanto se iniciava a grande obra de sua reconstrução. 404 Sendo o Projeto do Centro Cultural uma iniciativa para a preservação do patrimônio cultural da Universidade, estranha-se o fato de não haver referências ao conceito de patrimônio tanto nos documentos do projeto, quanto na sua divulgação. Para Carvalho,

[...] o próprio texto do Projeto e os discursos de seu idealizador não faziam referências claras ao conceito de “patrimônio”; tampouco propunham a consagração formal das edificações da UFRGS via instrumentos oficiais de preservação. Então, a despeito da opinião daqueles que observavam tal iniciativa e apesar dos levantamentos relativos às técnicas construtivas dos prédios e à história das instituições que estes abrigaram, é sintomática a ausência de uma articulação explícita do conceito de “patrimônio” nesse projeto. 405

Ao fim de sua gestão, Ferraz aponta a realização de parceria do setor privado com o governo federal para o financiamento das obras de restauro que, estando

401 FERRAZ, 2004, op. cit., p.111. 402 Idem, p.112.

403 Idem, p.113-114. 404 Idem, p.114. 405 Idem, p.107.

formalmente aprovada, através da Lei Sarney406, ficando em aberto somente a

elaboração apenas o Termo de Contratação que viabilizaria o financiamento das obras necessárias407. No entanto, o término da gestão de Ferraz interrompeu a mobilização

do Centro Cultural, não passando a fazer parte das prioridades da gestão seguinte.