4. O TRABALHADOR IMIGRANTE E SEUS DIREITOS NA LEGISLAÇÃO
4.4 As Atuais Propostas de Legislação Migratória no Brasil
4.4.2 O Projeto de Lei do Senado nº 288 de 2013
Os membros do Senado brasileiro também apresentaram, em 2013, um Projeto de Lei substitutivo ao Estatuto do Estrangeiro atual: o PLS 288/2013.
O projeto propõe o uso do termo “imigrante” em lugar de “estrangeiro”, como se pode ver já em seu Título I, denominado “Dos Princípios e dos Direitos dos Imigrantes”. Além disso, no PLS o conceito de imigrante, conforme esclarece a justificação do projeto, deve ser entendido da seguinte maneira:
A presente proposição considera “imigrante” quem se estabeleça definitiva, temporária ou transitoriamente no País. Esse conceito perpassa quem está com família brasileira, trabalho fixo, trabalho fronteiriço, ou status equivalente. Não seria imigrante quem não tenha a pretensão de se estabelecer no País, como o turista ou alguém que veio aqui para participar de um seminário ou dar um espetáculo. Igualmente não será imigrante quem possui status regulado por tratado específico, como é o caso dos refugiados, asilados, apátridas, agentes e pessoal diplomático ou consular, funcionários de organização internacional, e seus familiares (BRASIL, 2013).
Em seu art. 2º, o PLS traz os princípios que norteariam a política migratória brasileira, enfatizando a importância dos direitos humanos dos imigrantes, conforme os tratados internacionais (inciso I), bem como: o repúdio à xenofobia, racismo e quaisquer formas de discriminação (inciso II); a não criminalização da imigração (inciso III); a promoção de entrada regular e de regularização migratória (inciso V); a acolhida humanitária (inciso VI); a garantia do direito a reunião familiar dos imigrantes (inciso IX); a integração dos imigrantes documentados ou regulares no trabalho e na sociedade brasileira mediante política pública específica (inciso XI); o fortalecimento da integração dos povos da América Latina, mediante constituição de espaços de cidadania e livre circulação de pessoas (inciso XV); dentre outros princípios.
Nota-se, portanto, o fim da priorização da segurança e dos interesses nacionais, assim como da defesa do trabalhador pátrio. Destaca-se a tentativa de se fixar o princípio da não discriminação, conforme já preceituam as normas internacionais, como também o incentivo à regularização migratória, tendo em vista que “o País deve promover claramente e de modo simplificado os modos de se entrar regularmente e aqui permanecer. Além disso, deve prever
política permanente de regularização de quem já está no Brasil” (BRASIL, 2013). Ainda, “nesse contexto, do princípio de promoção de entrada regular, está a previsão da acolhida humanitária, que diz respeito à possibilidade de o País aceitar pessoas que venham de situação de calamidade ou vítimas de tráfico de pessoas, como é o caso recente dos haitianos” (BRASIL, 2013).
No art. 3º, o projeto reconhece uma série de direitos e garantias constitucionais aos imigrantes, mencionando expressamente a garantia dos direitos sociais (inciso I) e do cumprimento de obrigações legais e contratuais trabalhistas e de aplicação das normas de proteção ao trabalhador (inciso XI).Importante a previsão do parágrafo único do mesmo artigo, que frisa o exercício de tais direitos e garantias “independentemente da situação migratória” (BRASIL, 2013).
O PLS também propõe uma nova regulamentação para os tipos de visto a serem concedidos, de acordo com seu art. 4º e seguintes. Destaca-se a previsão de visto temporário para fins de trabalho, de forma mais genérica e clara do que a atual, no art. 10, inciso II: “ao trabalhador, em atividades a serem exercidas em caráter temporário em território nacional” (BRASIL, 2013).Em complemento, dispõe o § 3º do referido artigo que o visto temporário de trabalho poderá ser concedido havendo ou não vínculo empregatício no Brasil de modo a possibilitar a entrada regular de quem vem em busca de emprego, pelo prazo máximo de um ano, prorrogável pelo tempo de duração de seu contrato de trabalho ou da prestação de seus serviços. Entretanto, não há menção do direito de residência.
No art. 27 e seguintes, o Projeto de Lei do Senado mantém a sanção de deportação em função da irregularidade migratória. Todavia, não há mais a possibilidade de prisão cautelar. Além disso, no art. 28 são assegurados os direitos trabalhistas do imigrante decorrentes de relações de trabalho no Brasil.
O Projeto inova ao dispor sobre o tratamento ao emigrante brasileiro em seu Título V, o qual preza pela dignidade do trabalhador brasileiro no exterior e concede benefícios fiscais e de sepultamento. Há, ainda, aos emigrantes brasileiros, a possibilidade de contribuição retroativa à Previdência Social do Brasil, na condição de segurado facultativo. De acordo com a Justificação do PLS:
O trabalhador brasileiro no exterior contribui com a remessa de bilhões de dólares por ano, sem ser resguardado com nenhuma política nacional. O presente projeto pretende garantir ao emigrante a opção de contribuição retroativa referente ao período trabalhado no exterior. Paralelamente, incentiva se a celebração de acordos bilaterais para validação, perante a Previdência brasileira, do tempo de trabalho formal no exterior, aproveitando, com isso, as contribuições recolhidas em favor do sistema previdenciário estrangeiro (BRASIL, 2013).
No título subsequente, trata-se do crime de tráfico internacional de pessoas para fins de migração, a fim de combater a ação dos coiotes. É estipulada pena de reclusão, de dois a seis anos, e multa, que pode ser aumentada conforme as hipóteses previstas.
Por fim, necessário comentar que, segundo explicita a justificação ao final do texto do projeto, este “zela por não afetar as faculdades do Executivo e seu poder de iniciativa legislativa, já que não atribui funções, nem cria órgãos para a administração pública” (BRASIL, 2013). Assim sendo, o PLS 288/2013 não prevê novo órgão estatal para administração das questões migratórias, porém sugere a justificação que:
[...] importaria repensar os papéis do Ministério da Justiça, da polícia federal, do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério do Trabalho e do Conselho Nacional de Imigração (CNIg). Diante o grande aumento do fluxo migratório ao Brasil, está no momento de pensarmos na oportunidade de criar uma Agência Nacional de Migração, fundada em lei federal de migração inspirada pelos direitos humanos, como se pretende com esse projeto, e não em decisões administrativas casuísticas, e com pessoal preparado para exercer essa função, sem utilizar a polícia federal para o que ela não é vocacionada (BRASIL, 2013).
O texto do Projeto em questão ainda deve passar pela Câmara de Deputados. Algumas emendas ao PLS 288/2013 foram sugeridas com base no Anteprojeto de Lei de Migrações e Promoção dos Direitos dos Migrantes no Brasil, outra proposta de nova legislação migratória brasileira.