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1.6 FICHA TÉCNICA Localização

2.1.2 O PROJETO E A PAISAGEM : CHILE E SANTIAGO

Discorrer sobre a paisagem no Chile, tanto urbana quanto rural, é discorrer a respeito da Cordilheira dos Andes, elemento geográfico que domina não só toda a extensão do país, mas, também toda a sua história de ocupação, defesa e trabalho. O território e as fronteiras do Chile são delineados pela cordilheira. O país é uma estreita e longa faixa de terra localizada entre a cordilheira e o mar, com largura leste-oeste média de 180 km, sendo a máxima de 300 km na altura do deserto do Atacama, no norte, e comprimento norte-sul de cerca de 4.000 km. Dessa forma, dois elementos geográficos são determinantes do desenho longilíneo do país: a cordilheira e o mar. Simbolicamente, de alguma forma, esse dado estaria presente no projeto. A paisagem chilena difere bastante ao longo do território. O norte é dominado pelo sequíssimo deserto do Atacama, uma faixa árida de cerca de mil quilômetros de extensão, que apresenta também os salares, as planícies de sal. Nesse local, encontram-

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04 05 06 se as principais minas de cobre, material do qual o

Chile é grande produtor mundial. Há, também, a presença de vulcões e lagos, a altitudes em torno de 4000m. A Paisagem do sul é composta por vulcões nevados e por lagos extensos. Mais ao sul, há a região marcada por um grande número de ilhas e fiordes, que se estendem até o extremo sul, com a presença de parques nacionais e glaciares.

Santiago ocupa o norte do vale central, marcadamente uma região de vinhedos, que é, na verdade, uma sucessão de vales que se abrem para o sul, com saída natural para o mar, servindo de desague natural para os rios. Ao leste, a Cordilheira dos Andes é mais recente, mais alta, mais rochosa e abrupta. A oeste, a Cordilheira da Costa é mais antiga, constituída por cumes arredondados. O rio Mapocho, que domina Santiago, nasce aos pés do maciço Del Plomo. O vale tem uma ligeira pendente

Cidade fundacional, séc. XVI, Santiago

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para a Cordilheira da Costa, unindo-se na busca da saída para o mar.

Santiago tem uma luz própria, de fundo de vale, que difere da luz da costa ou da alta cordilheira. O céu é sempre bastante luminoso, devido ao clima seco. O contraste entre luz e sombras é intenso, principalmente no verão, proporcionado por edificações e vegetações. O ar apresenta, nos meses mais secos, partículas de pó que lhe proporcionam filtragens, produzindo uma luz amarelada. Infelizmente, o pó, atualmente, resulta mais de poluentes. O sol se levanta por trás da Cordilheira dos Andes que adquire diferentes cores e tonalidades ao longo do dia, sobretudo nos meses de inverno, quando está completamente tomada pela neve.1

O sítio escolhido para a MMDDHH reuniu todos esses potenciais da paisagem. Dele se vislumbra a Cordilheira, a leste. A oeste, vislumbra-se o parque

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12 Quinta Normal, antigo horto da cidade, com sua

expressiva extensão e vegetação abundante. O sol percorre o terreno o dia todo, nascendo atrás da cordilheira e desaparecendo pelo arvoredo do parque, com todas as nuanças e matizes de tons ao longo do dia.

O terreno, propriamente dito, localiza-se na extensão da área de fundação da cidade, a Plaza de Armas, um quadrado perfeito no qual se encontram a Catedral e aAlcadia. A partir desse local, a Calle

Catedral, num rasgo direto, chega ao parque Quinta Normal, diante do Colégio Americano. Parecia um fato extraordinário essas estruturas estarem ligadas ao terreno da fundação colonial, diretamente por uma rua e dentro de uma matriz fortíssima de identidade do desenho urbano.

A existência do Colégio Americano, assim como

indicava a oportunidade de se lançar uma antiga idéia: desenharem-se as ‘outras’ faces de um grande espaço público, compondo uma praça, já que o colégio dava conta da primeira delas. O colégio é um edifício horizontal, eclético, cuja extensão dominaria toda a praça, dando-lhe a proporção e medida. Portanto, um dos ‘arremates’ do espaço público pretendido já era dado, estava lá.

A escolha do local para a implantação do MMDDHH, um território escavado, árido, em meio a esta paisagem, e alienado da vizinhança por um tapume que naquele momento já parecia definitivo, atendia não só às necessidades do museu como também possibilitaria a reintegração deste terreno ocioso, permitindo que se estendesse essa recuperação ao entorno, por meio de uma arquitetura urbana generosa com a cidade e com os espaços públicos. Por essa razão, e considerando que o

Terreno original MMDDHH

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o museu, nas bases do concurso já era solicitado um plano de massas para toda a quadra, incluindo-se o conjunto de edificações do MMDDHH e um futuro conjunto de serviços públicos, que deveriam estar harmonicamente articulados, porém, que permitissem etapas distintas de construção.

Os edifícios residenciais tombados davam conta de estabelecer um gabarito ao conjunto, na aproximação da Calle Santo Domingo. Essa parecia ser a forma mais adequada de se lidar com um ajuste à cidade pré-existente. Estabeleceu-se, assim, uma transição suave, delicada, entre os novos volumes e os já existentes, como um sinal de reverência ao patrimônio que havia sido julgado digno de proteção, por parte da comunidade.

A implantação do Museu deu-se após essa leitura cuidadosa da paisagem, do território e da morfologia do entorno. Valorizar essas questões, trazê-las para o projeto, sem obviedade, sem simulacros ou pastiches. Entender esse potencial a ser preservado e potencializado, além de incorporá-lo ao projeto com as necessárias amarrações, são fatores que se somaram, provavelmente em uma ordem de decisões não tão lineares nem tão coerentes, em um primeiro momento, mas que em sua somatória, por culminar em um projeto, resultam um conjunto harmônico. Tanto o Colégio quanto a orientação das manzanas,

assim como a própria topografia escavada do terreno, sugeriram o posicionamento de um edifício principal perpendicular à Avenida Matucana, o que fortalecia o conjunto, compondo com o colégio e o bloco de escritórios, pensado tal qual uma manzana fechada. Pensou-se, então, em um edifício como um tubo, um túnel, ou uma barra, transversal ao terreno e aberta em suas extremidades menores como duas imensas janelas voltadas aos dois elementos marcantes da paisagem: a Cordilheira e o parque. Dessa maneira, produziam-se dois efeitos opostos bastante interessantes, de apreensão da paisagem: o primeiro é o fato de que, sendo a barra posicionada a 0,7m acima da cota zero, uma pessoa, ao caminhar pela avenida, poderia visualizar todo o museu por sua extremidade, mesmo sem que o adentrasse e, eventualmente, conforme a luz do dia, poderia perceber a cordilheira através dele. Essa relação parecia bastante forte, intrigante, e combinava com a intenção, posteriormente trabalhada no programa, de torná-lo o mais transparente possível, dado o tema. A segunda razão, de ordem poética, é o fato de que, a partir de todo o interior do museu poderiam ser vistos aqueles dois elementos constituintes da geografia, da identidade e da história do país: a Cordilheira dos Andes e o mar. Evidentemente, o mar não é avistado de Santiago, sendo essa uma situação simbólica, na qual o parque tomaria o lugar do mar. Porém, a cordilheira, sim, era visualizada e

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17 a idéia de ‘enquadrá-la’, a partir de todo o museu,

parecia muito atraente. Dessa forma, a implantação orientada na direção leste-oeste posicionava- se transversalmente a todo o território do país, referenciando-se a este.

A apropriação do sítio incluiu três escalas, ou três situações distintas da paisagem: a natural, representada pela cordilheira; a urbana do entorno e da história da cidade; e a paisagem do parque, uma ‘natureza’ criada, domesticada, sendo que todos esses elementos levaram à criação de uma quarta paisagem urbana do espaço público, a qual não procurava reproduzir nenhuma das citadas anteriormente, mas que se integrava a elas, potencializando-as e delas usufruindo, como num processo de simbiose.

Evidentemente, é ao observador que a paisagem se destina e, por meio dele, se consolida. Somente a partir deste olhar é que ela faz sentido. Não haveria praça, pátios, ruas, se os mesmos não fossem perceptíveis ao transeunte. Essa subjetividade leva a infinitas paisagens, causadas não só pelo movimento, mas pelos diversos olhares e percepções, distintas, próprias de cada um. Não é possível controlar essa infinidade de percepções, apenas permiti-las e incentivá-las. Nem todos, de fato, perceberão as sombras, as luzes, o vazio, a imensidão das

focará a sua paisagem, se tanto. Alguns perceberão os respiro dos espaços públicos diante da velocidade dos fluxos da avenida. Outros, voltarão seus olhares para a cidade, a partir do espaço interno do museu e outros, ainda, para a secura da praça. Alguns notarão a importância dada ao colégio, outros o grande anfiteatro público ou, ainda, o monólito que paira no ar organizando os espaços, mas permitindo a fruição, o percurso, a sequência de espaços e pontos de vista, que incorpora o tempo e o movimento na experiência do espaço, sua dinâmica sólida/transparente, os novos limites, a truncagem da avenida, conforme ensinava Gordon Cullen2, ou

a apropriação visual do patrimônio histórico desde o interior do museu. Enfim, não há limites para os olhares. Há as superfícies, que se vêem, e que constituem os espaços, e suas transposições, frestas e janelas à distância.

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NOTAS:

1 IRARRÁZAVAL C., Raul. Santiago: um plan para uma ciudad armoniosa. Santiago de Chile: Ediciones U. Católica Chile, 1985. p. 14-19 (tradução nossa)

2 CULLEN, Gordon. Paisagem Urbana. Tradução Isabel Correia e Carlos de Macedo. Lisboa: Edições70, 1984.

CRÉDITOS DAS IMAGENS: Figura 1

Site: http://www.intute.ac.uk/worldguide/html/851_map.html acessado em 22-02-2010

Figura 7

IRARRÁZAVAL C., Raul. Santiago: um plan para uma ciudad armoniosa. Santiago de Chile: Ediciones U. Católica Chile, 1985. p.24

Figuras 17, 18

ESTÚDIO AMÉRICA DE ARQUITETURA, Desenho Marcus Damon Figura 11

ESTÚDIO AMÉRICA DE ARQUITETURA, Desenho Mário do Val - Foto aérea com diagrama infra-estrutural, centro e poniente, Santiago.

ESTÚDIO AMÉRICA DE ARQUITETURA, Desenho Carlos Garcia Figuras 2, 12, 13

ESTÚDIO AMÉRICA DE ARQUITETURA, Acervo Figuras 3, 4, 5, 6, 8, 9, 10, 14, 15, 16 Foto: Lucas Fehr

Figura 19 Foto: Nicolas Saieh Figuras 20, 21, 22 Foto: Carlos Dias