OUTRAS CONSIDERAÇÕES
3.3. O Projeto EsPCEx 2000.
Em 1995, o Exército assinou um convênio com a Universidade de Campinas (UNICAMP), para a implantação de um projeto inovador de pesquisa em educação, de- nominado Projeto EsPCEx 2000, a ser implantado na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). Falava-se muito, até então, no novo paradigma educacional, mas pouco se fizera para implementá-lo na prática, no Brasil e no mundo, devido às deficiên- cias apresentadas pela escola pública.
A EsPCEx, escola militar de ensino médio e ponto de passagem obrigatória para os futuros cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras, apresentou as condições adequadas: situa-se em Campinas, em local próximo à UNICAMP; é uma escola públi- ca; possui um sistema de ensino estruturado; seu corpo docente, composto por militares em sua maioria, tem qualidade e é motivado, pois trabalha em regime de dedicação ex- clusiva e está afastado das agruras salariais que afligem a maior parte dos professores da rede pública; seus alunos são selecionados por um dos mais rigorosos exames deste país e que já têm seu ingresso na AMAN assegurado pela simples aprovação no seu curso, estando, portanto, livres do vestibular. Além disso, naquele momento, as vistas do Exér- cito estavam voltadas para a necessidade de modernizar seu ensino.
As condições ideais apresentadas acima juntaram o Exército, com suas intenções modernizadoras, e a UNICAMP, com sua capacitação técnica, em um projeto que, en- quanto durou, colocou o Exército Brasileiro na vanguarda mundial da educação. Poucos países no mundo tinham avançado tanto. Era um trabalho pioneiro, sem experiências anteriores que servissem como modelo. Tudo foi construído a partir dos pressupostos teóricos. Transcrevemos abaixo alguns trechos de seu contrato legal, assinado, com a autorização de suas respectivas instituições, pela Drª Maria Inês Fini, da Faculdade de Educação da UNICAMP, e pelo coronel Augusto Heleno Ribeiro Pereira, comandante da EsPCEx:
O presente projeto de pesquisa tem por finalidade criar e testar um MODELO DE INTERVENÇÃO que objetiva a implementação de melhoria na qualidade do ensino e no desempenho institucional da escola, inserida no contexto sócio-histórico das exigências do mundo moderno.
Partilha da revalorização da educação como esteio de transformação na esfera produtiva e, conseqüentemente, nas estratégias de desenvolvimen- to. Pressupõe, portanto, a reestruturação das profissões, seja como conse- qüência do impacto tecnológico sobre a organização e gerenciamento do trabalho humano, seja em função das exigências da cidadania em sociedades plurais e saturadas de informação. Tendo como referência a cidadania no mundo moderno, propõe uma mudança paradigmática para a escola, apoia- da no Construtivismo Piagetiano que oferece os suportes epistemológicos, científicos e pedagógicos da transformação. O eixo da mudança é a prepa- ração dos professores e especialistas para que a ênfase do trabalho escolar recaia sobre as condições facilitadoras do desenvolvimento das estruturas de inteligências do aluno, valendo-se da reformulação dos conteúdos curricula- res e dos procedimentos didáticos e incluindo o computador como instru- mento da aprendizagem.
Foi concebido através de parceria - Faculdade de Educação da UNICAMP e Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Abriga projetos de pesquisa e de formação de recursos humanos. Envolve professores e alu- nos de graduação e pós-graduação da UNICAMP e professores, instrutores, especialistas e administradores da EsPCEx.
Será implantado como Projeto Experimental na EsPCEx e, progressi- vamente, atingirá as demais instituições do Sistema de Ensino Militar. Sua utilização poderá estender-se a qualquer estabelecimento de ensino, civil ou militar, isolado ou integrado.
[...]
3.2. A Proposta de Mudança
A natureza da proposta é paradigmática e substitui o modelo instru- cionista pela adoção do construtivismo.
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3.2.1. Reformulação do Currículo
A redefinição de conteúdos deverá privilegiar um conjunto de conhe- cimentos necessários e suficientes para o prosseguimento de estudos na AMAN, sem ênfase na preparação para os vestibulares e organizados em novas situações de ensino, baseadas na didática construtivista, que privile- gia o desenvolvimento de projetos integrados dos alunos estruturados a par- tir de problemas decorrentes de conflitos cognitivos propostos pelos profes- sores. Torna-se necessária uma redução dos conteúdos atuais, a inclusão de conhecimentos de informática e o aumento da carga horária de inglês..."
No texto acima está claramente explicitado o caráter pioneiro da pesquisa: um pro- jeto experimental de mudança paradigmática, destinado a criar e testar um novo modelo de intervenção na escola, para inserí-la no contexto das exigências do mundo moderno. Para tanto, escolheu o computador como ferramenta, e o Construtivismo Piagetiano co- mo modelo teórico. Teve, como objetivo final abrangente, a disseminação de seus resul- tados a todas as escolas do país.
O que, por si só, já tornou essa experiência pioneira foi a estratégia definida para sua implantação: ao invés de sugerir apenas mudanças curriculares, que em tantas tenta- tivas anteriores ajudaram apenas a "dar uma mão de tinta na fachada", atacou de frente o problema da mudança estrutural ao propor e efetivamente implementar um rigoroso pro- grama de formação de recursos humanos, definido em outra parte da redação do projeto como "formação em serviço". A escola continuou com suas aulas normais no período da manhã, e conduziu a preparação dos professores à tarde. Dessa forma, à medida que es- tes se sentiam devidamente instrumentalizados com os novos procedimentos didáticos, passavam a aplicá-los imediatamente em suas salas de aula.
O projeto passou por uma difícil fase inicial de convencimento dos docentes, tendo em vista ameaçar arraigadas crenças pessoais. Mas esse período de adaptação foi breve, dada a possibilidade de colocarem imediatamente em prática e testarem o que vinham aprendendo. Essa metodologia lhes deu a segurança necessária para reavaliarem suas convicções internas sobre o papel do professor na sala de aula, a interação professor- aluno e principalmente a interação aluno-aluno, vista agora sob uma perspectiva constru- tiva e não mais perturbadora do ambiente escolar.
Todo o processo de mudança, até onde elas ocorreram, foi conduzido de forma democrática, com a participação dos professores, novidade em um sistema de ensino caracterizado, até então, por decisões verticais e pela falta de diálogo. A etapa referente à reformulação curricular só foi iniciada após sua preparação, e conduzida por eles. O suporte financeiro para o pagamento de bolsas de pesquisa, professores, orienta- dores educacionais, assessoria pedagógica e consultoria em informática, foi obtido me- diante convênio entre a Faculdade de Educação da UNICAMP e a SEMTEC/MEC - Secretaria de Educação Média e Tecnológica do MEC, através da FUNCAMP. Outro convênio firmado entre a UNICAMP e a IBM do Brasil, por intermédio do NIED - Nú- cleo de Informática Educativa da UNICAMP, resultou na doação de 180 estações indi- viduais completas de computação em regime de comodato, suficientes para a montagem de 6 laboratórios de informática, com 30 computadores cada um.
O projeto foi composto pelos seguintes sub-projetos de pesquisa e cursos de for- mação de recursos humanos:
I - SIPA - Sistemática de Informações para a Construção do Perfil do Aluno.
Para o levantamento de informações sobre os alunos, visando auxiliar seu acompa- nhamento escolar e avaliar sua adequação à carreira militar.
II - POV - Programa de Orientação Vocacional.
Para auxiliar os alunos nas futuras escolhas dentro da profissão.
III - SAMAN - Seleção para a AMAN.
Para aprimorar ou apresentar uma alternativa aos instrumentos até então utilizados para a indicação ou contra-indicação para a AMAN.
IV - DESHAES - Desenvolvimento de Hábitos de Estudo.
Para o desenvolvimento de hábitos de estudo individual ou em grupo.
V - ATREFA - Evolução do Treinamento Físico Militar.
Para o estudo de um modelo de acompanhamento da evolução do desempenho físico dos alunos e evolução técnica das equipes esportivas.
• Cursos
FORHEX - Módulo A
Denominado Curso de Especialização em Informática Aplicada à Educação Cons- trutivista, com duração de 420 horas, teve como objetivo desenvolver uma didática cons- trutivista com o apoio do computador. Envolveu conhecimentos teóricos e práticos e finalizou com a elaboração de um projeto pessoal de trabalho do professor, que seria implantado com a supervisão da UNICAMP. Foi organizado de acordo com as diretrizes da Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UNICAMP, com as se- guintes disciplinas:
Introdução à teoria psicogenética de Piaget;
A estrutura da ciência e o desenvolvimento das estruturas da inteligência; Introdução à linguagem e metodologia LOGO;
Uso do LOGO com alunos em sala de aula; Aprofundamento da linguagem LOGO; Introdução ao LEGO-LOGO;
Navegação em redes computacionais; Ferramentas computacionais na educação;
Supervisão de projeto pedagógico.
FORHEX - Módulo B
Conjunto de cursos de extensão em psicologia educacional e informática educativa para especialização de oficiais que desempenham funções de instrutor e auxiliar de ins- trutor, organizados com cursos de extensão, com o total de 120 horas (4 cursos de 30 horas):
Diagnóstico do Processo Grupal. Vivência Sócio-Dinâmica. Avaliação do Comportamento.
Utilização de Simulações no Processo de Aprendizagem
Como se percebe, o Projeto EsPCEx 2000 tinha uma ampla envergadura, alcan- çando todos os aspectos da vida escolar do aluno e da missão institucional da escola. Detalhamos os FORHEX - Módulos A e B, destinados, respectivamente, a preparar os professores do ensino fundamental (matérias curriculares do ensino médio) e os instruto- res (matérias da instrução militar), para mostrar como ocorreu o processo de capacitação dos profissionais do ensino. O Módulo A estendeu-se ao longo de 2 anos, entremeando a teoria dada à tarde com a prática pedagógica da sala de aula, na manhã seguinte.
Bem sucedido até onde pôde ser implantado, o Projeto EsPCEx 2000 - Parceria da Escola com a Qualidade, no que toca à parceria com a UNICAMP, foi interrompido no final de 1997, por divergências surgidas quanto à sua condução, após a saída do coronel Heleno do comando da escola. Nesse momento, o Exército pareceu perder subitamente seu interesse no projeto. A partir daí, com o afastamento da UNICAMP, os trabalhos foram reorientados na direção apontada pela modernização do GTEME.
Cabe aqui uma citação de Bohoslavsky (1986, p. 323-324):
"Mesmo quando o professor e o aluno estivessem em condições pesso- ais de aceitar novas regras do jogo, e sobretudo de criá-las, penso que have- ria por parte da instituição uma tentativa de assimilar o novo ao velho, o que faria com que tais modificações não fossem mais do que verter em garrafas novas o velho vinho, procurando reformas fortuitas nas quais algumas coi- sas seriam modificadas para que, no fundo, a relação se mantivesse a mes- ma."