4. EVOLUÇÃO HISTÓRICA
4.3. A História dos Direitos Autorais no Brasil
4.3.10. O Projeto Nelson Hungria e o Código Penal de 1969
Em 1961, o Governo Jânio Quadros atribuiu a Nelson Hungria Hoffbauer a tarefa de elaborar um anteprojeto de Código Penal. No ano seguinte, em 08 de dezembro, foi publicado o Decreto nº 1.490, contendo a sua proposta, à qual se deu ampla publicidade para que pudesse receber sugestões, o que de fato ocorreu em grande número, forçando o Ministro Milton Campos a designar uma comissão revisora em 1964. Nelson Hungria, Hélio Tornaghi e Roberto Lyra dela fizeram parte, porém no ano seguinte foi substituída por outra, então formada pelos dois primeiros, Heleno Cláudio Fragoso e Aníbal Bruno, este nomeado presidente.
Na época, os debates foram acalorados e até um ciclo de conferências sobre o anteprojeto de reforma do Código Penal de autoria do então Ministro Nelson Hungria foi realizado sob os auspícios do Instituto Latino-americano de Criminologia (ILAC), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) e com o patrocínio da Secretaria da Justiça e Negócios do Interior do Estado de São Paulo, da qual era titular o professor Miguel Reale. Estes encontros aconteceram de 03 de setembro de 1963 a 26 de fevereiro de 1964 na Sala “João Mendes Junior” da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Quanto aos crimes contra a propriedade imaterial, em um desses encontros o professor Rui Junqueira de Freitas Camargo177 teceu diversos comentários a respeito, mas de um modo geral elogiou as idéias de Hungria.
Disse acertada a manutenção da orientação do Código de 1940, através da rubrica “Dos crimes contra a propriedade imaterial”, porquanto a propriedade imaterial coexiste com a propriedade material, sujeitas aos mesmos princípios
177 In Anais do ciclo de conferências sobre o anteprojeto do código penal brasileira. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1965, p. 227-230.
que regulam o Direito das Coisas. Entretanto e por isso mesmo, criticou a posição geográfica do tema no Código, aduzindo que, para ele, deveria estar entre os crimes contra o patrimônio, já que se constitui em uma das suas espécies, têm a mesma natureza e mereceriam a mesma proteção das leis penais.
Outrossim, disse que ontologicamente não haveria razão para se distinguir a propriedade imaterial da material, mas que motivos ligados à tradição humana fizeram-nas diferentes, inclusive com diferença na previsão das penas.
Como já mencionado, na seqüência, em 1965, uma comissão substitutiva foi formada por Hungria, Hélio Tornaghi e Heleno Fragoso, ficando a cargo de Aníbal Bruno a presidência, cujo trabalho foi revisto por outra comissão, desta vez formada por Heleno Fragoso, Benjamin de Moraes Filho e Ivo D’Aquino. Nelson Hungria, por problemas de saúde, desta comissão não fez parte, sobrevindo seu falecimento em 26 de março de 1969, meses antes da edição do Código Penal que idealizou, através do Decreto-Lei nº 1.004, de 21-10-1969178.
Com efeito, com relação aos direitos autorais, sem prejuízo do já relatado, a idéia de Nelson Hungria, secundada pelos demais membros das comissões revisoras, era reinserir no Código Penal os crimes contra patente de invenção, de modelo de utilidade, de desenho ou modelo industrial e outras infrações penais contra a propriedade industrial e comercial que, por força do desejo legislativo, desde a vigência do Código da Propriedade Industrial (Decreto-Lei nº 7.903, de 28-08-1945), existiam em separado; e, assim, de fato ocorreu.
Com a ressalva de que no Título II se cuidava dos crimes patrimoniais, tipificando o furto, o roubo, a extorsão, a usurpação, o dano, a apropriação indébita, o estelionato, a usura e a receptação nos artigos 164 a 197, o Projeto
178 PIERANGELI, op. cit., p. 82.
Nelson Hungria, quanto ao tema aqui abordado, sob a rubrica “Dos crimes contra a propriedade imaterial”, tratava-o no Título III da Parte Especial, dividido em seis capítulos:
I – Dos crimes contra a propriedade intelectual, composto de três artigos (198 ao 200179);
II – Dos crimes contra patentes de invenção, composto de sete artigos (201 ao 207);
III – Dos crimes contra as marcas de indústria ou comércio, composto do artigo 208;
IV – Dos crimes contra o nome comercial, o título de estabelecimento, a insígnia ou a expressão ou sinal de propaganda, composto de três artigos (209 ao 211);
V – Dos crimes de concorrência desleal, composto do artigo 212;
VI – Dos crimes contra armas, brasões ou distintivos públicos e de falsa indicação de procedência, composto dos artigos 213 e 214.
Espelho desse projeto, o Código Penal de 1969 trouxe em seu bojo os crimes contra a propriedade imaterial, mas em título distinto dos crimes contra o
179 Art. 198. Violar direito de autor de obra literária, científica ou artística.
Pena – detenção, de três meses a um ano, ou pagamento de 10 a30 dias-multa.
Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem vende, expõe à venda, adquire, oculta ou tem em depósito, para o fim de venda, obra literária, científica ou artística, produzida com violação de direito autoral.
Art. 199. Atribuir falsamente a alguém, mediante o uso de nome, pseudônimo ou sinal por ele adotado para designar seus trabalhos, a autoria de obra literária, científica ou artística.
Pena – detenção, de seis meses a dois anos, e pagamento de 10 a 30 dias-multa.
Art. 200. Nos crimes previstos neste capítulo, somente se procede mediante queixa, salvo quando praticados em prejuízo de entidade de direito público.
patrimônio, isto é, no Título III, formado por dezessete artigos divididos em seis capítulos, a saber:
I - Dos crimes contra a propriedade intelectual
II - Dos crimes contra patente de invenção, de modelo de utilidade, de desenho ou modelo industrial
III - Dos crimes contra as marcas de indústria, comércio ou serviço IV - Dos crimes contra o nome comercial, o título de estabelecimento, a insígnia ou a expressão ou sinal de propaganda
V - Dos crimes de concorrência desleal
VI - Dos crimes contra armas, brasões ou distintivos públicos e de falsa indicação de procedência.
Disto se extrai que, exceção feita aos capítulos II e III, as demais disposições são absolutamente coincidentes.
Reproduzem-se a seguir os tipos penais insertos nos artigos 201 a 203 do Código de 1969, referentes à violação de direito autoral e à usurpação de nome, pseudônimo ou sinal alheio, por guardarem mais pertinência com o objeto deste trabalho.
Art. 201. Violar direito de autor de obra literária, científica ou artística.
Pena – detenção, de três meses a um ano, ou pagamento de dez a trinta dias-multa.
Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem vende, expõe à venda, adquire, oculta ou tem em depósito, para o fim de venda, obra literária, científica ou artística, produzida com violação de direito autoral.
Art. 202. Atribuir falsamente a alguém, mediante o uso de nome, pseudônimo ou sinal por ele adotado para designar seus trabalhos, a autoria de obra literária, científica ou artística.
Pena – detenção, de seis meses a dois anos, e pagamento de dez a trinta dias-multa.
Art. 203. Nos crimes previstos neste capítulo, somente se procede mediante queixa, salvo quando praticados em prejuízo de entidade de direito público, empresa pública, autarquia, sociedade de economia mista, ou sociedade de que participe a União, Estado ou Município como acionista majoritário.
Na comparação com o Projeto Nelson Hungria, percebe-se que estes três dispositivos têm redação quase idêntica, ressalvando-se apenas que foram numerados de maneira distinta (198-200 e 201-203) e, no artigo 203, o Código amplia o rol das pessoas jurídicas de Direito Público vítimas dos crimes, acrescentando à entidade de direito público (idealizada por Hungria) a empresa pública, autarquia, sociedade de economia mista, ou sociedade de que participe a União, Estado ou Município como acionista majoritário.
E, na comparação com os dispositivos correspondentes do Código Penal de 1940, observa-se perfeita semelhança, exceção feita à pena de multa, ora prevista no critério do dia-multa.
Disto se depreende que Nelson Hungria e os demais juristas de escol que com ele idealizaram o diploma reformador de 1969 viram que o modelo que existia deveria permanecer. Além disso, como já salientado, reintroduziram no Código as figuras típicas então tratadas no Código da Propriedade Industrial, versando sobre a violação de patente de invenção, a violação de modelo de utilidade, a violação de patente de desenho ou modelo industrial, a falsa atribuição de patente, a falsa menção de depósito ou patente, a violação de direito de marca, a violação do direito à denominação ou insígnia, o uso indevido ou imitação de expressão ou sinal de propaganda, os atos de
concorrência desleal, o uso indevido de armas, brasões ou distintivos públicos e a falsa indicação de procedência (artigos 204 a 217).
Entretanto, conforme disposto no art. 407 do Decreto-Lei nº 1004, de 21 de outubro de 1969, o Código Penal de 1969 teria vigência a partir de 1º de janeiro de 1970, mas cinco leis postergaram a “vacatio legis” até que, em 1978, foi revogado pela Lei nº 6578, de 11 de outubro. Com efeito, a Lei nº 5573, de 1º-12-1969, determinou que a vigência dar-se-ia em 1º-08-1970; a Lei nº 5597, de 31-07-1970, alterou a vigência para 01-1972; depois, a Lei nº 5749, de 1º-12-1971, estabeleceu nova data: 1º-01-1973; e a Lei nº 5857, de 07-12-1972, por seu turno, assentou que seria no dia 1º-01-1974; contudo, a Lei nº 6063, de 27-06-1974, preconizou solução diferente: o Código Penal entraria em vigor simultaneamente com o novo Código de Processo Penal, mas isto também não se concretizou.
De qualquer forma, o “nati-morto” Código Penal de 1969 trouxe em conteúdo os crimes de violação aos direitos de autor, reforçando sua importância no cenário jurídico nacional.