3. ESTADO DE DIREITO GARANTISTA, ECONOMIA, E PAZ: OS DIREITOS
3.4 O Estado de Direito Garantista: os direitos fundamentais como
3.4.4 O projeto de paz econômica a partir do modelo jurídico garantista
O cenário que se anuncia com o desmantelamento das esferas estatais e com a ausência de instituições e de garantias na esfera supraestatal para o controle dos poderes econômicos desregulados demanda a busca de alternativas que sejam capazes de promover o fortalecimento das instituições, estatais e supraestatais, e, por conseguinte, das formas de regulação social. O poder econômico desregulado, ainda que não se trate do único problema, assume destacada relevância no contexto mundial, uma vez que aliado ao fenômeno da globalização repercute suas consequências globalmente.
Nesse contexto, é imprescindível que se observem limites e vínculos substanciais estabelecidos aos poderes públicos e privados, sobretudo a estes, pelos direitos fundamentais, os quais representam aqueles direitos que traduzem os meios de vida indispensáveis dos indivíduos. A partir de então, a paz econômica pode sim ser buscada e, talvez, alcançada, invertendo a lógica em que o poder econômico representa um elemento de subjugação dos interesses públicos frente aos interesses privados e dos direitos fundamentais de todos em relação aos direitos privados de alguns. É igualmente necessário impedir a transferência do poder estatal democrático para o arbítrio das instituições financeiras particulares, retomando, assim, uma esfera pública, inclusive de ordem supraestatal, onde o Estado e o Direito têm suas funções reestabelecidas e fortalecidas, capaz de promover a ordenação social sem as implicações desastrosas dos interesses puramente econômicos.
Por isso, o projeto de paz econômica que se propõe compreende-se a partir da vinculação da pretensão de superação do estado de natureza, entendido como o
cenário do absolutismo econômico que se apresenta, ainda que não somente, mas principalmente em nível supraestatal, o que remete à “guerra de todos contra todos” hobbesiana, à possibilidade de paz universal e perpétua kantiana, por meio da construção de uma esfera pública inclusive a nível internacional que, destilando a concentração de poderes e desconstruindo a supremacia de um poder econômico que não reconhece limites e vínculos, possa impedir o uso desregulado da força, como assinala Ferrajoli.
O garantismo jurídico mostra-se como uma alternativa importante para a constituição desse projeto, uma vez que enquanto sistema jurídico impõe limites e vínculos materiais aos poderes públicos e privados, a partir dos direitos fundamentais próprios de todos os serem humanos, ou seja, de direitos subjetivos universais, que compreendem expectativas positivas de prestações e expectativas negativas de não lesão. Com efeito, os direitos fundamentais são compreendidos como aqueles direitos universais, indisponíveis e inalienáveis, pertencentes a todos na mesma medida e extensão, que representam os interesses e necessidades de todos, inclusive de forma supranacional, e dessa forma figuram como instrumentos limitadores e vinculados dos poderes públicos e privados, portanto, inclusive do poder econômico.
Igualmente, porque o garantismo jurídico altera a compreensão dos direitos de liberdade próprios do liberalismo clássico, como não intervenção na esfera individual, para uma dimensão que compreende os direitos de liberdade e os direitos de autonomia, sendo os primeiros imunidades-faculdades e os segundos direitos- poder subordinados aos direitos de liberdade, o que retira da liberdade econômica a característica de liberdade propriamente e a revela enquanto poder econômico.
Com efeito, não se admite no Estado Direito garantista, que se materializa pela democracia substancial, a existência de poderes desregulados, ou seja, de poderes que não respeitem limites e vínculos constitucionalmente estabelecidos e que refletem o interesse da coletividade frente aos interesses particulares.
Ferrajoli (2011b, p. 246) assevera que
lo que se ha ocultado por la ideología liberal, hay que añadir, es que la autonomía negocial en la que se basa el mercado es un poder; y que por eso el principio de legalidad, que excluye la existencia de poderes absolutos en el estado de derecho, exige que también ella, al igual que todos los poderes, esté sujeta a límites y vínculos en tutela de los derechos y de los bienes fundamentales sobre los cuales incide su ejercicio.
A partir dessas premissas, é também indispensável o estabelecimento de garantias e de instituições de garantia efetivas, tanto na esfera pública de nível estatal, mas principalmente expandindo à esfera pública de nível supraestatal, a fim de que seja possível fazer observar e cumprir os direitos fundamentais universalmente, bem como promover o controle dos poderes econômicos que emergem da esfera negocial.
O projeto de paz econômica se vale, portanto, do estabelecimento de limites e vínculos ao mercado que efetivamente considerem institutos primordiais dentro do Estado Democrático de Direito, ou seja, a separação e a limitação dos poderes tradicionais, inclusive com o reconhecimento do poder econômico para além deles, o princípio da legalidade como instrumento de supremacia da lei e também a união entre o Direito e a democracia89, como critério material de legitimidade da ordem estabelecida.
89 Copetti Neto (2013) reforça que a associação entre o Direito e a democracia, “com a proposta de
democracia substancial, justamente acentua a existência da relação entre direito e poder – não só público, mas também privado –, na medida em que qualifica esse novo constitucionalismo com liames de conteúdo, reconhecendo os fins a serem atingidos pelo estado de direito, e submetendo a limites e vínculos substanciais tanto o exercício das autodeterminações políticas como o exercício das autodeterminações civis, tudo por conta da própria normatividade do paradigma constitucional contemporâneo, que reestrutura efetivamente, e, sobretudo, o nexo basilar entre democracia e direito.
CONCLUSÃO
A construção proposta neste trabalho permite concluir que o Estado, o Direito e a economia sempre mantiveram estreitas relações, não obstante a defesa ferrenha do liberalismo econômico quanto à existência de um mercado natural, neutro e autorregulado, regido por leis invisíveis universais, destinando à atividade estatal apenas aqueles serviços nos quais a atuação econômica privada não se mostrava interessante. Nesse contexto, a liberdade era compreendida como a não constrição pelo Estado e, de tal forma, o indivíduo se via livre para gerir seus meios de vida, notadamente no aspecto econômico que se consolidava na acumulação capitalista da Revolução Industrial.
Essa concepção de liberalismo, contudo, foi paulatinamente desconstruída, uma vez que não foram poucas as crises enfrentadas pelo rompimento da lógica de ajustamento natural dos fatores econômicos, sobretudo com o acontecimento da Primeira Guerra Mundial. Nesse momento, a atuação estatal que, diga-se, sempre foi buscada para corrigir e reestruturar o mercado, invertendo a lógica de estado mínimo rapidamente para de estado máximo, no interesse do capital, ganhou notoriedade para reorganizar a estrutura do Estado, a fim de promover o bem-estar social. Não é a toa que as próprias teorias econômicas se orientavam no sentido de ampliar a presença estatal na direção da economia e garantir direitos sociais como forma de corrigir os pressupostos liberais que ocasionaram o distanciamento social entre os detentores do capital e aqueles que se viam excluído do processo acumulativo.
Em que pese esse contexto, a reestruturação do liberalismo ocorreu com força a partir dos descontentamentos de teóricos liberais com os rumos tomados pelo estado social, alicerçando os pressupostos da ideologia neoliberal e, posteriormente, condensando seus postulados no fenômeno da globalização em
franca expansão. Esses dois elementos reunidos proporciona(ra)m abalos profundos nas estruturas institucionais, sobretudo com o rompimento da lógica de soberania estatal e das formas tradicionais de regulação social, que passa(ra)m a ser substituídas ou vinculadas por novos atores internacionais e por novos regramentos privados de fundo econômico.
O papel do Direito acompanhou este processo servindo inicialmente como base de justificação do processo acumulativo, considerando que as formas primitivas do constitucionalismo visavam justamente à consolidação das pretensões da burguesia industrial ascendente, por meio de leis abstratas e gerais, que promoviam a manutenção desse status quo. Era, pois, um modelo de “regras do jogo”, porque estabelecia apenas procedimentos, formas, competências, mas não voltava atenção às necessidades básicas dos indivíduos, o que somente seria inaugurado com os direitos sociais reconhecidos a partir das constituições mexicana, em 1917, e alemã, em 1919, fundando novos pilares sociais e democráticos aos ordenamentos jurídicos. A inserção dos direitos sociais nas constituições representou, inclusive, um novo status às cartas constitucionais, uma vez que refletiam estatutos compromissórios e dirigentes dos quais se esperava a possibilidade de emancipação.
Não se pode esquecer, contudo, que a ocorrência das guerras mundiais, sobretudo no cenário posterior à Segunda Guerra Mundial, representou uma nova conformação ao Direito. As constituições passaram a compor o ápice da estrutura normativa dos ordenamentos jurídicos e a vincular todo o direito produzido, conferindo-lhe legitimidade. Nesse cenário surgiram diversas novas teorias jurídicas, principalmente sobre a identificação de neoconstitucionalismo, ou, melhor dizendo, de constitucionalismo argumentativo ou principialista, buscando estabelecer a justiça como um aspecto jurídico interno e legitimar o direito restabelecendo o vínculo com a moral, a partir da inserção de valores nos ordenamentos jurídicos consistentes nos princípios constitucionais. Essa concepção, porém, em que pese a boa intenção de conferir maior efetividade aos direitos fundamentais, culminou, dentre outros fatores, no exacerbado ativismo/discricionariedade judicial, retirando dos direitos fundamentais a esfera de subjetividade que lhes é própria e transferindo-a aos julgadores, o que não parece adequado a um sistema normativo capaz de fomentar o controle dos poderes desregulados, sobretudo os poderes do mercado.
Diferentemente, o constitucionalismo garantista se revela como um modelo jurídico capaz de efetivamente promover a instituição de limites e vínculos aos poderes públicos e privados, a partir de uma proposta que busca o estabelecimento de uma democracia substancial, ou seja, unindo o Direito e a democracia, promove um sistema no qual todos os poderes, inclusive o poder econômico, encontrem limites e vínculos materiais, representados pelos direitos fundamentais. A submissão de qualquer poder ao Direito se faz necessária diante das consequências implicadas na subjugação das estruturas estatais e jurídicas que culmina(ra)m na fragilização e na violação de direitos humanos e fundamentais consagrados e conquistados por árduas lutas ao longo da história.
É de se notar, ademais, que o conceito de paz evoluiu notavelmente ao longo da história, uma vez que na filosofia antiga praticamente não se tinha referência da paz enquanto um pensamento estruturado para, posteriormente, assumir contornos religiosos, políticos, filosóficos e jurídicos. Nesse sentido, a paz também representou projetos para a humanidade, como se pode observar da teoria contratualista hobbesiana, mas sem esquecer outras referências como o projeto de paz universal e perpétua de Kant e a proposta de impedimento do uso desregulado da força e da proteção dos direitos vitais conforme defendido por Ferrajoli.
Nesse contexto, os projetos de paz desenvolvidos também podem ser vinculados à economia ou, mais precisamente, à ordenação do poder econômico, o qual se desenvolveu livremente na modernidade, pela concepção do liberalismo clássico de que não se deveria intervir na esfera privada. Entretanto, alterando essa lógica, o garantismo jurídico defende uma nova compreensão dos direitos fundamentais a partir da distinção dos direitos de liberdade e sociais, direitos primários, enquanto imunidades-faculdades, em relação aos direitos civis e políticos, direitos secundários, como direitos-poder. A autonomia negocial é considerada, assim, um direito civil, um direito-poder, e não um direito de liberdade e, portanto, encontra seu exercício subordinado àqueles, uma vez que o garantismo não admite a existência de poderes desregulados, o que se reflete na imposição de limites e vínculos ao seu exercício, a partir dos direitos fundamentais.
Dessa forma, a paz assume uma nova dimensão, ou seja, de paz econômica, refletindo a necessidade de superação dos poderes desregulados a partir de uma esfera pública, inclusive de nível supraestatal, que possa exercer o controle desses
poderes por critérios jurídicos de garantia, exercidos por instituições de garantia apropriadas.
Daí que a defesa de uma esfera supranacional, com garantias primárias e secundárias e instituições de garantias, mostra-se indispensável, sobretudo a partir da ascensão da ideologia neoliberal que, associada ao fenômeno da globalização, impõe uma lógica de eficiência e sintetiza as relações humanas enquanto equação de custo-benefício, alargando a esfera do poder privado frente à esfera pública, uma vez que não reconhece fronteiras e nem limites à sua atuação.
Nesse contexto, o projeto de paz econômica que se compreende a partir do modelo jurídico garantista pressupõe o reconhecimento do poder econômico enquanto um poder efetivo, o qual, então, se torna passível de imposição de limites e vínculos, sobretudo porque o mercado não pode ser compreendido como uma instituição natural, neutra e autorregulada, consoante defende a ideologia liberal clássica e intenta retomar o neoliberalismo, mas sim uma instituição jurídica, criada desde o início como tal e por isso balizada por critérios igualmente jurídicos. A partir disso, o garantismo jurídico figura como base teórica apropriada, por sua proposta de um constitucionalismo rígido e positivista, cuja materialidade é substancializada pelos direitos fundamentais. Com efeito, para o garantismo jurídico os direitos fundamentais comportam uma dimensão constitucional supraordenada aos demais direitos e, assim, são instrumentos que conformam a produção legislativa e conferem os limites e os vínculos substanciais necessários à manutenção do Estado Democrático de Direito, o que se traduz na centralidade do princípio da legalidade e da democracia, os quais, conformando o mercado, corroboram a perspectiva de paz econômica.
Com essas premissas, entende-se que a concretização de limites e vínculos propostos ao mercado pelo garantismo jurídico a partir dos direitos fundamentais pode ser traduzida como a paz econômica. A observância dos direitos fundamentais como critérios materiais consubstanciados nas cartas constitucionais representa a possibilidade de evitar ou fazer cessar os conflitos econômicos, por meios jurídicos idôneos e legitimamente construídos.
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