Capítulo 1: Fundamentação teórica
2. Educação, emancipação e projeto político-pedagógico
2.2. O projeto político-pedagógico na escola pública
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96) em seu Artigo 12, inciso I, estabelece que a escola tem como incumbência a elaboração e a execução da sua proposta pedagógica, respeitando as normas comuns e as do seu sistema de ensino. O Artigo 13 - inciso I; e o Artigo 14 - incisos I e II, estabelece que os docentes e profissionais da educação devem participar da elaboração do projeto pedagógico do estabelecimento de ensino, com a colaboração das comunidades escolar e local, por meio de conselhos escolares.
Vale mencionar que a necessidade da construção de uma proposta pedagógica pelas unidades de ensino, a fim de subsidiar o trabalho educativo, havia sido apontada na literatura educacional principalmente a partir dos anos 90, mesmo antes da promulgação da LDB. 31 As publicações valorizavam a importância do projeto pedagógico, destacando-o como uma forma de reivindicar maior autonomia para a escola.
Vasconcellos (2005) também ressalta o papel do projeto político-pedagógico como um caminho de consolidação da autonomia da escola, 32 porém, chama a atenção para a possibilidade dessa abertura não se transformar em uma estratégia de descompromisso e de transferência de responsabilidade do Estado,
31
Maiores informações podem ser obtidas em Libâneo (2001); Azanha (1998); Vasconcellos (2005); Veiga (1995), entre outros.
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O tema autonomia e sua relação com o projeto pedagógico tem sido discutido em profundidade por autores como Gadotti e Romão (1997), Azanha (1998), Carrer (1999), entre outros.
no sentido de responsabilizar a escola pelo sucesso ou fracasso das ações educativas. Todavia, o autor esclarece que isso vai depender do posicionamento adotado pela escola e da forma condução do p.p.p, como um movimento coletivo, um instrumento de luta para a construção de uma nova prática.
O projeto pode ser visto com um método que visa auxiliar a escola a enfrentar os desafios cotidianos, de uma forma mais sistematizada, refletida e essencialmente participativa. É uma forma de enfrentar o processo de alienação, na medida em que implica em ações intencionais e conscientes que correspondam as reais necessidades da comunidade e da escola. Implica também na expressão de uma ética, de um compromisso do grupo com o processo (Vasconcellos, Op. cit).
Na literatura relativa ao tema em questão podem ser encontradas várias expressões para designar o projeto no contexto educativo, a saber: projeto de ensino, projeto educativo, projeto político-pedagógico, proposta pedagógica, entre outras, apresentando também diferentes concepções sobre o tema. 33
Diante da multiplicidade de enfoques e de produções teóricas voltadas à temática, ressaltamos que nossa intenção nesse estudo não é realizar uma análise abrangendo as especificidades dessas expressões, mas sim apresentar uma breve revisão com as idéias de autores, que são referências relevantes para nossas indagações.
Neste estudo, optamos pelo termo projeto político-pedagógico por entender que todo o projeto apresenta, de forma explicita ou não, um compromisso político, dentro de um determinado contexto histórico e marco ideológico (Vasconcellos, 2005).
Sob essa mesma ótica é que vários autores (Pimenta, 1995; Veiga, 1995; Freire, 1996) apontam que o projeto educativo representa a articulação de concepções de mundo, de educação e de ensino definidas pela escola, visando realizar sua função social. Suas obras ressaltam a premissa de que todo projeto político-pedagógico também se configura como um projeto de sociedade, visto que inclui, necessariamente, a visão de ser humano que se pretende formar.
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Carrer (1999) aborda as diferenças entre os significados de algumas dessas nomenclaturas, a partir da proposta de Boutinet (1996).
Veiga (1995) considera o projeto como uma construção coletiva dos envolvidos com o processo educativo. Para a autora, os termos político e pedagógico têm uma significação indissociável, uma vez que
O projeto é uma ação intencional, com um sentido explícito, com um compromisso definido coletivamente. Por isso, todo projeto pedagógico é, também, um projeto político por estar intimamente articulado ao compromisso sóciopolítico com os interesses reais e coletivos da população majoritária. É político no sentido de compromisso com a formação do cidadão para um tipo de sociedade. (...) Pedagógico, no sentido, de definir ações educativas e as características necessárias às escolas de cumprirem seus propósitos e sua intencionalidade (Veiga, 1995:13).
Segundo a autora, o projeto político-pedagógico envolve a organização do trabalho pedagógico em dois níveis: como organização da escola como totalidade e como organização do trabalho do professor na dinâmica de sala de aula. O processo de construção do projeto implica em uma relativa autonomia da escola e envolve o interesse em criar uma identidade própria, na medida em que busca resgatar a escola como espaço de debate, de diálogo e de reflexão coletiva. Para tanto, também é necessário um referencial que fundamente a compreensão da prática educativa, que deve estar relacionada aos interesses da maioria da população. Por último, torna-se essencial o domínio das bases teórico- metodológicas necessárias à concretização dos princípios e objetivos assumidos coletivamente (Veiga, 1995).
Deste modo, esse documento contém como eixos principais reciprocamente determinantes uma intencionalidade política que se articula com a ação educativa em um projeto histórico, com fins e objetivos educativos definidos e assumidos pela comunidade escolar, bem como um paradigma epistêmico-conceitual, abrangendo uma teoria de conhecimento e de aprendizagem, que servem de base para as práticas pedagógicas (Santiago, 1995).
Aliada as essas ações, a construção do projeto político-pedagógico requer a reorganização das formas de gestão da escola, tendo em vista favorecer a ampla participação de todos os participantes da escola nas decisões administrativo- pedagógicas ali desenvolvidas. Contudo, a gestão democrática não é um princípio fácil de ser posto em prática, na medida em que envolve a participação crítica dos
seus atores num processo contínuo que se concretiza cotidianamente (Veiga, 1995; Gadotti e Romão, 1997).
Nas palavras de Carrer (1999:31)
É nesse sentido que dizemos que o projeto pedagógico da escola é mais processo que produto. Processo este que pressupõe a não separação entre o pensar e o fazer e implica uma relação dialética entre intenção e materialização, em que a realização das intenções provoca a reformulação dessas; que por sua vez, também exigirão mudanças na sua realização.
O projeto político-pedagógico é visto por Vasconcellos (2005), como uma sistematização não definitiva de um processo de planejamento participativo, que é aperfeiçoado continuamente e que define explicitamente a ação educativa que se pretende realizar. Assim, constitui-se como um instrumento teórico-metodológico
para intervenção e mudança da realidade. É um elemento de organização e integração da atividade prática da instituição neste processo de transformação
(Op. cit:169).
Esse autor apresenta uma forma de organização do projeto político- pedagógico 34 composta por três partes articuladas entre si, a saber: marco referencial, diagnóstico e programação. Em termos gerais, o marco referencial corresponde à dimensão finalidade (abrange um posicionamento político e pedagógico), o diagnóstico está relacionado à dimensão realidade (inclui a busca das necessidades a partir da análise da realidade e/ou do juízo sobre a realidade que se pretende alcançar), enquanto a programação está direcionada à dimensão
mediação (consiste na proposta de ação ou estratégias para atingir os objetivos
propostos). Vale ressaltar que todas as partes estão num processo dinâmico de interação.
Outras dimensões constitutivas da organização do trabalho na escola e que, portanto, fazem parte do projeto pedagógico são o currículo, a avaliação e a gestão escolar. 35
O referido autor também alguns passos no processo de construção do p.p.p. dentre os quais salientamos:
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Baseado na estrutura do Projeto Educativo da Equipe Latino-americana de Planejamento (ELAP), Chile.
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Foge aos objetivos do este estudo abordar tais aspectos, para maiores informações ver Pimenta (1995), Carrer (1999), Veiga (1995), entre outros.
a) o surgimento da necessidade de projeto - no qual discute que o projeto deve corresponder a um desejo dos integrantes da escola, apesar de sabermos que geralmente a decisão venha da direção que, por sua vez, é cobrada pelas determinações legais e/ou por instâncias superiores;
b) a decisão coletiva da comunidade escolar e local – logo após ser compreendida a importância do projeto para a unidade de ensino;
c) o projeto como um referencial para os sujeitos da comunidade – isto acontece quando há identificação dos participantes no momento da elaboração do p.p.p.;
d) a existência de conflitos e a possibilidade de resolvê-los por meio do enfrentamento e da argumentação discursiva.
Cabe ainda frisar que, para o autor, o trabalho educativo, que inclui a elaboração do p.p.p., é essencialmente uma dialética de continuidade-ruptura, um momento que pode propiciar a formação dos sujeitos por meio da exposição e do confronto de idéias, na avaliação de práticas e na explicitação de concepções, em um espaço de reflexão crítica e coletiva.
Além disso, a construção coletiva do projeto político-pedagógico, dentro de um contexto da gestão e participação democrática, exige, dentre vários aspectos, o envolvimento e a vontade política da comunidade escolar na direção dos ideais pedagógicos, visando romper com individualismos e estabelecer movimentos de parceria e diálogo; o conhecimento da realidade escolar a partir de um diagnóstico atualizado que contribua para a busca de soluções para os problemas encontrados; a formação continuada da equipe docente, técnica e funcionários da escola, assim como a clarificação constante das bases teóricas que fornecem subsídios à revisão e à dinamização da prática pedagógica nos diferentes níveis: metodologia, avaliação, currículo, entre outros (Bussmann,1995).
Frente ao exposto, como se dá a construção de um p.p.p. voltado à autonomia e à emancipação humana?
A partir dos princípios apresentados por Tonet (2005), primeiramente torna- se necessário a definição de um marco referencial (teórico-prático) que esteja em consonância com tais dimensões. A equipe da escola deve estar em sintonia na definição de eixos centrais que nortearão a prática na direção das metas propostas. É preciso, sobretudo, o envolvimento de cada participante por meio da
adoção de um compromisso individual e grupal com o que foi definido no processo de elaboração e ao longo das avaliações do p.p.p.
Assim sendo, o projeto passa a ser concretizado a partir da interação entre motivos individuais e coletivos, daí que surgem a mobilização, a participação e posteriormente, se realizam as ações planejadas.
O projeto político-pedagógico emancipador pode se concretizar quando, de fato, é apropriado pelo sujeito em seu projeto individual, ou melhor dizendo, quando há identificação do sujeito com a proposta da emancipação humana, adotada coletivamente, levando-se em consideração também as condições materiais de trabalho em que é desenvolvido.