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O projeto vencedor e a hegemonia financeira

III. R ESULTADOS E D ISCUSSÃO

4.1. O projeto vencedor e a hegemonia financeira

Ao analisar a situação de dependência econômica brasileira, a economia internacional, a partir da década de 1990 e que perdura até os dias de hoje, devemos necessariamente nos remeter ao arcabouço teórico trazido para o interior do governo já no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso.

O projeto político vencedor que conquistou dois mandatos (oito anos) trouxe consigo a tese do que se convencionou chamar de desenvolvimento dependente- associado19, e que orientou a política econômica dos seus mandatos. Essa tese se

estabeleceu na crítica, no contraponto e na negação das ideias do desenvolvimento conduzido pelo Estado e nas críticas à limitação das teorias do imperialismo. A conjuntura histórica daquele momento, o esgotamento do modelo de substituição de importações e a derrocada do socialismo, serviram como avalizadores para essa tese (Teixeira e Pinto, 2012).

Na visão do projeto vencedor, não há oposição entre dependência e desenvolvimento. Na busca pelo desenvolvimento, o Estado ineficiente e

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Neste conceito, trazido por Cardoso e Faleto 1975, apud Teixeira e Pinto, 2012, não há oposição entre dependência e desenvolvimento, sendo possível o desenvolvimento nos marcos do capitalismo, por meio da abertura econômica e do livre mercado, sem romper os laços de dependência com os Estados e as economias mais avançadas.

corporativo foi eleito como empecilho à abertura da economia e ao cerceamento à abertura do mercado à iniciativa privada e ao capital estrangeiro. Segundo Cardoso (2011):

Havia na Constituição, é certo, entraves que prendiam o desenvolvimento econômico a monopólios e ingerências estatais. Sucessivas emendas constitucionais foram aliviando essas amarras, sem enfraquecer a ação estatal, mas abrindo espaço à competição, à regulação e à diversificação do mundo empresarial. O segundo grande passo foi a modernização do país dado pela abertura da economia no início dos anos 1990... Por trás desse novo Brasil está o espírito de empresa. A aceitação do risco, da competitividade, do mérito, da avaliação de resultados (p. 48 e 50).

Segundo Teixeira e Pinto (2012), a concepção teórica de FHC, para a década de 1990, estava baseada na interpretação do que ocorrera nas décadas de 1960 e 1970, investimentos diretos em plantas fabris. No entanto, o mundo havia mudado e o interesse do capital internacional agora era a acumulação pela rentabilidade do capital aplicado no mercado financeiro, e não no capital produtivo. O estoque de ativos financeiros que, em 1980, representava 1,02 vezes a produção mundial, em 1996, passou a representar 2,28 vezes e, em 2010, já representava 3,74 vezes a produção mundial (Mendes, 2012). Enquanto no período de 1980 a 2006, o PIB mundial cresceu 314%, a riqueza financeira mundial, no mesmo período, cresceu 1.292% (Paulani, 2009).

Essa mudança da acumulação capitalista fortemente marcada a partir da década de 1980, foi assim descrita por Chesnais (2002):

A partir de meados dos anos 1980, o capital de aplicação financeira conquistou posições, o que lhe permitiu exercer um peso significativo sobre o nível e a orientação do investimento, bem como na configuração da distribuição da renda. Isso incentivou alguns pesquisadores a levarem adiante a hipótese segundo a qual o regime de acumulação potencialmente “sucessor” do regime “fordista” consistiria num regime organizado a partir de relações originadas menos na esfera produtiva do que na esfera financeira. Tratar-se-ia de um “regime de acumulação com dominância financeira” ou, ainda, de um “regime de acumulação financeirizado” (p. 2).

O que é novo no capitalismo é o protagonismo que o rentismo20 assumiu, e

o seu alojamento no seio da própria produção. A patologia congênita do capitalismo assentada na contradição entre capital e trabalho combina-se agora com as contradições que se originam da centralidade da finança: de um lado, a acumulação é lenta e, de outro, a finança é insaciável no nível de suas punções (Chesnais, 2005, apud Paulani, 2009).

Dessa forma a partir da incontestável hegemonia neoliberal nos últimos 30 anos, conforme discussões no capítulo 1, com a aplicação do seu receituário, observa-se uma acumulação financeira de grandes proporções, tendo a dívida pública um papel importante.

A dívida pública teve um papel fundamental nesse processo de acumulação. Embora a explosão do endividamento, após 1979, tenha subordinado os países periféricos a uma “ditadura dos rentistas”, impondo políticas nefastas, verdadeiras formas de expropriação de suas riquezas e de seus futuros (Vaz, 2009, p.119).

A inserção do Brasil na via da financeirização se deu no governo FHC de forma subordinada à economia mundial criando uma nova forma de relação de dependência. Nesse período os interesses internos e externos do sistema financeiro internacional se interconectaram e surgiu uma nova fração hegemônica no interior do bloco no poder21: o sistema bancário-financeiro. Esse setor passou a

liderar os interesses econômicos, políticos e ideológicos das demais frações e classes do bloco no poder. Essa hegemonia alcançou o conjunto da sociedade e se tornou orgânica (Polantzas, 1977, apud Teixeira e Pinto, 2012).

A política conduzida nos governos FHC, que teve como pilares básicos a desregulamentação bancária e financeira; a liberalização comercial, com ampla abertura da economia do País aos produtos e bens do exterior; a estabilização dos preços, a redução da participação do Estado na economia, controle fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante (Mattei e Magalhães, 2011) não produziram os

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Conceito empregado aqui para designar a obtenção de renda de aplicação do seu capital no mercado financeiro.

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efeitos desejados, o desenvolvimento e a estabilidade econômica, em função da vulnerabilidade externa, e trouxeram consigo a política de juros elevados, como forma de segurar o capital financeiro extremamente volátil, remunerando os rentistas com taxas espetaculares. O aumento acentuado da dívida púbica nesse período foi uma consequência imediata. O corte nos gastos públicos afetando os investimentos e principalmente as políticas sociais, e a ortodoxia da política fiscal foram medidas definidas e com metas claramente estabelecidas, acordadas e seguidas à risca.

Uma das principais consequências dessa política macroeconômica adotada durante todo governo FHC é que o Estado brasileiro passou a ficar refém do capital especulativo nacional e internacional, o qual se alimentava com as elevadas taxas de juros (as maiores do mundo) praticadas pelo país. Com isso, essa opção política acabou gerando as condições necessárias para que ocorresse uma hegemonia do capital financeiro sobre a economia brasileira (Mattei e Magalhães, 2011, p.137).

Estavam dadas as bases para o casamento na década de 1990 entre as ideias neoliberais e os anseios do setor bancário-financeiro, novo setor hegemônico na economia brasileira.

No governo Lula, a política econômica não sofreu alterações na sua base, tendo como tripé o controle da inflação, do câmbio e a utilização da política fiscal como central para dar credibilidade à política econômica, por meio do efeito- demonstração da falta de risco, produzindo expressivos superávits primários. O próprio presidente Lula, na época ainda presidente eleito, em discurso no Clube de Imprensa em Washington, fez questão de firmar as intenções da sua política:

...meu governo vai se pautar pela responsabilidade fiscal, pelo combate à inflação e pelo respeito aos contratos e acordos.... precisamos de uma atitude construtiva por parte da chamada comunidade financeira internacional... estejam certos de que todas as instituições e empresas responsáveis encontrarão no Brasil um ambiente seguro e estável para investir. Era tudo o que o sistema financeiro internacional queria ouvir! (Mattei e Magalhães, 2011, p.135).

Os aspectos semelhantes da política econômica no governo Lula em relação ao seu antecessor podem ser visto em Gambirasi, (2006):

Além de ter indicado o ministro Antonio Palocci Filho — visto pela maioria dos analistas como um adepto da continuação da política de fortes superávits primários — para a pasta da Fazenda e o ex-presidente mundial do Bank Boston, Henrique Meirelles, para a Presidência do Bacen, o novo governo tomou rapidamente cinco medidas cruciais para a superação da situação de emergência existente no começo de 2003, caracterizada pela vigência de inflação elevada, forte pressão do câmbio e risco país altíssimo:

- anunciou as metas de inflação revistas (IPCA) de 8,5% para 2003 e 5,5% para 2004, representando forte redução em relação aos 12,5% de 2002;

- aumentou para 26,5% a taxa de juros nominal Selic, para conseguir debelar a ameaça inflacionária;

- elevou de 3,75% para 4,25% do PIB a meta de superávit primário do setor público em 2003;

- comprometeu-se, na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) encaminhada ao Congresso em abril, a conservar a mesma meta de 4,25% do PIB de superávit primário durante todo o período de governo; e - submeteu à apreciação do Congresso duas Propostas de Emenda Constitucional (PEC) posteriormente aprovadas, referentes à previdência social e ao sistema tributário.

Essas reformas estruturais, expostas com maiores detalhes em documento oficial da Secretaria de Política Econômica [SPE (2003)], podem ser resumidas nos seguintes pontos:

- no caso da reforma previdenciária, aprovou-se a taxação dos inativos; adotou-se a idade mínima para a aposentadoria de 55 anos para as mulheres e 60 para os homens para todos os trabalhadores da administração pública na ativa — prevista na Emenda Constitucional de 1998 apenas para os novos entrantes; e aumentou-se o teto de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS);

- no caso da reforma tributária, renovou-se a Desvinculação de Recursos da União (DRU), permitindo ao governo certa margem de manobra para não ser tão limitado pelo peso das vinculações; prorrogou-se a

Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) de 0,38% sobre as transações financeiras até 2007; e, posteriormente, implementou-se a mudança na modalidade de cobrança da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) para substituir a taxação sobre o faturamento pela tributação do valor adicionado, o que na prática veio a se revelar um poderoso instrumento de aumento da arrecadação a partir da vigência da mesma, em 2004 (p.3).

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso avaliando a política econômica adotada no governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva assinala:

No Brasil tivemos muita sorte porque o Lula, que poderia ter encarnado algo a la Chávez, não foi por esse caminho. Ou melhor, a sociedade impediu ou dificultou que ele fosse por esse caminho. Não foi possível, mas o risco continua a existir (Cardoso, 2011, p.140).

Apesar da melhora no desempenho econômico, crescimento, redução de desemprego, aumento no consumo das famílias, transferência de renda, e aumento do salário mínimo, a presença (in) visível do fantasma da crise econômica permitiu à fração bancário-financeira do bloco no poder sua manutenção e consolidação enquanto setor hegemônico no governo Lula (Teixeira e Pinto, 2012).

O desempenho da economia brasileira e internacional entre 1995 e 2007 definiu uma mudança na participação relativa de alguns setores de atividade econômica nos lucros totais por setor. O setor exportador de commodities depois de enfrentar problemas na década de 1990 se recupera na década de 2000 e suplanta o setor bancário-financeiro. Nessa conjuntura assume o governo a presidente Dilma Roussef, que apesar de manter a política econômica dos governos FHC e Lula, chega ao governo com certo vácuo de hegemonia de bloco no poder. É nesse quadro, segundo Teixeira e Pinto (2012), que o Brasil tem a possibilidade de avançar.

4.2. A centralidade da política fiscal na economia brasileira a partir do