2.3 A CONSTRUÇÃO LEGAL DO TERMO ―REFUGIADO‖
2.3.3 O Protocolo de 1967 Relativo ao Estatuto dos Refugiados
entrou em vigor, algumas mudanças formais foram perpetradas a fim de readaptar o Sistema às situações factuais. Estas modificações ficaram a cabo do Protocolo adotado pelas Nações Unidas em 1967, o qual alterou alguns preceitos contidos na Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951.
Em seu preâmbulo, o Protocolo reconhece que, após 15 anos de vigência da Convenção a situação mundial referente ao refúgio havia se modificado, e que diferentes fatores históricos, políticos, sociais, desencadeadores da mobilidade forçada estavam se colocando com mais evidência no plano internacional, a ponto de provocar o surgimento de novas categorias de refugiados. Esta constatação se extrai da seguinte passagem:
[...] Considerando que a Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados (...) só se aplica às pessoas que se tornaram refugiados em decorrência dos acontecimentos ocorridos antes de 1º de janeiro de 1951.
Considerando que, desde que a Convenção foi adotada, surgiram novas categorias de refugiados e que os refugiados em causa podem não cair no âmbito da Convenção.91
(grifo nosso)
O Protocolo, então, é reconhecidamente um instrumento legal independente92, que incorporou o corpo normativo da referida91
ACNUR. Protocolo de 1967 Relativo ao Estatuto dos Refugiados. Disponível em: http://www. acnur.org/t3/portugues/recursos/documentos>. Acesso em: 29 de novembro de 2011.
92
Um novo instrumento, o protocolo de 1967 Relativo ao Estatuto dos Refugiados, foi estabelecido, o qual não altera a Convenção de 1951, modifica-a apenas no sentido de que os Estados aderentes ao Protocolo aceitam as obrigações materiais da Convenção em respeito a um grupo mais amplo de pessoas. Entre os Estados-parte da Convenção, este constitui um acordo inter si, pelo qual se comprometem a cumprir obrigações ratione materiae idênticas às previstas na Convenção para grupos adicionais de refugiados, não abrangidos pela Convenção a contar da data limite de primeiro de janeiro de 1951. WEIS, P. The 1967 Protocol Relating to the Status of
Convenção, e permitiu que não só os Estados-parte desta como outros Estados pudessem aderi-la.93 Tal tratado estendeu a proteção jurídica à totalidade de refugiados ao retirar, prospectivamente, a reserva geográfica e temporal a que os Estados signatários estavam compelidos.94 Assim, o Protocolo conseguiu alcançar a universalização formal da definição de refugiado prevista na Convenção, porém não avançou, em igual sentido, com relação ao seu conteúdo substantivo, mesmo reconhecendo o aparecimento de ―novas categorias de refugiados‖. Desta forma, permanece o critério que preza por uma violação de direitos civis ou políticos, por parte do Estado.
A consequência desta falta de revisão material do instrumento normativo internacional, no que concerne à determinação de um refugiado, é a permanência de uma avaliação restritiva no que tange às motivações presentes na reiterada definição. Neste sentido, Hathaway coloca que:
Mesmo após a eliminação da limitação temporal e geográfica, apenas as pessoas cuja migração seja motivada por um temor de perseguição na ordem civil ou política, entram no âmbito do sistema de proteção baseado na Convenção. Isto significa que a maioria dos refugiados pertencentes ao Terceiro Mundo continua de facto excluída, pois a sua fuga é mais frequentemente motivada por desastres naturais, guerras, ou por bases políticas do que por ―perseguição‖, de como o termo é entendido no contexto ocidental.95
Refugees and Some Questions Relating to the Law of Treaties. British
Yearbook of International Law, n. 39. p. 59.
93
Até 31 de dezembro de 1999, 134 Estados haviam aderido ao Protocolo de 1967. Naquela época, os únicos estados que tinham aderido à Convenção de 1951, mas não ao Protocolo de 1967 foram Madagascar, Mônaco, Namíbia e São Vicente e Granadinas. Os únicos estados que tinham aderido ao Protocolo de 1967, mas não da Convenção de 1951 foram Cabo Verde, Suazilândia, Estados Unidos e Venezuela. UNHCR. The state of the
world's refugees, 2000: fifty years of humanitarian action. Disponível em:
http://www.unhcr.org>. Acesso em: 29 de novembro de 2011. 94
HATHAWAY, James C. The Rights of Refugees under International Law. Cambridge: Cambridge Press, 2005. p.111.
95
Do original: Even after the elimination of temporal and geographic limitations, only persons whose migration is prompted by a fear of persecution on the ground of civil or political status come within the scope of Convention-
Clarifica-se o fato de que os fenômenos alheios à condição persecutória, e que criam tantos refugiados quanto os motivos tradicionalmente aceitos, acabam por excluir os indivíduos deslocados forçadamente, do regime de direitos internacionalmente consagrados. Mesmo o Protocolo se atentando para o fato da grande mobilidade conceitual que o tema do refúgio acarreta, não previu nem inseriu as diversas condições que poderiam definir o status de um refugiado.
A importância do Protocolo na seara jurídica internacional recai no fato do reconhecimento, ainda que não totalmente amplo, de uma característica inerente ao status de refugiado: a sua definição transitória. Novos refugiados surgem em novos contextos, diferentes situações adversas podem acarretar em novas motivações para que haja um deslocamento humano forçado. Desta forma, a caracterização do refugiado não deve basear-se em parâmetros fixos, que não permitam a inserção de indivíduos que necessitam de proteção, mas não a recebem, pois não são reconhecidos pelos moldes tradicionais.
Alguns esforços começaram a ser feitos, no âmbito regional, no sentido de estender a definição de refugiado, para que houvesse uma ampliação com relação à sua assistência, pois mesmo com o advento do Protocolo, nem todos os indivíduos em situação de refúgio conseguiam ser contemplados. Para isso, levaram-se em conta motivações diversas daquelas tidas até então dentro do sistema normativo vigente. Merece destaque, neste contexto, o regime regional de direito dos refugiados, que produziu relevantes convenções, as quais serão analisadas na sequência.
2.3.4 A Convenção dos Refugiados da Organização da Unidade