3 CONTEXTUALIZANDO O SERVIÇO DE TRANSPLANTE HEPÁTICO
3.1 O PROTOCOLO DO TRANSPLANTE HEPÁTICO DO HC – UFPR
No que diz respeito ao Serviço de Transplante Hepático, ele atende todos os pacientes candidatos a transplante de fígado, do momento em que recebem a indicação da cirurgia e ingressam na lista de espera do órgão, acompanhando-os no período em que se internam para fazer o transplante, passando pelo período na UTI e posteriormente, na enfermaria, até o pós-operatório avançado, em ambulatório ou na enfermaria.
O atendimento psicológico pré-transplante para o receptor e para o doador vivo é, entre vários outros, um “exame” obrigatório ao qual o candidato deverá
submeter-se, cumprindo um protocolo de avaliações sem as quais não se encontra
“pronto” para a realização da cirurgia.
3.1.1 Protocolo do Receptor de Transplante Hepático
É de fundamental importância deixar claro para o paciente que sua inscrição no programa de transplante de fígado, o obriga a passar por uma série extensa de averiguação e análise sistemática a respeito de suas possibilidades para se submeter ao procedimento cirúrgico. Constam no protocolo do HC-UFPR as seguintes avaliações:
• Exames complementares laboratoriais e de imagem
• Avaliação cardiológica
• Avaliação pneumológica
• Avaliação em anestesiologia
• Avaliação pelo banco de sangue
• Avaliação psicológica
• Avaliação com a assistente social
• Avaliação ginecológica para as mulheres
• Avaliação odontológica
• Avaliação nutricional
Além de outros exames ou avaliações que se fizerem necessários, tais como psiquiátrico e neurológico.
3.1.2 Protocolo do Doador de Transplante Hepático Intervivos
Para se candidatar a doador de fígado, o candidato necessariamente deverá ser saudável, ter idade entre 18 e 50 anos, ter compatibilidade em relação ao grupo sanguíneo ABO6 com o receptor, e deve sempre ser um ato espontâneo.
Atendendo estes pré-requisitos, é realizada a primeira avaliação clínica. Se o receptor e doador não apresentarem alguma condição clínica que impeça o transplante intervivos, dá-se a continuidade do processo. É solicitado o exame de compatibilidade e, em seguida, a avaliação psicológica.
O médico orienta o doador sobre o local e o horário da realização dos exames e agenda a data do próximo retorno para nova avaliação com a equipe.
Se os exames de triagem inicial forem compatíveis e a avaliação da psicologia for favorável, na segunda avaliação clínica com hepatologista, dar-se-á continuidade ao processo de transplante hepático intervivos. Ao doador são solicitados outras entrevistas de avaliação, exames laboratoriais e de imagem:
• Entrevista com a assistente social
• Entrevista com a nutricionista
• Exames complementares laboratoriais e de imagem
O próximo retorno é agendado quando todos os exames solicitados estiverem prontos. Se todos os exames estiverem normais, o caso clínico é preparado, discutido em reunião clínica-cirúrgica às quartas feiras, na qual participa toda a equipe e é agendada a data do transplante.
6 Sistema ABO, classifica os seres humanos em três grupos sanguíneos: A, B e O:
• Indivíduos do grupo O podem receber do grupo O, mas podem doar para todos os grupos.
• Indivíduos do grupo A podem receber dos grupos O e A, e doar para os grupos A e AB.
• Indivíduos do grupo B podem receber dos grupos O e B, e doar para os grupos B e AB.
• Indivíduos do grupo AB podem receber de qualquer grupo, mas doam apenas para o grupo AB.
Da combinação entre o Sistema ABO podemos encontrar os chamados doadores universais (O negativo) e receptores universais (AB positivo).
Os candidatos, receptor e doador, são avisados com antecedência sobre a data da cirurgia. Se necessário, ambos passam por novas entrevistas com os profissionais da equipe multidisciplinar.
A internação é feita na véspera da cirurgia, em leito da enfermaria da unidade do Serviço de Transplante Hepático, onde receptor e doador recebem alguns preparos pré-transplante. Neste dia, é entregue o termo de consentimento institucional para o doador e para o receptor, pelos cirurgiões.
Após o transplante, doador e receptor, vão para UTI e, de lá, para a enfermaria até a alta hospitalar.
Como se pode observar, a passagem pela avaliação da equipe multidisciplinar torna-se passo essencial para a conclusão do processo de inclusão na lista de transplante, e do processo para tornar-se um doador de parte do fígado.
Entretanto, é preciso ressaltar que é um processo de avaliação sim, mas que na medida que dá atenção à singular subjetividade de cada um, diferencia-se substancialmente de avaliações médicas, visto que nesta prática não se propõe, maneira alguma, a avaliar para aprovar ou reprovar, para indicar ou contra-indicar.
Sustenta-se a lógica de que quem decide se vai ou não para a cirurgia é o próprio sujeito em questão, e na escuta é levando em conta sua relação com a doença, com a cirurgia, com a equipe, com o mundo e com seu próprio desejo de fazer ou não o transplante.
De maneira geral, uma avaliação se constitui por uma entrevista individual, com o objetivo maior de conhecer o potencial de cada pessoa; ou seja, analisar, compreender e esclarecer a dinâmica dos processos subjetivos representativos do indivíduo naquele momento. Podemos dizer que o parecer oriundo deste procedimento é estático, no sentido de que representa a posição subjetiva do paciente naquele momento. Entretanto, o entendimento é que uma decisão tão importante como a realização de um transplante de órgãos não tem uma causa estática. Trata-se de um processo e, de acordo com Elias (1998, p. 35) “processos só podem ser explicados em termos de processos. Não há inícios absolutos”. Por
isso o interesse de entender a trajetória de construção da decisão de se tornar um doador.
O fato é que hoje, no exercício como profissional de saúde, depara-se com questões absolutamente impensáveis décadas atrás. Pessoas procuram os profissionais porque querem doar parte de seu corpo para salvar a vida de outro ser humano. Situações que colocam diante do imperativo de criar, teorizar a partir dessa nova realidade que se apresenta.