2. MANUAIS SEXUAIS: HISTORICIDADE E PLURALIDADE CULTURAL
2.2 A TRADIÇÃO CRISTÃ - EUROPEIA E OS PRIMEIROS MANUAIS SEXUAIS
2.2.2 O quadro do amor conjugal de Nicolas Venette
Nicolas Venette (1633-1698) era um catedrático na Faculdade de Medicina de La Rochelle149 quando publicou, inicialmente sob o pseudônimo de Salocini Vénitien, seu Tableau de l’amour considéré dans l’estat du mariage. Sua obra teve um sucesso duradouro. Como visto anteriormente, continuou sendo publicada até o século XX, mas encontrou seu principal sucesso, bem como um maior número de reimpressões, nos séculos XVIII e XIX150.
Trata-se de uma obra bastante didática na exposição dos temas. Originalmente dividia o conteúdo em quatro partes em texto relativamente longo, impresso em dois volumes151. A estrutura que criou para a apresentação dos temas foi repetida à exaustão pelos manuais sexuais posteriores até ao menos meados do século XX.
A parte I apresenta os detalhes dos corpos masculino e feminino, discutindo as diferenças exteriores e interiores, bem como as funções dos órgãos. Ela incentiva os casais a se examinarem mutuamente, tanto para se conhecerem, quanto para descobrirem se estão aptos às relações sexuais prazerosas e à procriação. Conclui discutindo algumas doenças específicas dos órgãos sexuais. A parte II tem mais a característica de “manual”, como pensado nesta tese. Após começar com um elogio à virgindade, acompanhado de um guia para que o leitor pudesse identificá-la, procura
148 PSEUDO-ARISTÓTELES. p. 23.
149 FLOURET, J. Nicolas Venette, médecin rochelais 1633–1698: etude biographique et bibliographique, La Rochelle: Éditions Rupella, 1992. p. 21
150 PORTER, R. Spreading Carnal Knowledge or Selling Dirt Cheap? Nicolas Venette’s Tableau de l’Amour Conjugal in Eighteenth-Century England. Journal of European Studies, Reino Unido, 1984, v.
14, pp. 233-55.
151 A versão da editora carioca Garnier, que ainda estava no mercado brasileiro no início do século XX, era impressa em apenas um volume. A partir do século XVIII, era comum que versões abreviadas da obra fossem publicadas. Isso será visto um pouco mais adiante.
discutir o ato sexual dentro do casamento, em sua opinião instituição essencial para a felicidade, ainda que fosse muito criticada. A parte III, após discutir os benefícios e os problemas existentes no prazer matrimonial, apresenta detalhes sobre a concepção e a gravidez. A parte IV apresenta os problemas relacionados ao ato sexual e ao casamento.
Discute o tão presente temor da impotência masculina e os motivos que levam à esterilidade feminina, razões comuns que levam ao divórcio152. Venette conclui sua obra discutindo os casos dos hermafroditas e dos eunucos.
Do ponto de vista da história da medicina, o pensamento de Venette representa um momento de mudanças. Por um lado ainda apresenta crenças sobre as descrições materiais do funcionamento do organismo. Por exemplo, recomenda aqueles que desejam ter um menino que se exponham a certo vento sob a lua cheia153. Por outro, esforça-se para manter suas análises apenas nos fatos concretos conhecidos então pela medicina, inclusive desautorizando crenças populares no que se refere à esterilidade feminina ou impotência masculina. Obviamente, o que denominamos hoje de
“superstições” eram, muitas vezes, inclusive para cientistas da época, fatos concretos e observáveis, parte da estrutura fundamental da própria realidade154.
O que é interessante em relação a essa obra é como ela conseguiu, a partir dessa perspectiva temporalmente localizada, construir um conteúdo tão duradouro na Europa moderna. A resposta a esta questão é complexa e oscila entre a oportunidade, a transgressão e a acomodação social do pensamento de Venette.
Em relação à oportunidade, pode-se afirmar que a obra encontrou amplo sucesso desde sua primeira publicação devido às condições culturais da França – e, a julgar pelas traduções, também em outros locais da Europa. Havia, como diagnosticava o próprio Venette, uma completa ignorância a respeito dos assuntos ligados ao sexo, resultado tanto do aumento das interdições ao tema, o que impedia sua discussão, quanto da escassez de fontes pedagógicas, como livros. No século XVII na França, obras literárias libertinas e obscenas eram muitas vezes utilizadas pelos casais como
152 Em divórcios litigiosos, os tribunais franceses poderiam exigir uma demonstração pública da virilidade do marido. Venette considerava essa prática sem valor, e uma interpretação inadequada dos conhecimentos médicos.
153 VENETTE, N. Tableau de l’amour considéré dans l’estat du mariage. v. 2. Paris: s/e, 1795, p. 168.
154 CRUSH, J. The role of the eunuch and the hermaphrodite in Nicolas Venette’s Tableau de l’amour considéré dans l’estat du mariage. Journal of European Studies, Reino Unido, 2004, v. 34(3), p. 210.
fonte de informações sobre o ato sexual155. Sua iniciativa criou, na França do período, um estímulo aos médicos que viam como uma de suas responsabilidades também a de educar as pessoas, inclusive sobre o sexo.
Por sua vez, o caráter transgressor do livro residia na discussão aberta sobre o sexo, particularmente na França do século XVII, em que a censura contra livros considerados imorais era muito atuante. Transgressão, porém, algo enfraquecida tanto pela forma quanto pelas abordagens características do texto. Em relação à forma, estabeleceu debates com outros campos do conhecimento de sua época, sobressaindo a visão médica sobre o corpo. Assim, os valores que extrai do ato sexual estavam amparados pela natureza, como propriamente se acreditava na época. A abordagem, da mesma forma, concordava com a estrutura social considerada adequada na época de Luís XIV: o ato sexual deveria ser confinado ao casamento e voltado especificamente à procriação, pelo menos do ponto de vista da norma e da moral.
Porém – e esta é outra transgressão – tal ênfase no sexo procriativo não implicava que o prazer devesse ser excluído das relações conjugais. “Se por um lado, a vergonha está associada a este conhecimento, para recuperar o pensamento de Santo Agostinho”, afirmou Venette, “por outro, a natureza não faz nada que não seja bem feito”156. O argumento parte, aqui, da natureza, conceito fundamental também para o pensamento médico enquanto fonte de verdade e correção. Embora se afaste do pensamento religioso que via negativamente o prazer sexual, o autor dele não se afasta totalmente, afinal Deus também criara a natureza. Tal retórica seguirá em textos de popularização sexual ao menos até o final do século XIX. Ao mesmo tempo, procura garantir aos casais as benesses de um relacionamento sadio com seus corpos em busca da procriação.
A história editorial do livro foi variável para cada país no qual foi comercializado. Na Inglaterra, onde o livro de Venette fez bastante sucesso a partir do século XVIII, era comum que fossem impressas e comercializadas apenas as partes I e II da obra, reforçando o aspecto de “manual sexual” do livro. É provável que os editores excluíssem estas últimas partes por serem as mais desinteressantes para os leitores que preferiam os trechos mais excitantes relacionados aos atos sexuais. Além disso, existia,
155DUPRAS, A. The contribution of Doctor Nicolas Venette to 17th century sexuality education.
Sexologies, Estados Unidos, n. 16, 2007. p. 173.
156 VENETTE, N. v. 1. op. cit. p. 44.
tanto no mercado inglês, quanto no francês, uma grande quantidade de obras que explicavam o processo de gestação e os detalhes do parto157. Sem mencionar que, impresso desta forma, o livro teria cerca de 200 páginas, tornando-o mais acessível aos leitores.
Compreender a longa permanência de Venette nas livrarias, (comparável apenas ao que ocorreu com A obra-prima de Aristóteles), requer, portanto, considerar duas estratégias diferentes adotadas pelas casas impressoras. Por um lado, a edição francesa e suas traduções, como a portuguesa ou a holandesa, fiéis ao original, mesmo em tardias reedições no século XIX e XX. A versão holandesa foi editada pela última vez em 1797, reflexo do pouco interesse em relação à obra158. A versão alemã, bastante popular, continuou sendo editada até o século XIX. Segundo Porter, a última edição inglesa de Venette, datada das últimas décadas do século XVIII e bastante modificada, ainda que não fosse “repressiva”, era “testemunha silenciosa de certa reorientação do centro nervoso da performance sexual [...] [e] possuía um tom muito mais moralista, mais sincero e didático, mais espiritual e elevado”159. A versão em português, como já foi afirmado, era ainda bastante popular na segunda metade do século XIX e a última edição brasileira parece ter se encerrado em 1913. Versões em francês, italiano e espanhol foram editadas até meados do século XX160.
D E
Tanto O quadro do amor conjugal quanto A obra-prima de Aristóteles atravessaram, de forma mais ou menos incólume dependendo do local que se considere, um período que, segundo Thomas Laqueur, teria sido decisivo em relação à história do corpo na Europa. Em seu livro Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud161, Laqueur afirma que, “aproximadamente ao final do século XVIII”162 ocorreu uma significativa mudança na forma como o corpo, e especialmente o sexo, são constituídos.
157 Além disso, com a continuidade das reedições, seus conhecimentos sobre a concepção e o parto acabavam ficando ultrapassados PORTER, R. op. cit. p. 240-1.
158 ROODENBURG, H. Venus minisieke Gasthius: sexual beliefs in eighteenth-century Holland. In BREMMER, J. (ed.) From Sappho to De Sade (Routledge Revivals): Moments in the History of Sexuality. Estados Unidos: Routledge, 1984. p. 85.
159 PORTER, R. op. cit. p. 244.
160 ROODENBURG, H. op. cit. p. 85.
161 LAQUEUR, T. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001. Nesta tese, eu utilizei a versão em inglês, lançada originalmente em 1990.
162 LAQUEUR, T. Making... p. 5.
Até aquele momento, fundado em concepções originadas ainda na Antiguidade sobre a formação e o funcionamento dos corpos e sustentada pela teoria dos humores, haveria uma diferença de grau entre homens e mulheres. Seus corpos não eram considerados radicalmente diferentes, mas variações de um único corpo humano. Trata-se do modelo do “Trata-sexo único”, do isoformismo de gênero, de acordo com Laqueur.
A partir do século XVIII, essa diferenciação teria deixado de ser gradual, passando a ser essencial. Colocados em dois polos opostos, a biologia teria criado uma diferenciação irreconciliável entre o homem e a mulher, o macho e a fêmea. A ideia do
“sexo oposto”, formado a partir de irredutíveis diferenças biológicas, teria, assim, surgido nas páginas dos tratados de anatomia modernos. A natureza, que costumeiramente foi invocada para ser a juíza da verdade, passou a ser a fonte biológica das diferenças precisas, exatas e indeléveis reconhecidas pela ciência a partir dos novos métodos de observação e de comparação. Neste novo paradigma da diferença sexual, o útero era o órgão definidor da feminilidade, caracterizada então a partir da diferença em relação ao corpo masculino, e a partir do qual poderiam ser derivadas as características sociais próprias do “ambiente feminino”: a domesticidade e, claro, a maternidade.
Por sua vez, dentro da anatomia e fisiologia clássicas, herdadas da Antiguidade, os genitais masculinos e femininos eram considerados reflexos um do outro, com a diferença de serem externos os do homem e internos os da mulher. A ideia de complementaridade presente na inversão reforçava a ideia de semelhança tanto de forma quanto de função.
A seção II do capítulo I de A obra-prima termina com os seguintes versos:
Assim, os segredos da mulher eu tenho pesquisado E deixo-os ver o quão curiosos são feitos.
E isso, embora sejam de diferentes sexos,
No entanto, no conjunto, são os mesmos que os nossos.
Para todos que fizeram pesquisas rigorosas,
Descobrem que as mulheres são homens viradas para dentro:
E que os homens, apenas lançando os olhos, Podem achar que são mulheres viradas ao avesso163.
Poucos textos são tão explícitos, quanto esse, em relação à confirmação das opiniões de Laqueur. Afinal, o autor da Obra-prima não apenas afirmou que as mulheres apresentam os mesmos órgãos sexuais que os homens, como deixou claro que
163 PSEUDO-ARISTÓTELES, op. cit. p. 21.
mulheres e homens eram reflexos uns dos outros. Elas seriam “homens viradas para dentro”, enquanto eles, “mulheres viradas ao avesso”164.