CAPÍTULO III – SOLIDARIEDADE SOCIAL
1. O que é solidariedade?
No presente capítulo, pretendemos apresentar breves noções sobre o conceito de solidariedade, principais contribuições da sociologia e da Igreja, seu papel no Estado contemporâneo, para, enfim, analisá-lo dentro do Direito.
Cremos que tal análise mostre-se necessária, já que o termo solidariedade não tem origem no Direito, sendo a ele incorporado, na oportunidade da sua reaproximação com a ética, assim como reação ao extremo individualismo e egoísmo do capitalismo liberal, no século XIX. Vejamos:
1.1 Acepção do termo
De origem latina o termo solidariedade tem como origem a ideia de algo sólido,204 quer dizer, íntegro, maciço, compacto.205
Como consequência da ideia de solidez, a solidariedade pressupõe, inexoravelmente, uma relação de dois ou mais objetos ou sujeitos integrados.
No Direito liga-se ao sentido de concorrência e mutualidade, sendo seu sentido inicial, concebido pelo Direito civil, em relação a devedores ou credores solidários. Sua concepção moderna teve influência da doutrina social da Igreja Católica e o campo de investigação científico do tema pertence à sociologia.
204
NABAIS, José Casalta. Solidariedade, cidadania e direito fiscal. In: GRECO, Marco Aurélio; GODOI, Marciano Seabra de. Solidariedade social e tributação. São Paulo: Dialética, 2005. p. 111.
205
BUENO, Francisco da Silveira. Mini-dicionário da língua portuguesa. 6ª ed. São Paulo: Lisa, 1992. p. 631.
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1.2 Solidariedade social na doutrina da Igreja Católica
Em sua concepção moderna, o conceito de solidariedade tem origem na doutrina da Igreja Católica.206
De acordo com a Igreja, o conceito de solidariedade destacou-se no chamado Catolicismo Social, compreendido como uma reação do Clero em relação às imensas injustiças e desigualdades sociais, do Estado liberal burguês, no século XIX.207
O contexto do século XIX foi decisivo para a intervenção do Clero; a sociedade encontrava-se divida entre dois polos extremos: o liberalismo e o socialismo.208
Como consequência dessa dicotomia econômico-social, a população em geral posicionou-se também de forma bipolar; tais como ricos e pobres, capitalistas e trabalhadores e patrões e operários.209
Naquela conjuntura, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum. O instrumento representou a maior participação da Igreja na ordem social.
A encíclica atribuía ao Estado a tarefa de melhorar a situação dos operários, condenava a riqueza na mão de poucas pessoas em contraposição à extrema miséria de milhões de outras, denunciava a ganância e a exploração humana para a obtenção de lucro.
Vale frisar, essa foi uma reação ao liberalismo burguês que, até hoje, causa sentimento de extrema rejeição à ideia de solidariedade nos países de cultura liberal, como os Estados Unidos da América, que a associam ao socialismo.
Como falaremos posteriormente, no Brasil, temos um modelo de Estado híbrido, que ainda conta com heranças liberais, de modo que ainda é possível ver fortes resistências à questão da solidariedade, inclusive dentro da própria ordem.210
206
SACCHETO, Cláudio. O dever da solidariedade no direito tributário. In: GRECO, Marco Aurélio; GODOI, Marciano Seabra de. Solidariedade social e tributação. São Paulo: Dialética, 2005. p. 16.
207
PONTES, Alan Oliveira. O princípio da solidariedade social na interpretação do direito da
seguridade social. São Paulo (Dissertação de Mestrado) – Universidade de São Paulo, 2006. p. 82.
208
Idem, ibidem, p. 82.
209
77 Pois bem. O catolicismo social deu origem ao termo justiça social, tão utilizado nos dias atuais. Como ponto central de embasamento dessa visão encontra-se a caridade. Inicia-se, dessa forma, a análise da solidariedade no seu aspecto social, ou seja, como ela atualmente se posiciona diante da sociedade.211
Para a dogmática católica, a caridade é o amor infinito que Deus tem para com os homens, que não leva em conta qualquer tipo de retribuição e que jamais pode desvincular- se da ideia de justiça.212
Vemos, pois, duas características marcantes nessa dogmática: a intervenção do Clero com finalidade da promoção da justiça social e o sentimento de amor e respeito ao próximo (que no Direito deve ser promovida sob forma imperativa; veremos).
1.3 Solidariedade social na sociologia
A Igreja prestou importante colaboração ao fundamentar a solidariedade por meio de seus dogmas.
Contudo, o campo científico em que se enquadra a solidariedade é na sociologia, que tem por objeto a análise do homem em sociedade; não sob seu aspecto individual, porém em termos coletivos.
Trata a sociologia, pois, de ver como os indivíduos interagem em conjunto, ao delimitar a ideia de união inerente ao conceito de solidariedade. O Clero trata da necessidade da solidariedade embasando-se em valores cristãos. A sociologia, por outro lado, analisa e fundamenta o fenômeno com base em investigações científicas no campo social.
210
Conforme também falaremos, essa resistência a que nos referimos fica ainda mais nítida no campo tributário, onde a ação de tributar quem tem mais renda é vista como uma penalidade e não como cooperação social para o desenvolvimento.
211
PONTES, Alan Oliveira. O princípio da solidariedade social na interpretação do direito da
seguridade social. São Paulo (Dissertação de Mestrado) – Universidade de São Paulo, 2006. p. 82.
212
78 A principal contribuição no campo social sobre o conceito foi de Emile Durkhein, que entendia ser a divisão do trabalho o fator que proporcionava o sentimento de solidariedade.213
Nesse sentido, lembra o sociólogo que o trabalho transcende aos interesses econômicos, vez que é a fonte de solidariedade entre os indivíduos.214
A solidariedade social, para o autor, divide-se em dois grupos: mecânica ou orgânica. A primeira decorre da semelhança entre os indivíduos e a consciência coletiva prevalece em relação à individual.215
À semelhança de organismo humano, onde cada órgão desenvolve uma atividade específica, com dependência mútua em relação aos demais órgãos, Durkhein classifica a solidariedade orgânica, baseada nas diferenças humanas como critério de dependência de um para com outros, na divisão do trabalho. Quanto mais distintas forem as funções laborais, mais elas serão indispensáveis, mutuamente.216
Observada de forma breve a contribuição sociológica, partamos, assim, ao princípio da solidariedade em sua concepção atual, concebido, notadamente a partir da crise do Estado liberal do século XIX.217