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2.3 A Tecnologia como Problema Filosófico

2.3.1 O que é a tecnologia?

A tecnologia integrou-se definitivamente na vida do ser humano e representa o estágio atual no qual nos encontramos dentro do processo histórico da técnica. Experimentamo-la nas ações mais básicas que fazem parte do cotidiano. E não raro até de forma automática, sem identificá-la como tal. Se filosofar sobre um assunto começa pela indagação acerca do que isso é. Então, a pergunta inicial consiste em indagar: que é a tecnologia? (CUPANI, 2016). Esta se configura como a pergunta mais escassa (e talvez a mais necessária neste momento) ante outras comumente recorrentes: para que serve? Como funciona? Quais as vantagens? Ou seja, o princípio utilitário está no cerne da relação ser humano-máquina como condição determinante para qualificar se aquela tecnologia é útil ou inútil. Isso está diretamente ligado à origem do termo tecnologia.

A etimologia da palavra tecnologia vem do vocábulo latino techné, que significa habilidade, arte ou ofício, acrescida do sufixo logia, que remonta à ideia de conhecimento23.

da história da filosofia. Apresenta diferentes orientações teóricas e suas correspondentes atitudes sociais, evidenciando assim um quadro teórico-conceitual bastante heterogêneo.

23 Os estudiosos costumam fixar distinções entre técnica, techné e tecnologia. A técnica é tão antiga quanto o ser

humano, compreendida como a fabricação de instrumentos baseada no conhecimento empírico do mundo.

Corresponde a um aspecto do surgimento da cultura humana. A pedra lascada é um exemplo de técnica, um saber fazer. Já a techné aparece depois, na Grécia Antiga junto com a filosofia. Diferente da técnica antiga, ela é constituída por um conjunto de conhecimentos e habilidades profissionais – um saber específico – que eram

Assim, por derivação, a tecnologia é uma atividade voltada para a prática (GRINSPUN, 2009).

Na mesma direção, Vargas (1994, p. 29), afirma que a tecnologia “é um saber fazer baseado em teoria e experimentação científica”24. Nesse sentido originário, podemos dizer que a tecnologia é um produto da ciência que tem como objetivo último a satisfação das necessidades práticas dentro de um determinado contexto social por ela afetado. Os resultados práticos representam a finalidade para a qual uma tecnologia existe. De acordo com Cupani (2016, p.

13-14),

A capacidade de fazer significa a capacidade de produzir à diferença da capacidade de agir25, isto é, de conduzir a própria vida [...]. Ao fazer, o homem origina os artefatos, vale dizer, os objetos ou processos artificiais. Ambas as palavras: artefato e artificiais denotam o que foi produzido conforme uma “arte”, um saber-fazer que implica regras de procedimento.

Mas para além da capacidade de produzir, a tecnologia tende a reconfigurar as estruturas fixadas da sociedade como uma espécie de efeito instantâneo. Sempre que ela se aperfeiçoa, o resultado é a modificação da realidade social para a qual se destina.

Historicamente a tecnologia está relacionada à evolução e mudanças dos fatos e situações concretos. Ela interfere nesta realidade criando procedimentos e instrumentos para sua ação ocorrer além das próprias mudanças sociais (GRINSPUN, 2009). Essa interferência intensifica-se à medida que o intensifica-ser humano nela deposita esperança de um futuro melhor que o preintensifica-sente. E ele assim o faz, na expectativa de que a tecnologia trará mudanças que lhe favorecerão, assim se estenderá às próximas gerações.

A tecnologia segue rigorosamente os princípios, as leis e as teorias definidas pela ciência moderna, ou seja, ela é, em suma, resultado do saber teórico. Ao contrário da técnica antiga que se baseava no conhecimento espontâneo adquirido mediante o contato direto com a natureza, a tecnologia obedece a critérios cientificamente comprovados. Na contemporaneidade, tecnologia e ciência caminham lado a lado, uma apoiando a outra nos empreendimentos que visam a expansão do conhecimento para a transformação da realidade

transmitidos de geração a geração como, por exemplo, a medicina, a arquitetura e a mecânica gregas (VARGAS, 1994). Em relação aos três conceitos, fizemos um recorte, delimitando a análise da tecnologia, por ser esta parte central do estudo proposto.

24 O autor ainda assinala que somente a partir de 1600 com a Ciência Moderna é que surge a tecnologia e que não é possível separar as duas. Desde então, o desenvolvimento como aplicação e o uso da ciência fizeram-se por uma interação entre a ciência moderna e a técnica. Além disso, foi a junção tardia dessas duas que deu à ciência moderna o seu caráter ativo de agente transformador da realidade que provém de uma ideia de natureza dócil à análise e ao cálculo matemático (VARGAS, 1994).

25 Na filosofia, o agir corresponde ao campo da ética, o qual será objeto de reflexão no capítulo 2, com base no princípio responsabilidade de Hans Jonas.

empírica. Esta ciência consiste na pesquisa da natureza e combina a observação e o experimento com a representação e o cálculo matemáticos.

Ciência e tecnologia estão sempre juntas não apenas em termos do conhecimento estruturado e fundamentado, mas também em termos da prática efetivada. A ciência está comprometida com os princípios, as leis e as teorias, enquanto a tecnologia representa a transformação deste conhecimento científico em técnica [...]. Em outras palavras, é um conhecimento e uma ação que não param jamais, em constante reciprocidade, na medida em que a tecnologia está buscando permanentemente aperfeiçoar as mudanças trazidas pela ciência. Esta dá o suporte teórico e a tecnologia dá a infraestrutura com seus instrumentos tecnológicos, surgindo uma nova produção técnica que está sempre em busca de novos conhecimentos científicos. (GRINSPUN, 2009, p. 75).

Não resta dúvida de que, enquanto o conhecimento científico se mantiver em um movimento ascendente, com ela estará a tecnologia. Onde uma estiver, a outra também estará como pressuposto necessário. Estão imbricadas numa relação de interdependência, constituindo o que vem sendo denominado “tecnociência”, nunca satisfeitas com o já alcançado nem em termos de conhecimento nem na produção de objetos. Uma das poucos diferenças entre ambas é que, enquanto a tecnologia está sempre apontando para coisas no futuro que visam mudanças e transformações, enquanto que a ciência se volta para o que existe no presente para assim fundamentar novas ações e decisões (GRISNPUN, 2009). No entanto, emerge dessa comunhão uma epistemologia dicotômica entre o ser humano e a natureza, o que se caracteriza como a raiz de uma das principais preocupações que afligem a humanidade do presente.

Para Vargas (1994), a ciência moderna com seu caráter ativo de agente transformador da realidade está fundamentada na ideia de uma natureza dócil à análise e ao cálculo. Com efeito, à medida que a ciência avança em suas pretensões, avança também não só o desejo de manipular a natureza, como também de dominá-la como meio a serviço dos desígnios humanos.

Uma cisão instalou-se, colocando o ser humano e a natureza em lados opostos. E o resultado disso estamos assistindo como testemunhas oculares, a destruição tornou-se parte da cultura humana atual que escolheu ser tecnológica26, parecendo não ter importância frente aos benefícios que detêm a última palavra. Mas afinal, qual será o desfecho dessa jornada que envolve a tríade ser humano-ciência-tecnologia? Para essa pergunta há uma incógnita.

E por que há essa instrumentalização da natureza? Porque há no ser humano a capacidade de avaliar as coisas, de julgá-las boas ou más, úteis ou inúteis, verdadeiras ou falsas, belas ou feias. Quando algo da natureza se apresenta, imediatamente emite-se o julgamento.

26 Na década de 60 do século XX surgiu uma nova área de estudos que envolve várias ciências de caráter interdisciplinar: a ecologia. Trata-se de um conjunto de conhecimentos que visam proteger a natureza, proteger o chamado equilíbrio dos ecossistemas das várias regiões (RODRIGUES, 2009).

Desta valorização decorre a atuação humana. E entre os valores, há um que se sobressai, que é o de “servir para”. Se algo da natureza foi julgado “servir para” algo, então a instrumentalização está feita (VARGAS, 1994).

Acontece que a instrumentalização extrapolou a esfera da natureza, abarcando também o ser humano, que agora se vê vulnerável à mesma tirania imposta àquela, causando um descontrole do qual ele próprio é culpado27. O que no início estava restringido ao fazer, ao produzir, ao fabricar, agora envolve também o agir, o que implica resgatar a discussão envolvendo ética e tecnologia, a partir de uma perspectiva que ultrapasse a noção meramente instrumental advinda do conhecimento científico aliado à tecnologia. Hoje sabemos que nem tudo está mais sob controle humano, e um exemplo disso é o poder concentrado na tecnologia.

Precisamos dilatar a reflexão para além dos limites das análises meramente técnicas da tecnologia que tendem, na maioria das vezes, à sua defesa enfática. É importante trazer para o centro da discussão não só as conquistas que nos beneficiam em muitos aspectos, como também incluir aqui os perigos, as ameaças, as ambivalências e os efeitos negativos que também estamos colhendo nessa aposta. A filosofia, por sua vez, carrega a responsabilidade de nada deixar encoberto, pois seu silêncio pode nos custar muito caro talvez já num futuro próximo.