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O que é um genocídio?

No documento Edição nº 19 maio/agosto de 2015 (páginas 61-63)

System of a Down – Boom!

3. O que é um genocídio?

Ainda que a palavra genocídio tenha hoje um uso corrente, sendo utilizada como um sinônimo geral para massacres, chacinas e outros crimes de grandes proporções e repercussões, ela nasceu para designar um fenômeno de violência bastante específico. Criada pelo filólogo e jurista judeu-polonês Raphael Lemkin no início dos anos 1940, a palavra congrega o prefixo grego genos (povo, raça ou tribo) e o sufixo latino cidere (matar) e foi definido pelo autor como:

“(...) un plan coordinado de diferentes acciones cuyo objetivo es la destrucción de las bases esenciales de la vida de grupos de ciudadanos, con el

propósito de aniquilar a los grupos mismos (…) El genocidio se dirigen contra los individuos, como una entidad, y las acciones involucradas se dirigen contra los individuos, no en su capacidad de individuos, sino como miembros del grupo nacional”.9

Apesar dos esforços de Lemkin para que o conceito fosse transformado em uma figura jurídica a ser utilizada já nos julgamentos de Nuremberg ao final da II Guerra Mundial, foi apenas em 1948 que o desejo do intelectual e ativista se tornou realidade. Em 9 de dezembro daquele ano, um dia antes da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a recém-criada Organização das Nações Unidas aprovou por unanimidade a Convenção para a Prevenção e

Repressão do Crime de Genocídio, que em seu art. 2.º define genocídio:

“Entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

a) matar membros do grupo;

b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;

c) submeter intencionalmente o grupo a condição de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio de grupo;

e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.”10

9 LEMKIN, Raphael. El Dominio del Eje en la Europa Ocupada. Buenos Aires: Prometeo Libros; Eduntref, 2009, p. 153.

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Embora tenha sido uma vitória no que diz respeito aos direitos fundamentais e à justiça no mundo do pós-II Guerra, a convenção criou uma encruzilhada teórico-conceitual: enquanto um conceito nascido do marco jurídico-formal, de um texto pertencente ao Direito Internacional, seria genocídio apenas aqueles fenômenos de violência que se encaixassem na definição da ONU? Se assim for, necessitamos de um tribunal e um veredito para afirmamos que certo acontecimento é um genocídio?

Essas questões mobilizaram intelectuais das mais diversas áreas por décadas e ainda geram debates na atualidade. O problema reside, principalmente, na magnitude do crime de genocídio, alcunhado de “crime dos crimes” pelo jurista William Schabas,11 o que faz com que o rótulo de “perpetrador” seja, nas

palavras de Donald Bloxham, “o maior estigma conforme o direito internacional”.12 Um delito dessa expressão cria no grupo-alvo demanda por justiça e

reparação e, do ponto de vista histórico, gera uma “expectativa de memória”, nas palavras de Jacques Sémelin,13 o que inicia uma disputa jurídica e histórica

para caracterizar este ou aquele acontecimento como genocídio, dando assim maior visibilidade a um determinado processo de violência. Por outro lado, os perpetradores buscam negar que o acontecido tenha sido intencional, tendo em vista que segundo o artigo supracitado, a intencionalidade é chave para a definição do crime de genocídio. Isso cria algumas anomalias do ponto de vista moral: não é raro encontrar na retórica negacionista um porta-voz que não se dá ao trabalho de refutar as centenas de milhares de mortes, mas que apenas gasta energia argumentando que as baixas foram causadas circunstancialmente, sem que houvesse um plano centralizado e orquestrado para essa finalidade e, portanto, não seria genocídio nos termos da convenção. As ciências sociais usam largamente genocídio em suas análises, mas não necessariamente em um entendimento convergente àquele da ONU, seja porque consideram o conceito onusiano muito restrito por não englobar os massacres causados em grupos políticos, por exemplo, seja porque não querem ficar restritos à chancela de juristas sobre o que viria a ser genocídio ou não. Assim, muitos cientistas sociais se esforçam para construir seus próprios conceitos de genocídio, tornando-o menos estrito e excludente. Isso cria entendimentos diferentes entre o Direito e as outras ciências sociais, pois não necessariamente o que uma disciplina entende como genocídio as outras corroboram. A situação fica ainda mais complexa quando atores políticos entram no debate, tentando qualificar um massacre como genocídio na esperança de que essa qualificação gere frutos politicamente para determinado grupo ou povo e dê, claro, maior visibilidade a uma certa questão que nem sempre ocupa grandes espaços na mídia ou na academia vis-à-vis os casos mais estudados como o extermínio dos judeus europeus durante a II Guerra Mundial.

O paradigma do genocídio de judeus (comumente conhecido como Holocausto) faz com que os outros fenômenos de extermínio em massa sejam lidos através do prisma desse acontecimento. No “grande jogo do genocídio”, para utilizar a expressão de Bloxham, valoriza-se ou minimiza-se o Holocausto de acordo com os interesses de quem faz a análise. Enquanto os apoiadores da causa armênia se esforçavam para mostrar como o genocídio armênio lançou as bases que tornariam possível o extermínio de judeus 25 anos mais tarde, a diplomacia e academia turca reforçavam a singularidade do Holocausto a fim de diminuir a importância dos acontecimentos de 1915.14

Nessa tentativa de ganhar espaço no debate político, jurídico e historiográfico, defensores das reivindicações armênias deram o epíteto aos acontecimentos de 1915 como o “primeiro genocídio do século XX”, numa tentativa de jogar luzes sobre esses eventos que estariam eclipsados pelo maior genocídio do mesmo século. Essa formulação oblitera, contudo, o massacre dos hereros na atual Namíbia perpetrado pela Alemanha imperial em 1904,15 ou ainda outras

minorias que também sofreram perseguições sistemáticas no Império Otomano a partir de 1915, notadamente os assírios e os gregos. Também não convém à retórica armênia lembrar dos circassianos mortos em 1864 pelo exército czarista no Cáucaso Oriental, cujo processo de extermínio também envolveu deportações, expropriações, reassentamento populacional, gerando cerca de um milhão de mortos e uma diáspora. Para alguns, seria esse o primeiro genocídio moderno.16

Seja lá qual tenha sido o “primeiro”, o importante é notar que há um certo padrão no acontecimento de genocídios e crimes contra a humanidade que é

11 SCHABAS, William A. Genocide in International Law: the crime of crimes. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. 12 BLOXHAM, D. Op. cit., p. 95.

13 SÉMELIN, Jacques. Purificar e destruir: usos políticos dos massacres e dos genocídios. Rio de Janeiro: Difel, 2009. p. 426. 14 BLOXHAM, D. Op. cit., p. 218.

15 Idem, ibidem, p. 217.

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recorrente ao longo da história devida à incapacidade (ou desinteresse) dos envolvidos em interromper esse ciclo. Gregory H. Stanton dividiu o processo genocida em oito fases, quais sejam: classificação, simbolização, desumanização, organização, polarização, preparação, extermínio e negação.17 Ainda que

a teoria de Stanton tenha sido construída para a análise de genocídios, podemos estendê-la para demais infrações aos direitos humanos. Vejamos a seguir como a violência no Brasil pode se aproximar do fenômeno do genocídio.

No documento Edição nº 19 maio/agosto de 2015 (páginas 61-63)