5 INTERPRETAÇÃO DO DSC
5.5 O QUE A EXPRESSÃO “PROFISSIONAL COMPETENTE”
Nesta questão, pretendeu-se conhecer a idéia que os bibliotecários têm sobre como é e como age um profissional competente.
Nas manifestações no DSCEC 5, os entrevistados descreveram um profissional que traça metas e alcança seus objetivos, que cria oportunidades, que está aberto ao diálogo e a aprender, que conhece sua profissão e sua área de trabalho e está predisposto a se aprimorar continuamente.
Na acepção de Moscovici (2004), as representações sociais se constituem das idéias e fenômenos que se criam e influem no comportamento e na interpretação das pessoas. Assim como Jodelet (2001) afirma que, para haver a convivência de pessoas, experiências e idéias, é imperativa a criação das representações que facilitem a comunicação e o intercâmbio de representações, para a sobrevivência do indivíduo na sua realidade. Neste sentido, os informantes descrevem o profissional competente, que busca sua sobrevivência e se sobressai mantendo representações comuns, num contato direto e construtivo com as pessoas do ambiente em que trabalha.
Profissional competente é aquele que atinge patamares mais altos, que passou por todas as etapas de forma positiva, no sentido de que eu chegasse a isso com o bom atendimento, com a interdisciplinaridade que se diz do relacionamento com os docentes, com a família universitária de funcionário. Faz-se um planejamento e se vai de etapas em etapas e no final atinge as metas. Um profissional competente é o que conseguiu alcançar os objetivos que ele planejou com sua vontade de progredir, a disponibilidade em sempre querer aprender e sempre fazer melhor.
Verifica-se também a ancoragem da afirmação dos informantes sobre a influência dos profissionais em seu meio, através da Sociologia do Conhecimento da teoria de Berger e Luckmann (1995). Aqui se fala da institucionalização do homem, como ser social que se relaciona com a coletividade, influi e é influenciado pela realidade de seu ambiente e pelos aspectos culturais e sociais da sociedade a que pertence, transmitidos por hábitos cotidianos. A legitimação concretiza a institucionalização, normaliza e esclarece o que o cidadão pode ou não fazer, justificando suas ações. Preserva o conhecimento, por meio de contextualização de valores, ações ou momentos, passados de geração em geração, pela história constituída, e não
por hábitos e costumes. Da mesma forma, os informantes descrevem a dialética e a predisposição que envolve os bibliotecários, no conhecimento de seu ambiente de trabalho abordada por Vieira (1993), assim como os fatores de responsabilidade e ética na competência ditadas por Zarifian (2003)
[...] Se ele desenvolver a sua profissão com afinco, dedicação e amor eu acho que ele é competente. O profissional competente tem que estar aberto para isso e ser uma pessoa afeita ao diálogo. Mas ele tem que ter preparo, ter firmeza naquilo que informa, e saber colocar sua profissão à disposição, tanto para o usuário, quanto para a instituição ou, fora da instituição. O profissional competente é você agir como profissional, usando dos seus conhecimentos para ajudar o local, a instituição em que você trabalha, fazendo uma progressão para o seu país. É você usar toda sua sensibilidade, usar da ética e ter uma leitura de todo o ambiente em que você atua, para poder ter o discernimento na hora que você expressar sua opinião, expressar uma determinação, expressar uma coisa que possa dali resultar num trabalho, numa atividade. A competência eu vejo neste sentido, é a expressão do conhecimento.
Os informantes mencionaram a criatividade e a educação continuada, por diversas vezes, durante seus relatos, como elementos importantes de sua competência. No mesmo sentido, além de Polanyi (1983), que destaca na teoria do conhecimento a essencialidade da criatividade na prática da profissão, Ponjuan Dante (2000) e Guimarães (1997), pesquisadores da CI, conferem ao profissional da informação a característica de ser criativo, na adaptação ao seu meio profissional em transformação. Alguns pesquisadores da CI, como Arruda, Marteleto e Souza (2000), Barbosa (1998), Castro (2002), Cunha (2000), Guimarães (1997) e Valentim (2000) enfatizam a necessidade de qualificação e adequação dos cursos acadêmicos do profissional da informação, e sugerem a educação continuada como recurso para acompanhar a explosão informacional e seus inovadores meios de transmissão. Inclusive a CBO (BRASIL, 2002) referencia a atualização e a criatividade, como competências pessoais do profissional, e que, portanto, embasam os depoimentos que as definem como competências.
O profissional competente é aquele, que, apesar das dificuldades, usa a criatividade e aplica seus conhecimentos teóricos – da sua formação ou aquele que vem adquirindo através da sua atuação, com a educação continuada e com atualização – e otimiza o seu trabalho. Porque é difícil você encontrar um ambiente adequado que esteja construído a contento, na nossa realidade.
Zarifian (2001) argumenta que as competências mais importantes não são remuneradas nem reconhecidas, pois envolvem a postura e os valores pessoais, que, em conjunto com os conhecimentos profissionais e experiências anteriores, são empregadas no contexto de trabalho. Assim também Sveiby (1998) argumenta que a competência é o saber agir do profissional. Desta maneira, quando os informantes manifestam sua iniciativa como “correr atrás” e “ultrapassar seus limites” na busca de uma solução, encontram-se ancorados nas teorias de competência de Zarifian (2001) e de Sveiby (1998).
Profissional competente é aquela pessoa que conhece tudo de sua profissão, mas não só de seu curso, não sabe tudo. Mas na hora que ela é solicitada, ela sabe correr atrás daquilo que realmente precisa, e sabe onde ir buscar. Ela tem a capacidade de saber fazer e realizar o seu trabalho dentro daquilo que está ao seu alcance. E saber tirar proveito, mesmo quando se não tem as condições adequadas. É ultrapassar seus próprios limites.
[...] Criar condições, inventar, tentar, porque se ficar esperando não vai ser a universidade que vai te dar condições. Então você tem que correr atrás, com criatividade e desprendimento.
Conseqüentemente, tomando por base as teorias do construcionismo de Berger e Luckmann (1995) e o processo civilizador de Elias (1994), o mesmo acontece com as competências dos profissionais que emergem das polêmicas sobre o progresso da sociedade. As mudanças e adequações de seus comportamentos e sentimentos, influenciados pelos impactos civilizadores ou da convivência em universos simbólicos da sociedade mutante, transforma as ações e as idéias no sentido de sobrevivência, como os manifestantes afirmam abaixo.
Um profissional é competente quando procura fazer especialização, fazer pós-graduação, fazer o que tiver na área. Porque, infelizmente ou felizmente, não adianta você ter o conhecimento, se você não tem como provar este conhecimento. O leque em que se transformou a nossa profissão é completamente diferente daquele que eu me formei. Hoje em dia não adianta o profissional ficar na era da fichinha. Tem que acompanhar a modernidade e o avanço tecnológico, para poder prestar informação na hora certa, precisa e adequada. [...]