Me deparo em alguns momentos desta tese, trazendo à tona certa nostalgia, como se a chegada ao Ensino Fundamental fosse uma experiência
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depreciativa, se comparada com a Educação Infantil. No entanto, há que se fazer uma ressalva e um sobrevoo sobre esta etapa da educação brasileira.
A Educação Infantil, enquanto sistema de ensino, ideal, necessita ser descrita. Foi na década de 80, com a abertura política que vivemos no Brasil, período pós ditadura, especificamente no ano de 1988, que a Constituição reconheceu que era um direito de todas as crianças do território nacional, terem acesso a creches e pré-escolas.
Art.205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será provida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988, p. 1).
Mas foi em meados dos anos 90 que a criança passou a ocupar outro lugar na legislação e na sociedade, assim como em estudos relacionados à educação das crianças pequenas. Um destaque especial aos estudos que evidenciaram a importância das interações para afirmarem que a aprendizagem das crianças necessitava ser em contexto e no coletivo. Uma criança, portanto, considerada como sujeito social e que além de fazer parte, também contribui para a construção da cultura em seu agir cotidiano (OLIVEIRA, 2002).
A partir desta concepção/ideia em transformação, outro marco merece ser destacado, pelo qual o país se distingue, perante outras nações do mundo, que é a garantia que temos, desde 1990, dos direitos das crianças assegurado com o ECA – Estatuto da criança e do adolescente (1990). Com a Lei nº9394/9628 a Educação Infantil passa a ser, de fato, reconhecida como a primeira etapa da Educação Básica no país. Foram marcos fundamentais para que essa etapa passasse a ocupar um espaço de maior reconhecimento os quais embasaram a caminhada que se iniciava.
Art. 3º. O ensino será com base nos seguintes princípios: igualdade de condição para o acesso a permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, pensamento, a arte e o saber; pluralismo de ideias e de concepções
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pedagógicas; respeito à liberdade e apreço a tolerância; coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; gratuidade do ensino em estabelecimentos oficiais; valorização do profissional da educação escolar; gestão democrática do ensino público, na forma desta lei e da igualdade e dos sistemas de ensino; garantia de padrão de qualidade; valorização da experiência extraescolar; vinculação entre educação escolar, o trabalho e as práticas sociais (BRASIL, 1996, p. 1)
Documentos e materiais importantes foram construídos no período pós promulgação da LDB (BRASIL, 1996), os quais deram origem a uma história reconhecida pela constituição de documentos relevantes para a história da educação no país. Em específico, considero aqui como marcos importantes para o estudo as DCNEF – Diretrizes Nacionais para o Ensino Fundamental (BRASIL, 1998) e as DCNEI - Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009), elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação como legislação que orienta processos de ensino e aprendizagem.
Esta última, apresenta a concepção de Educação Infantil e estabelece alguns dos princípios éticos, políticos e estéticos que devem pautar as propostas pedagógicas das escolas Brasil a fora, com objetivo principal de
garantir à criança acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças (BRASIL, 2009, p. 2).
Uma diretriz que pauta seu eixo norteador na importância da integração entre cuidar e educar na organização da ação pedagógica com crianças de 0 a 5 anos. O desafio de conviver com crianças em seu primeiro espaço público, a escola, é um desafio em constante movimento histórico.
As DCNEI e as DCNEF, já mostraram a grande diferença estabelecida na legislação educacional entre as duas etapas da Educação Básica. As DCNEI – tratam das questões legais para a Educação Infantil Já as DCNEF, tratam das questões legais para o Ensino Fundamental. Duas etapas, e duas nomenclaturas que nos levam a dois lugares distintos. Uma a da educação e a outra a do ensino. Ambas as diretrizes, em sua própria natureza, já nos mostram, desde sua promulgação, o caminho para a ruptura abrupta que
84 ocorre entre as duas primeiras etapas da Educação Básica. Em especial, com a implantação da BNCC (BRASIL, 2017): uma diretriz marca seu lugar de educação a partir do eixo das interações e brincadeiras e a outra, marcada e demarcada pelo ensino segmentado em áreas do conhecimento.
A distinção entre os dois termos educação e ensino remete a uma abrupta distinção. Educação apresentada no nome da etapa, como sendo a possibilidade de considerar algo para além de conteúdos e aprendizagens previamente mapeadas. Sem o compromisso com a especialização das áreas. Um compromisso pautado na criança, aprendizagens amplas e plurais. De outro lugar, a outra etapa preza pelo ensino, na qual exige do professor pedagogo, a especialização de conhecimentos para suprir as demandas que os documentos legais já impõem, a chegada no Ensino Fundamental. Aqui mora a transição: uma mudança abrupta, tanto na vida da criança, como na dos pedagogos, já que, ambos possuem, a mesma formação.
Além dos documentos que foram extremamente importantes, a fim de garantir a qualidade na educação da primeira infância, o CNE - Conselho Nacional de Educação - também elaborou as orientações curriculares sobre temas fundantes na educação das crianças, que não podem ser negligenciados, quando se trata de começos mundanos na vida das crianças, entre eles: o currículo na Educação Infantil, as especificidades da ação pedagógica com os bebês, o lúdico - brinquedos e brincadeiras; a linguagem no cotidiano da Educação Infantil e o direito à educação na primeira infância. E na esteira das orientações, no ano de 2017, entra em vigor a BNCC – Base Nacional Comum Curricular, a qual garantiu, após longo período de debates, assim como de tensões e turbulências políticas, que a Educação Infantil, organizasse seu fazer pedagógico a partir dos campos de aprendizagem, garantindo com isso os direitos de aprendizagem das crianças. Diferentemente dos Anos Iniciais, o qual idealizou o percurso formativo das crianças, baseada em áreas do conhecimento, sustentadas em competências específicas a serem atingidas pela criança. Logo, outra
85 mudança significativa entre as etapas: uma se
detém as experiências de vida, outra na exigência do alcance de competências.
A Educação Infantil assume então, a tarefa de educar as crianças que deixam suas famílias para adentrar ao mundo social. A escola e todos os seus atores, assumem o compromisso vital de acolher e educar crianças em seus começos mundanos; uma diversidade de crianças, passam a ocupar esse lugar comum que é a escola. Onde o “entusiasmo extraordinário pelo que é novo” (ARENDT, 2016, p.224) é o que deveria, a partir dos documentos norteadores desta etapa, pautar as escolhas, planejamentos e encontros com as crianças. Uma escola que de fato, esteja atenta a vida comum de todos os dias e que acredita na força dos encontros para a constituição destes começos.
Uma escola que, por sua recente história de constituição no Brasil, possui a possibilidade de estar situada como primeira etapa da Educação Básica a qual tem o papel fundamental de educar crianças, já que carrega em seu próprio nome, uma de sua grande tarefa: Educação Infantil. Diferentemente de sua etapa seguinte, a qual passa a adotar, além de outro nome, outras funções, dentre as quais, uma rigidez e obrigatoriedade ainda maior em prol dos ensinamentos conteudistas e segregados por áreas do conhecimento. Etapa que passa a
A chegada a biblioteca é uma das ações de começos da criança das mais interessantes. A criança transita pelos corredores, encantada com a magnitude deste lugar, anseia por levar muitos livros e não somente a cota
pré-definida. Para alguns um lugar já conhecido, mas que nesta chegada, passa a ocupar um outro sentido: a possibilidade do livro ser “lido por mim e de eu mesma colocar minha senha.” (Fala de menino de 6 anos)
86 receber em seu nome outra grande tarefa, a de ensinar: Ensino Fundamental.
Ensinar X Educar – o que há para se pensar? Onde se educa não se enisna? Onde se ensina não se educa? Discussão pertinente, mas que não farei neste momento. Tendo em vista o foco desta pesquisa, mas que merece nossa atenção e reflexão, tendo em vista uma mudança tanto legal, quanto espacial, até mesmo de postura destes adultos que fazem esta etapa da educação. O que podem aprender professores de etapas diferentes da educação? O que há para se jogar por sobre a mesa, artifício que pode fazer emergir as imagens do que , de fato, “se interpõem entre os que se assentam ao redor” (ARENDT, 2016, p.64)? Tendo a supor que o que nos une, entre as etapas, o que temos a tensionar seja o alargamento da infância, para além deste começo de vida numa etapa que privilegia o acolhimento, as aprendizagens múltiplas e a apresentação lúdica do mundo.