5.3 Condição do Merge: a formação de palavras a partir da valoração de traços
5.3.2 O que constitui os núcleos categorizadores?
Em nossa visão, os núcleos categorizadores são feixes de traços que modelam a raiz com a qual são concatenados. O conjunto de traços que cada núcleo categorizador traz tem influências não apenas na sintaxe, no que diz respeito às questões de valoração, mas também na fonologia, no que concerne às regras de aplicação de acento135.
Assim, torna-se imprescindível explicitar quais são os traços e suas possíveis distribuições nos núcleos categorizadores, tal como as consequências de cada combinação de traços para a gramática. Antes de explicitá-los, temos que ter em mente que o conjunto de traços dos categorizadores deve garantir que eles sejam concatenados tanto a raízes quanto a estruturas mais complexas a fim de gerar um composto.
133 Vale salientar que em casos de não satisfação de algum traço, a estrutura também não é rotulada como
máxima, por exemplo, o traço EPP em T promove a formação de um nível intermediário a fim de garantir o movimento do sujeito sentencial. Na formação de palavras, acreditamos que tais casos não são encontrados.
134 Boeckx (2010, p. 29) também propõe que o que ele postula como endereços conceituais (do inglês,
conceptual adresses) – os quais são utilizados num sentido próximo ao de raiz para a MD – contêm um traço de borda por razões distintas daquelas apresentadas aqui. Para o autor, a sintaxe opera apenas concatenando endereços conceituais uns aos outros e é somente após o Spell-Out que cada um desses endereços será interpretado categorialmente.
Comecemos pelo domínio nominal. De acordo com Lieber (1992), os nomes contêm os seguintes traços: categoria, gênero e classe. Ritter (1993), ao tratar do domínio nominal, adiciona a esse conjunto de traços a informação de número, tratando-a como uma projeção funcional independente. Tal como esses autores, assumimos que todos os traços supramencionados integram o feixe de traços dos núcleos definidores de categoria nominal, estando o traço de categoria formalizado pelo traço de borda R e os demais sintetizados sob o rótulo de traços φ (exceto o traço de classe).
Embora esses últimos traços estejam sintetizados sob o rótulo de traços φ, eles devem ser entendidos como independentes, pois nem todos os traços φ são acionados nos casos de concordância, tal como mostram Béjar (2003), com os sistemas de concordância com múltiplos argumentos, e Baker (2013), com as diferenças de concordância entre verbos e adjetivos. Mantê-los autônomos, portanto, garante o acesso individual de cada um desses traços nas possíveis relações de dependência que possam ser estabelecidas.
O traço de borda, além de fornecer informação categorial, é responsável pela concatenação desse feixe de traços presentes no núcleo categorizador à raiz, satisfazendo a Condição do Merge. Já para os contextos sentenciais, sugerimos que a concatenação do feixe de traços de um núcleo categorizador se dá a partir de um traço de tempo T não-interpretável valorado [uT: val], o qual permite que um sintagma verbal seja categorizado em um composto (e.g., compostos V-N) e também que sentenças sejam categorizadas (e.g., do inglês, she had a [devil-may-care approach] ‘ela tinha uma abordagem com a qual nem o diabo pode’; this is a [God-is-dead theology] ‘essa é uma teologia de Deus está morto’). Esse traço satisfaz as exigências temporais do constituinte verbal, impedindo que um núcleo de tempo seja concatenado à estrutura.
Dessa forma, admitimos que um categorizador nominal pode conter os seguintes traços:
(113) Conjunto de traços possíveis dos categorizadores nominais (n) a. Traço de borda R interpretável e valorado como n [iR: n] b. Traço de tempo T não-interpretável valorado [uT: val]
c. Traços φ interpretáveis não-valorados/valorados [iφ: __]/[iφ: val] d. Traço de classe não-interpretável valorado [uC: 1]136
136 O traço de classe uC pode ter os seguintes valores: 1, 2, 3 e 4, e cada um desses valores corresponde a
inserção de uma vogal temática específica, a saber /o/, /a/, /e/ e ∅, respectivamente, em consonância com o trabalho de Alcântara (2003, 2010).
Embora alguns traços sejam imprescindíveis no categorizador, tal como o traço de borda, nem todos precisam estar presentes em seu feixe, como o traço de tempo e o traço de classe. A ausência do traço de classe, por exemplo, é o que permite a formação de compostos com radicais, já que o componente morfológico não terá informação gramatical para a inserção de um marcador de classe, o que trará consequências em seu padrão acentual137.
A estrutura formada pelo categorizador nominal será concatenada a um núcleo determinante (D) a partir da valoração dos traços φ de n por D138. Contudo, não é comum a presença de definitude nos nomes internos aos compostos. Se tomarmos como exemplo os compostos V-N, a presença de um determinante torna o composto agramatical, já que esse nome não pode fazer referência a uma entidade ou objeto no mundo, tal como vemos nos dados em (114):
(114) a. *Esse objeto é um marca-as-páginas.
b. *Cet objet est un grille-le-pain. (Francês) este objeto é um torra-o-pão
“Esse objeto é uma torradeira”
c. *Quest’oggeto è um asciuga-i-capelli. (Italiano) este objeto é um enxuga-os-cabelos
“Este objeto é um secador de cabelos.”
Então, como explicamos a presença de traços φ no nome interno ao composto se parece não haver a presença de um D correspondente à sua valoração? A primeira alternativa é dizer que o núcleo determinante pode não conter a informação de definitude, mas está presente para garantir a valoração dos traços φ de n, os quais, como vimos, podem ser distintos dos traços φ do composto. Essa alternativa, no entanto, exige que expliquemos como os traços φ desse D, destituído de definitude, não são preenchidos no componente fonológico. Outra alternativa é dizer que os traços φ dos nomes internos à composição já vêm valorados, e, por isso, um núcleo D não se concatena a eles. Nessa solução, garantimos que os
137 Cf. Capítulo 6.
138 Assumimos como Cyrino e Espinal (no prelo) que o traço de número é morfossintaticamente valorado em D,
e, então, seu valor é atribuído ao categorizador nominal via Agree. Com relação ao traço de gênero, não assumimos que ele esteja na raiz, como alguns autores dentro da MD sugerem (e.g., ALCÂNTARA, 2003. 2010), mas que, tal como número, ele está valorado em D, e é atribuído ao nome via a mesma operação. Essa última assunção encontra evidências no caráter contextual que gênero pode ter (cf. LAZZARINI-CYRINO; ARMELIN; MINUSSI, 2013), o que pode ser capturado ao relegá-lo ao domínio discursivo atrelado ao núcleo D.
traços φ do nome interno ao composto possam, em alguns contextos, ser distintos dos traços φ do composto, ao mesmo tempo em que explicamos por que os nomes usados na composição são diferentes dos nomes utilizados isoladamente139. Acreditamos que essa segunda alternativa é a mais plausível, pois parece captar de maneira direta as informações dadas pela empiria.
Em resumo, assumimos que os traços φ dos categorizadores nominais de nomes internos a compostos podem estar valorados, enquanto os traços φ dos categorizadores nominais responsáveis por criar o domínio da composição não são valorados, já que o composto é visto como um nome utilizado isoladamente.
Nos núcleos determinantes D, portanto, encontramos o seguinte conjunto de traços:
(115) Conjunto de traços dos núcleos determinantes (D) a. Traços φ interpretáveis valorados [uφ: val]
b. Traço de v não-interpretável não-valorado [uv: __]
O traço de v140 acima está relacionado com a marcação de Caso do DP. Tal como Wurmbrand (no prelo), seguimos a proposta de Pesetsky e Torrego (2007) para a marcação de Caso dos DPs, em que o Caso corresponde a um traço não-interpretável de v – no caso, V para os autores – em um DP, o qual será lido como nominativo se for valorado por T, ou acusativo, se for valorado por v, tal como ilustrado abaixo:
(116) a. 3 b. 3
T vP v vP iT: past 3 iv: agent 3 DP … … DP uv: __ uv: __
uv: past PF: NOM uv: agent PF: ACC
(adaptado de WURMBRAND, no prelo)
139 Legate (2010, 2012 apud WURMBRAND, no prelo) recorre a uma solução semelhante para diferenciar o v
transitivo e o v de construções passivas. A autora propõe que o v de construções passivas é inserido com seus traços φ valorados, o que elimina a necessidade de inserção de um argumento externo e, ao mesmo tempo, fornece a semântica de que há um sujeito implícito.
140 O v está para V, e se refere ao núcleo definidor de categoria verbal, já que, em nossa abordagem, o núcleo
verbal deve ser formado sintaticamente. Dessa forma, fazemos uma distinção entre v (sem itálico), núcleo definidor de categoria, e o v (italicizado), introdutor de argumento externo.
Embora já tenhamos discutido, brevemente, os traços de v e de v, ao apresentarmos como ocorre a seleção argumental na abordagem de Wurmbrand (no prelo), no início da seção 5.3, retomamos os traços já discutidos e somamos a eles os traços requeridos para a formação de palavras. Em resumo, os traços possíveis dos categorizadores verbais e de v ficam como segue:
(117) Conjunto de traços possíveis dos categorizadores verbais (v) a. Traço de borda R interpretável e valorado como v [iR: v] b. Traço de tempo T não-interpretável não-valorado [uT: __] c. Traço de tempo T não-interpretável valorado [uT: val] d. Traços φ não-interpretáveis não-valorado [uφ: __] e. Traço de v não-interpretável não-valorado [uv: __] f. Traço de Q não-interpretável não-valorado [uQ: __]
g. Traço de classe verbal não-interpretável valorado [uCv: 1]141
(118) Conjunto de traços possíveis de (v)
a. Traço de v interpretável valorado [iv: val]
b. Traços φ não-interpretáveis não-valorados/valorados [uφ: __]/[uφ: val]
Nesses núcleos, os traços φ e o traço Q estão relacionados exclusivamente à estrutura argumental, enquanto os demais traços possibilitam a seleção morfológica desses núcleos. Cada um dos traços de tempo T em v corresponde a funções específicas: (i) se valorado, ele servirá como um categorizador verbal responsável por categorizar uma estrutura sentencial, e (ii) se não-valorado, ele corresponde ao traço de T em v que permite a concatenação de um núcleo de tempo T à estrutura sintática após sua valoração, tal como ocorre em (106a). Além disso, um traço T não-valorado em v permite a seleção de argumentos de núcleos verbais que exigem complementos com marcas temporais, por exemplo, o verbo decide, do inglês, que exige um [uT: subjuntivo] (cf. WURMBRAND, no prelo).
Por fim, elencamos os traços presentes nos categorizadores adjetivais, em (119):
141 As classes verbais no português, por exemplo, são três: -a- (1ª conjugação), -e- (2ª conjugação) e -i- (3ª
(119) Conjunto de traços possíveis dos categorizadores adjetivais (a) a. Traço de borda R interpretável e valorado como a [iR: a] b. Traços φ não-interpretáveis não-valorados [uφ: __] c. Traço de tempo T não-interpretável valorado [uT: val]
Em síntese, assumimos que os núcleos definidores de categoria são feixes de traços responsáveis por modelar a raiz ou a estrutura com a qual se combinam, não apenas adicionando informação categorial, mas um conjunto de traços que definirão essa unidade sintática, morfológica, e até mesmo fonologicamente, como veremos no Capítulo 6.
Os rótulos “núcleo definidor de categoria”, “núcleo categorizador” ou “categorizador” serão mantidos para evitar confusões terminológicas e possíveis interpretações que sugiram um rompimento com a MD. Porém, é importante que esteja claro que, para nós, esses núcleos fornecem mais informação do que apenas a categoria lexical, e o modo como seus traços constituintes estão descritos – se valorados ou não, se interpretáveis ou não – têm consequências para a construção e interpretação da estrutura sintática, tal como para a inserção de conteúdo fonológico.