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Apesar de ser a guerra uma actividade tão antiga como as sociedades humanas, a profis- sionalização do militar, no sentido sociológico, é um facto relativamente recente, tornado necessário pela complexificação tecnológica e organizacional. Os modelos conceptuais a considerar quanto à profissão militar são análogos aos modelos conceptuais para as profis- sões civis: estruturalista, processual e pluralista.

O modelo estruturalista, (também designado por attribute approach) é representado por Huntington e Janowitz, que consideram cada profissão distinguível das outras através de «core attributes» específicos. Algumas divergências surgem quanto aos atributos considera- dos específicos, mas é em relação ao papel dos militares na política civil que os dois espe- cialistas apresentam perspectivas nitidamente diferentes. Huntington propõe a neutralidade política das Forças Armadas, que deveriam isolar-se da Sociedade e concentrarem-se apenas nos valores da eficiência, afastando considerações de carácter não militar.

Janowitz por seu lado defende a integração da profissão militar na sociedade, (com acei- tação de valores e instituições civis), relacionada com um uso comedido da força.

O profissionalismo de Huntington é considerado reflexo da tradição radical do profis- sionalismo militar norte-americano, politicamente conservador, e que resulta da reacção dos militares (corpo de oficiais) contra o controlo civil, contra a penetração de ideologias e valores civis – “controlo subjectivo”, como diria o próprio Huntington.

O profissionalismo pragmático de Janowitz é tido pelos especialistas como o mais ad- equado para enfrentar as dificuldades surgidas a nível das relações civil-militares no período do após-guerra do Vietnam. Os mesmos especialistas norte-americanos consideram que as transformações institucionais a operar devem ser cuidadosamente conduzidas de modo a evitar que a sensibilização às problemáticas sociais e políticas, resultante da integração na

sociedade, não encoraje o activismo político.

O modelo processual adopta uma abordagem histórica, descrevendo processo de de- senvolvimento da profissão. Embora este tipo de abordagem seja referido principalmente à “Escola de Chicago”, pelo que respeita as profissões civis, mais recentemente alguns espe- cialistas têm-no adoptado no estudo da profissão militar.

Van Doorn descreve o processo de profissionalização do corpo de oficiais como resul- tado da fusão de dois factores: profissional e organizacional. Abrahamsson considera, no desenvolvimento da profissão militar, a presença de dois subprocessos: um referido à trans- formação histórica, às forças tecnológicas, económicas e sociais; outro, referido aos modos e processos de socialização profissional dos oficiais.

O modelo pluralista é o mais recente, uma vez que abrange a relação entre o civil e o militar no tocante a questões como: emprego de civis, o papel das mulheres e a admissão de homossexuais, podendo mesmo ser considerado como resultante dos problemas levan- tados no período posterior à guerra do Vietnam. Tentando conciliar teorias de Huntington e de Janowitz, insere-se na tradição estruturalista. Jordan e Taylor consideram que a for- mulação lassweIliana da profissão militar como “administração da violência organizada” já não é adequada actualmente, pois os papéis de dissuasão, conservação de atividades de- senvolvidas pelos militares. Moskos dá como exemplo o papel dos peace-corps das Nações Unidas em Chipre.

Recentemente alguns especialistas desta corrente têm defendido que a instrução supe- rior dos oficiais em universidades civis constitua um pré-requisito para a promoção a postos de nível superior ao médio. (CARRILHO, 1978, p. 161-162)

Na verdade, a arte de comandar tornou-se cada vez mais difícil, não porque os meios, ho- mens e materiais, tivessem fundamentalmente mudado de natureza, mas porque a conven- cionada crise da civilização não deixou de afectar os exércitos. As mentalidades e as atitudes dos homens sofreram rápidas transformações e ao desenvolvimento do individualismo, que afectou as comunicações entre comandantes e subordinados, vem juntar-se a tecnicidade crescente dos materiais, a divisão do trabalho, as especializações cada vez mais variadas dos homens e das unidades. E os comandantes que dirigem estes conjuntos não só não podem estar presentes por todo o lado, como também sua competência não se estende a todas as ramificações das atividades que coordenam. Apesar da sua experiência e aptidão, apesar da tradicional preocupação pelo factor humano, o contacto hierárquico é agora um meio mais difícil e menos profundo do que há 20 ou 30 anos.

O mundo militar é dilatado, complexo e, além do mais, processa a administração da vi- olência organizada. Nele coexistem homens (em alguns exércitos também mulheres, o que naturalmente colocará outra espécie de questões) das mais diversas proveniências, com di- versos estatutos, desempenhando papéis rigidamente diferenciados, obedecendo a rituais e ao culto de um conjunto de valores específicos ou de virtudes militares, com materiais dos mais simples aos tecnologicamente mais avançados.

É uma instituição que vive com militares profissionais, com jovens recrutados e com el- ementos civis. Cada um destes grupos de seres sociais coloca tipos diferentes de questões a serem equacionadas, além das inerentes ao inter-relacionamento entre si. São, por exemplo, as relações de poder desenvolvidas pelos profissionais e pelas suasélites, os estabelecimen- tos de estratégias para o desenvolvimento das suas carreiras, as motivações que os levam a escolher a carreira das armas ou, mais tarde, a abandoná-la, as “zonas de incerteza” que percorrem o universo das carreiras ao nível dos diferentes estractos profissionais, os estatu- tos e regalias diferenciados para os profissionais técnicos de combate e técnicos industriais; as

diversas questões camufladas pela uniformidade exterior dos protótipos de homens sociali- zados que são os jovens alistados que passaram a sua vida no mundo civil e que, a partir de dado momento, se vêem integrados numa organização que os vai talhar e modificar tendo em vista a harmonia do conjunto. São igualmente as mudanças estruturais da própria instituição, com reflexos principalmente a nível das mentalidades dos “novos militares” e do conteúdo das novas tarefas, ambas decorrentes do declínio do “exército de massas”, das mudanças de formas de guerra, da rápida transformação e obsolescência tecnológica dos materiais, da evolução das técnicas de gestão e dos processos do sistema educativo e dos conhecimentos, bem como de um estado de ”não-guerra que é também de não-paz”.(COSTA, 1984, p. 124-125) Os modelos apresentados que definem o que conceitua a profissão militar são elencados da seguinte maneira: o estruturalista que tem como premissa dar um significado ao exercício da profissão no que diz respeito a sua atuação neutra e isolada do resto da sociedade como fator que lhe confere um estatuto de profissão em seu termo mais estrito, enquanto a outra visão tem como proposta a integração do militar a sociedade civil, a fim de não tornar este membro de uma casta intransponível, com regras e valores próprios.

Os modelos preconizados pelo estruturalismo se dividem em uma visão de mundo com espectros ideológicos delineados de acordo com pontos defendidos pelos seus principais ex- poentes que ditam o que caracteriza o militar, enquanto profissional: o caráter conservador defendido por Huntington e o caráter liberal e pragmático defendido por Janowitz.

Por fim, a abordagem com o caráter sócio-histórico levando em consideração o desen- volvimento e a consolidação recente da profissão militar no que diz respeito ao caráter tanto profissional quanto organizacional, levando em consideração os fatores que implicam aspec- tos tecnológicos, sociais, econômicos, políticos e culturais em uma perspectiva que deixa clara uma influência que tem por certa o caráter de socialização do próprio militar.

Conclusão

A Sociologia Militar é um subcampo da Sociologia surgido recentemente e que ainda se en- contra embrionário em alguns países da Europa, por exemplo, e até mesmo no Brasil e Améri- ca Latina devido ao seu passado recente de regimes militares, o que torna a produção na área precária ou até mesmo inexistente, e em alguns casos com poucos expoentes, salvo aqueles dedicados a estudar a relação entre civis e militares nos períodos que sucederam o fim da Guerra Fria e com ela os regimes surgidos depois das chamadas “sublevações” militares.

O seu ensino e pesquisa voltados para o tripé elencado, relações entre civis e militares, as instituições, sua organização enquanto instituição e a profissão, e os conflitos armados, colocam a subcampo da disciplina em um patamar delimitado, conferindo-a um caráter de cientificidade alcançado em tão pouco tempo de surgimento.

O interesse surgido no subcampo de Sociologia Militar, devido à projeção de países emer- gentes nesse inicio de século, pode alavancar a disciplina de forma a tornar indispensável às parcerias entre instituições de ensino militares e civis, como forma de complemento à própria dinâmica da própria disciplina: a interação entre grupos tão distintos que se complementam. A Sociologia das Profissões é outro subcampo da Sociologia surgido recentemente, de forma que coincide com o desenvolvimento da Sociologia Militar, uma vez que seus primeiros estudos começaram na década de trinta do século passado, se aprofundando na década de sessenta, no pós-guerra.

existentes na sociedade, ajudam de alguma maneira a ter um foco mais claro e conciso do que é a profissão militar, uma vez que sua consolidação profissional por meio de estatutos, códigos e conduta própria de um “profissional” deu-se muito recentemente, fato que demon- stra a necessidade de uma análise mais acurada através da Sociologia aplicada as mais vari- adas profissões, em especial no tocante ao militar, enquanto profissional.

Por fim, a análise de um subcampo da Sociologia por outro subcampo, torna o debate metodológico, epistemológico e teórico muito rico, à medida que diversos aspectos inerentes à própria disciplina passam a ser considerados mais pertinentes, já que deixa o tema dotado da cientificidade necessária a qualquer tema discutido que mereça uma análise Sociológica.