3 CONTEXTO E TRAJETÓRIA DO ENSINO FUNDAMENTAL
3.3 O QUE DIZ A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR SOBRE O
A determinação de um tempo mais curto para a alfabetização exige um olhar atento dos profissionais da educação, principalmente dos que estão inseridos na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I. Esse cuidado precisa acontecer, pois as mudanças envolvem duas modalidades educativas com peculiaridades distintas entre si. De um lado a Educação Infantil, com sua responsabilidade em garantir um ensino mais lúdico e prazeroso, que a criança possa firmar sua identidade, aprendendo e brincando. “A criança não sabe senão viver a sua infância. Conhecê-
la pertence ao adulto. Mas o que vai prevalecer neste conhecimento: o ponto de vista do adulto ou da criança?” (WALLON, 1989, p. 9)
Esse contexto de transição de etapas de escolarização e de universos socioculturais é um momento fundamental para considerar a criança em seu tempo presente de desenvolvimento social. A função do professor nesse momento é fundamental para que não se perca a concepção da infância e que o aprendizado da leitura aconteça de forma prazerosa com a mediação do professor.
O Ensino fundamental etapa subsequente da Educação Infantil traz um formato mais sistematizado, com componentes curriculares comprometidos com regras mais rígidas de definição de conteúdos, tempos e espaços. Esse momento de transposição entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental exige do professor uma articulação entre os processos de desenvolvimento e de aprendizagem, sendo os conteúdos uma consequência e não a causa do processo. As escolas, tendo em vista essa realidade são necessariamente impulsionadas a rever suas concepções e práticas. Em entrevista para a revista Nova Escola, Ferreiro (2001) constata que:
[...] atuando de forma inteligente, pode-se alfabetizar aos 5 anos, aos 6 ou aos 7. É preciso oferecer oportunidade para os menores. Alguns vão aprender muito, outros nem tanto. A ideia de que eu, adulto, determino a idade com que alguém vai aprender a escrever é parte da onipotência do sistema escolar que decide em que dia e a que horas algo vai começar. Isso não existe. As crianças têm o mau costume de não pedir permissão para começar a aprender.
As contribuições da autora provoca um repensar do tempo para a aprendizagem da leitura e as condições para que essa aprendizagem aconteça. Só posteriormente os conteúdos, que serão trabalhados nessa etapa, devem ser definidos.
É preciso ter clareza que não se trata necessariamente de ensinar a criança a ler na educação infantil e sim assegurar o ensino de habilidades que são necessárias para a alfabetização e que devem ser consolidadas no Ensino Fundamental. Tais habilidades podem facilitar a aprendizagem da leitura, logicamente se forem bem desenvolvidas, teremos bons leitores no Ensino Fundamental, levando em consideração que as crianças quando matriculadas na
escola aos quatro e cinco anos, na maioria das vezes, demonstram domínio da linguagem oral.
Sendo assim, nos perguntamos quando se começa a ler? Desde o nascimento, quando a criança começa a ter contato com a língua materna? Quando são expostos a nomes escritos, letras, histórias, entre outros? Quando começa a ter um contato com sons e falas variadas, desenvolvendo a língua oral?
Aprender a falar acontece espontaneamente, sem necessidade de uma escola, porém aprender a ler é um processo mais complexo que exige um facilitador para mediar a compreensão e a funcionalidade do sistema alfabético. Talvez por isso, a escola e o professor tenham priorizado a dimensão cognitiva do desenvolvimento das crianças, deixando a dimensão afetiva, que é tão importante para a consolidação das habilidades, para segundo plano. Em outros casos acontece a priorização do carinho e cuidado, negligenciando assim o progresso da aprendizagem. Dessa forma, é o planejamento do professor com sua ação pedagógica que promoverá o equilíbrio entre os aspectos afetivo e cognitivo no processo de aprendizagem da criança. Para Freire (2002, p. 145)
Como prática estritamente humana jamais pude entender a educação como experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por uma espécie de ditadura racionalista. Nem tampouco jamais compreendi a prática educativa como uma experiência a que faltasse rigor em que se gera a necessária disciplina intelectual.
A partir da citação do autor acima podemos entender que nas relações humanas a afetividade vem sendo pouco considerada, mas para a educação, os sentimentos estabelecidos entre professores e alunos podem contribuir para uma melhor aprendizagem. Isso não significa que os aspectos afetivos são mais ou menos importantes que os cognitivos, pois um complementa o outro quando se trata de ensino e aprendizagem.
A afetividade também é importante para o processo de alfabetização da criança e em relação a esse tempo houve, recentemente, uma mudança. Assim, o tempo para se alfabetizar, que antes era até 8 (oito) anos de idade, no máximo, sofreu redução e a partir de 2017, passa a ser até 7 (sete) anos de idade. Essa decisão desconsidera a política do ciclo definida pelo Pacto Nacional pela
Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) e o Plano Nacional de Educação (PNE) o qual traz como meta 5 (cinco) alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º ano do Ensino Fundamental, afirmando assim que ao final dessa etapa todas as crianças deveriam ter aprendizagem adequada em leitura e escrita.
É certo que essas mudanças serão refletidas na educação, principalmente no ciclo inicial da alfabetização, pois existem muitas escolas com número grande de alunos por sala, o que dificulta o acompanhamento individualizado dos alunos. O tempo reduzido para o planejamento do professor também é outro agravante, além da aprendizagem das crianças da pré-escola que chegam nas turmas de 1º (primeiro) ano sem as competências cognitivas necessárias para a alfabetização. A realidade também mostra hoje, que dadas condições de vida da população que está na escola pública, pode ser prematuro definir através de lei que é possível alfabetizar todas as crianças até o final do 2º ano.
Diante dessa realidade nos questionamos em quais aspectos essa mudança impactará no aprendizado da leitura? Essa redução da idade e consequentemente do tempo para a alfabetização é preocupante porque os dados de consolidação da alfabetização até o terceiro ano, divulgados através da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), não são bons em grande parte do país.
A decisão de que toda criança da rede pública de ensino do país deve estar plenamente alfabetizada até o fim do 2º (segundo) ano do ensino fundamental foi anunciada em abril do corrente ano quando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi apresentada em sua versão final, trazendo, dentre outas, essa novidade.
De acordo com a nova versão da BNCC, a educação infantil também sofrerá mudanças, sendo definidos parâmetros dos direitos de aprendizagem e do desenvolvimento para os bebês e as crianças com menos de 6 anos de idade. A importância disso se dá porque se torna mais evidente que o processo de alfabetização deve iniciar na pré-escola, porém sem desconsiderar a infância e as características das crianças de quatro e cinco anos.
Pelo que podemos observas, a diminuição do tempo para a consolidação da alfabetização dependerá, em parte do trabalho que será desenvolvido com as crianças de 4 (quatro) e 5 (cinco) anos. Mas será que a Educação Infantil dará conta
dessa responsabilidade, considerando todas as problemáticas que envolvem essa etapa de ensino e as desigualdades educacionais do país?
Consta no documento da BNCC que são esperadas para as crianças de até 5 anos e 11 meses habilidades como reproduzir suas próprias histórias orais e escritas, sendo a "escrita espontânea, identificar gêneros textuais mais frequentes e levantar hipóteses da língua escrita através de registros de palavras e textos, por meio da escrita espontânea.
Sabemos que o Plano Nacional de Educação definiu na meta 1 (um) que até 2016 a Educação Infantil, na pré-escola, seria universalizada. O município de Lapão conseguiu atingir essa meta em quase 99%, porém, ainda existem muitas crianças, dessa idade fora da escola em nosso país. Se existem desafios para alfabetizar até 7 (anos) as crianças que vivenciaram experiências na Educação infantil, o que pensar das que não participam desse processo e terão um tempo menor para se apropriar do sistema alfabético?
Segundo especialistas, na primeira versão do texto eram esperadas para o aluno do 2º (segundo) ano ler, ainda que não convencionalmente, palavras e textos, apoiando-se em imagens e segundo sua compreensão do sistema alfabético. Na segunda versão era esperado que o aluno produzisse textos não convencionalmente ou tendo o professor como escriba. A terceira e última versão, por sua vez, fortalece as intencionalidades educacionais da Educação Infantil.
O debate sobre a redução do tempo para a alfabetização é bastante complexo e envolve outras questões importantes que implicariam pensar/repensar todos os aspectos que envolvem o processo de escolarização como a organização dos tempos e espaços escolares; sua infraestrutura; formação docente, metodologias adotadas; condições adequadas para o trabalho docente. Além desses aspectos, merece destaque a realidade socioeconômica dos estudantes.
Em um contexto anterior Kramer (2006, p. 811) fez reflexões importantes sobre os desafios que se colocam para a escola brasileira, os quais se encaixam na atualidade:
Em países como o nosso, onde a desigualdade e a injustiça social são constitutivas da história e do cotidiano, conquistas resultam de muito trabalho realizado e – para que não se reduzam à letra morta – indicam sempre que há muito trabalho por fazer. As conquistas formais têm se tornado ações de fato? Que impacto tais conquistas
promovem no currículo? No que se refere às políticas educacionais voltadas à educação infantil e ao ensino fundamental de nove anos, desde a decisão até a implementação e a avaliação das ações, as diversas instâncias precisam atuar de modo articulado. Às políticas públicas municipais e estaduais cabe a expansão com qualidade das ações de creches, pré-escolas e escolas, com a implantação de propostas curriculares e de formação de profissionais de educação e de professores. A antecipação da escolaridade para 6 anos de idade interfere nos processos de inserção social e nos modos de subjetivação de crianças, jovens e adultos? As escolas têm levado em conta essas questões na concepção e construção do seu currículo? Os sistemas de ensino têm se equipado para fazer frente às mudanças? Temos sabido interagir com os conselhos (em especial os tutelares) numa atuação social em defesa das crianças e de seus direitos, muitas vezes infringidos pelo Estado, outras pelas creches ou escolas, muitas vezes pelas famílias?
Nesse momento é necessário estabelecer diálogo entre os profissionais implicados na educação, sobretudo da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, preparando-os para a nova realidade, visto que causará mudanças no currículo escolar. Os momentos para discutir e apresentar sugestões a BNCC já aconteceram e contou com uma tímida participação dos educadores. Este documento encontra-se na última versão e em seguida passará pela apreciação do Conselho Nacional de Educação (CNE). Para o Ministério de Educação nova Base será a lei que definirá cerca 60% do conteúdo a ser ensinado na educação infantil e no ensino fundamental, chegará às escolas públicas e particulares em 2019.
Buscamos no próximo capítulo situar o leitor dessa pesquisa a respeito competência leitora dos estudantes do 5º ano de rede de ensino do município de Lapão, uma abordagem histórica da alfabetização no Brasil, a importância da leitura para a formação do aluno e a Prova Brasil como instrumento avaliador da competência leitora.
4 COMPETÊNCIA LEITORA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: