2. DISCURSO, PODER E POLÍTICA
2.2. Discurso e ideologia
2.2.1 O que diz N. Fairclough
Diante da constatação de que discurso e ideologia são componentes indissociáveis das práticas sociais que observa, Fairclough (2012) sistematiza uma série de preceitos teóricos que disciplinam a ADC como um tipo de análise de discurso que entende a semiose, enquanto construção de sentido por meio da linguagem, como parte irredutível dos processos sociais que se realizam nas práticas sociais de diversos tipos (econômicas, políticas e culturais, entre outras). Segundo o autor (2012, p. 308),
A concepção de práticas sociais nos permite combinar as perspectivas de estrutura e de ação – uma prática é, por um lado, uma maneira relativamente permanente de agir na sociedade, determinada por sua posição dentro da rede de práticas estruturada; e, por outro, um domínio de ação social e interação que reproduz estruturas, podendo transformá-las. Todas são práticas de produção, arenas dentro das quais a vida social é produzida, seja ela econômica, política, cultural, ou cotidiana.
Para Fairclough (2012), a semiose das práticas sociais é composta por três elementos que cooperam na produção de sentido: o gênero discursivo, como maneira de agir e produzir simbolicamente a vida social; o discurso, em sua materialidade linguística (texto), como representação da vida social; e o estilo, como maneira de ser (identidade) do ator social no desempenho de seu papel social. De acordo com Fairclough (2012, p. 310), pessoas de diferentes classes sociais, sexos, nacionalidades, etnias ou culturas, com experiências de vida diversas, desempenham discursivamente seus papeis de formas distintas, já que trazem consigo formas individuais e insubstituíveis de representação de si próprias, do mundo exterior e das práticas sociais particulares em que estão inseridas.
Nesse sentido, Fairclough (2016, p. 35-36) considera que a prática discursiva é a conexão entre o texto e a prática social: “de um lado, os processos de produção e interpretação são formados pela natureza da prática social, ajudando também a formá-la, e, por outro lado, o processo de produção forma (e deixa vestígios) no texto”. Considerando que, dialeticamente, o discurso reproduz e forma sistemas de conhecimento e crença, construindo ou mantendo relações sociais e revelando identidades dos atores envolvidos nas práticas sociais, Fairclough (2016, p. 106) afirma que a análise discursiva deve se desenrolar sobre “pistas no texto”. Para tanto, sugere o uso de categorias analíticas que permitem estudar a materialidade verbal do discurso e desvelar, nas suas diferentes estratégicas linguístico-discursivas, as ideologias e as identidades dos atores sociais envolvidos na sua produção.
Na análise do vocabulário, Fairclough (2016) leva em consideração o repertório mobilizado na construção do discurso e como essa seleção lexical colabora para a produção de sentidos. Sobre essas escolhas, o autor (2016, p. 250) chama a atenção para o uso da metáfora como estratégia que estrutura, de “forma penetrante e fundamental”, o modo como as pessoas pensam e agem, bem como os seus sistemas de conhecimento e crença.
Como exemplo de metáfora, Fairclough (2016, p. 250) recorre a Lakoff e Johnson (1980) para mencionar a lexicalização feita em torno de uma discussão entre duas ou mais pessoas, na qual várias expressões usadas na argumentação remetem a uma guerra, tais como “afirmações indefensáveis”, “ir direto ao alvo”, “atacar o ponto fraco do outro” ou “demolir seus argumentos”. De acordo com Fairclough (2016, p. 250),
as metáforas não são apenas adornos estilísticos superficiais do discurso. Quando nós significamos coisas por meio de uma metáfora e não de outra, estamos construindo nossa realidade de uma maneira e não de outra. (...) Algumas metáforas são tão profundamente naturalizadas no interior de uma cultura particular que as pessoas não apenas deixam de percebê-las na maior parte do tempo, como consideram extremamente difícil escapar delas no seu discurso, pensamento ou ação (...).
Na observação da gramática, Fairclough (2016) analisa a organização das palavras em orações, que podem, por exemplo, dar ênfase ao sujeito ou ao objeto de determinada ação em razão da opção pelo uso da voz ativa ou da voz passiva. Nesse caso, o pesquisador pode observar, segundo o autor (2016), se há a intenção de realçar a agência do indivíduo ou, a contrário, apagar a sua participação ativa em determinado acontecimento. Ainda no âmbito da materialidade do texto, Fairclough (2016) afirma que é possível observar, também, os elementos sintáticos de coesão que estabelecem relações de sentido entre as orações, como as conjunções e os pronomes anafóricos.
No estudo da estrutura textual como categoria de análise, o autor (2016) considera os aspectos constitutivos do discurso no que se refere à sua forma de organização. No caso de uma reportagem publicada em jornal, por exemplo, é preciso observar, segundo Fairclough (2016), o tratamento editorial que o texto noticioso recebe, revelado na ordem de apresentação dos fatos, no menor ou maior grau de destaque atribuído às informações, na diagramação do texto e na escolha do título, entre outros elementos. Aplicando o parâmetro da estrutura textual à análise das estratégias linguístico-discursivas de posts publicados em redes sociais digitais, torna-se relevante observar, além desses aspectos, as escolhas do produtor do discurso em relação ao estilo de linguagem utilizada (formal ou informal), ao uso de imagens e elementos multimodais complementares ao texto, à reprodução de hiperlinks e ao uso de expressões escritas na forma de hashtags, que categorizam (indexam) as publicações e remetem o interlocutor a repositórios que reúnem outros conteúdos publicados sobre o mesmo tema.
Ao analisar a prática discursiva, considerando o texto como representação simbólica produzida no contexto de interações sociais específicas, Fairclough (2016) cita a força do enunciado como categoria de análise que se volta para o tipo de “ato da fala” motivador da enunciação. Trata-se de observar a identidade social dos atores envolvidos na interação, a relação entre eles e a intenção presumida na situação interacional. De maneira simplificada, observar a força do enunciado significa, para o autor, identificar se o texto traz uma ordem ou comando, um pedido, uma instrução, um relato de experiência, uma informação oficial ou uma transcrição de falas, entre outras motivações, e, a partir dessa definição, inferir os processos específicos de produção, distribuição e consumo textual que condicionam o discurso e a
interação estabelecida. No caso dos textos que circulam no bojo de campanhas eleitorais, por exemplo, a força do enunciado pode estar diretamente relacionada à sua capacidade de engajar o interlocutor em movimentos de apoio aos candidatos, por meio de linguagem persuasiva marcada por verbos no imperativo ou de falas que mobilizam a emoção do eleitor, buscando a sua identificação afetiva com os atributos pessoais dos candidatos.
Em outro nível de análise, a coerência, segundo Fairclough (2016), é uma categoria de análise que permite observar os sentidos produzidos pelos textos mesmo quando seus autores não fazem marcações formais e explícitas de suas intenções. De acordo com o autor (2016, p.113),
Princípios interpretativos particulares associam-se de maneira naturalizada a tipos de discursos particulares, e vale a pena investigar tais ligações devido à luz que jogam sobre as importantes funções ideológicas da coerência na interpelação dos sujeitos. Isto é, os textos estabelecem posições para os sujeitos intérpretes que são “capazes” de compreendê-los e “capazes” de fazer as conexões e as inferências, de acordo com os princípios interpretativos relevantes, necessários para gerar leituras coerentes. Tais conexões e inferências podem apoiar-se em pressupostos de tipo ideológico.
Relacionada a sentidos implícitos ou referenciados nos textos, a intertextualidade também é citada por Fairclough (2016, p. 119) como categoria de análise do discurso útil à perspectiva que observa os enunciados como interação social. Para o autor, textos dotados de intertextualidade são aqueles cuja composição inclui fragmentos de outros textos, os quais podem ser apresentados explicitamente na forma de citações, aparecer misturados ao discurso na forma de paráfrases ou ser mencionados por meio de insinuações, ironias ou outras formas de linguagem que fazem referência a conhecimentos partilhados ou a conteúdos previamente enunciados. Fairclough (2016, p. 119) afirma, ainda, que “não é apenas o texto, nem mesmo os textos que intertextualmente o constituem, que moldam a interpretação, mas também os outros textos que os intérpretes variavelmente trazem ao processo de interpretação”. Nesse sentido, recorre a Bakhtin (1986, p. 89, apud Fairclough, 2016, p. 140) para lembrar que a fala é
preenchida com palavras de outros, variáveis graus de alteridade e variáveis graus do que é de nós próprios, variáveis graus de consciência e de afastamento. Essas palavras de outros carregam com elas suas próprias expressões, seu próprio tom avaliativo, que nós assimilamos, retrabalhamos e reacentuamos.
Outra forma de intertextualidade que interessa à ADC, segundo Fairclough (2016, p. 162), é o tipo de pressuposição que incorpora, tacitamente, outros textos do produtor do discurso, textos de terceiros ou textos “nebulosos” que correspondem a opiniões ou a algo que as pessoas “tendem a dizer”. O autor alerta que as pressuposições de natureza intertextual podem ser sinceras ou manipulativas, contribuindo, essas últimas, para a “constituição ideológica dos sujeitos”.
Por fim, Fairclough (2016, p. 164) menciona o metadiscurso como intertextualidade que situa o falante “acima ou fora de seu próprio discurso e em uma posição de controlá-lo e manipulá-lo”. Por meio desse mecanismo, o produtor do discurso distingue níveis diferentes dento do seu próprio texto, distanciando-se de alguns deles para colocar-se na posição de quem deve traduzi-los, modulá-los (como feito por meio de expressões evasivas como “espécie de” ou “tipo de”) ou referenciá-los (como quando se afirma “como X poderia ter dito isso”), entre outras estratégias. Nesse sentido, o autor de um texto recorre ao metadiscurso, por exemplo, quando introduz ou explica o próprio texto ou o texto de terceiros, para posicioná-los em determinado contexto. Esse último aspecto, segundo Fairclough (2016, p. 164), configura “uma engenharia semântica” que pode ser utilizada para parafrasear, descrever, esclarecer ou destacar enunciados de forma enviesada e, portanto, ideológica.