3 BIOGRAFIA DA BALA
3.3 O que dizem as balas perdidas?
Há nesse ínterim, ainda, um aspecto relevante e pouco explorado até agora que explicita um conjunto de percepções acerca do tiroteio e sua relação, inclusive, com o mundo externo da favela: as balas perdidas. Termo este que, se analisado a fundo, pode demonstrar uma perversa lógica de enclausuramento e regionalização da violência contemporânea. Daniele Oliveira, por exemplo, no trabalho intitulado ““bala perdida”: A construção social-midiática e os protocolos práticos de análise institucional do Instituto de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro”, corrobora com tais reflexões ao analisar o processo de construção social da categoria ““bala perdida””, sua incorporação nas análises estatísticas oficiais no estado do Rio de Janeiro e as respectivas interfaces com os veículos de comunicação. Esclarecendo que, em paralelo aos processos sociais mencionados no primeiro capítulo deste trabalho, quanto ao processo de favelização no Rio de Janeiro,
foi na década de 80 que a expressão “bala perdida” foi inserida pela mídia, para indicar quando alguém fosse lesionado ou morto por disparo de arma de fogo de origem desconhecida. Ao longo do tempo essa expressão e seu significado foram incorporados a documentos oficiais, adquirindo legitimidade. Definição de “Bala” no contexto tratado é a expressão popularmente utilizada para designar projétil, objeto que se arremessa para ferir, matar, destruir, algo ou alguém, por meio de armas de fogo (OLIVEIRA, 2016, p. 18).
Absorvendo, ainda, no aprofundamento de suas análises, as definições do colunista jurídico João Baptista Herkenhoff, o qual afirma que
a “bala perdida” é a bala sem rumo, que não estava endereçada àquele que pela mesma foi alcançado. Fica assim entendido que é “vítima de “bala perdida”” a pessoa que teve a desdita de estar no lugar errado, na hora errada, e que por este motivo recebeu o impacto do artefato que lhe causou ferimentos ou morte (HERKENHOFF, 2014).
Ambas as definições são relevantes para a presente análise, ainda que relativamente contrárias. A primeira protagoniza a tipificação de “bala perdida” a partir de um desconhecimento de origem, enquanto a segunda volta-se aos desfechos de seus destinos.
Contudo, ambas parecer ser assertivas ao pressupor que a construção social do conceito explicita que o termo – em origem ou destino – está relacionado a um momento de imprevisibilidade no tiroteio, seja de quem atira ou de quem é atingido. Isso, por contrário,
pressupõe também uma noção de existam “balas achadas”, fazendo parte de um dos fatores constitutivos dos tiroteios. Pois, se estar no “lugar errado” expõe os cidadãos às miras desplanejadas da violência urbana, estar nos “lugares certos” reitera a noção de que os tiroteios têm em suas representações os locais, os indivíduos e as consequências determinadas em seus pressupostos. Ou seja, o atingimento – de traficantes e policiais – e suas respectivas possibilidades de vitimização parecem fazer parte das regras do jogo.
Entretanto, não é apenas no bojo das representações sociais que este termo encontra seus respectivos significados, em suas análises Oliveira (2016) avança ainda no detalhamento da produção das estatísticas oficiais sobre estes casos, à exemplo da metodologia de tradução das ocorrências de ““bala perdida”” nos “Relatório Temático de “bala perdida”” desenvolvidos pelo Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, em que
as ocorrências criminais são registradas pela Autoridade de Polícia Judiciária de acordo com a tipificação adotada pela legislação penal brasileira, que não inclui a categoria ““bala perdida””. Diante disso, optou-se por utilizar o campo “Dinâmica dos fatos” para identificar, dentro do universo composto pelos Registros oriundos de todas as Delegacias Policiais do estado do Rio de Janeiro, aqueles que contivessem a expressão ““bala perdida””.
Para melhor esclarecimento, o campo “Dinâmica dos fatos” é o espaço reservado à descrição detalhada da ocorrência, a ser feita pelo policial responsável pela confecção do Registro de Ocorrência (RO) na Delegacia Policial, após os relatos das partes envolvidas. Cabe ressaltar que a categoria ““bala perdida””, empregada aqui com fins metodológicos, é produzida pelo senso comum, não constituindo conceito jurídico ou sociológico. Fica entendido como “vítima de “bala perdida”” a pessoa que não tinha nenhuma participação ou influência sobre o evento no qual houve disparo de arma de fogo, sendo, no entanto, atingida por projétil e podendo vir a falecer ou não. Neste trabalho, a expressão “Operação Policial” deve ser entendida como uma ação policial de natureza extraordinária, previamente planejada, e o termo “Confronto”, como o resultado da reação armada a uma ação ordinária das Polícias Militar ou Civil, no cumprimento de sua principal missão constitucional. No caso da Polícia Militar, o
“Confronto” é uma reação ao policiamento ou patrulhamento ostensivo, e no caso da Polícia Civil, às ações de investigação e persecução criminal, como, por exemplo, o cumprimento de mandados de busca e apreensão, e de mandados de prisão. É importante ressaltar que a diferenciação entre tais termos tem finalidade exclusivamente metodológica, uma vez que, na prática, o confronto pode ocorrer em ambos os casos.
É necessário observar que o preenchimento dos RO é afetado pela subjetividade de quem relata o fato e de quem faz o Registro. Portanto, alguns casos de homicídio e de lesão corporal que seriam caracterizados como decorrentes de ““bala perdida””
podem não apresentar esse termo no seu Registro. O mesmo pode ocorrer em certos episódios identificados inicialmente como resultantes de ““bala perdida””: após a investigação, estes revelam ser fruto de dinâmica distinta. (TEIXEIRA; OLIVEIRA;
PROVENZA, 2001, p. 3).
Dito isso, é viável também a compreensão de que o tiroteio tem, talvez até de forma mais expressiva fora das fronteiras da favela, a experiência da ““bala perdida”” enquanto mais um modelo de vivência social. Quanto a isso, cabe ressaltar que a presente pesquisa não se aprofundou nas percepções externas sobre balas perdidas, sendo apenas abordada no próximo capítulo de forma transversal, uma vez que elas se constituem enquanto motivações para o desenvolvimento de novas tecnologias na abordagem de questões afetas aos tiroteios. Dessa forma, neste momento, tornam-se mais relevantes para esta pesquisa as compreensões internas sobre os conceitos de “bala perdida” e seus respectivos impactos na sensação de segurança dos moradores e policiais.
Na época da guerra (2006) eu quase nunca deixava minha filha sair de casa. Como o tiroteio tinha hora para começar, eu preferia que eles ficassem aqui comigo. Todo dia, cinco da tarde, com todas as crianças subindo da escola, começava aquele pipoco. Ai um dia ela pediu para ir na casa da amiguinha dela, eu não queria deixar, mas a mãe da menina me ligou dizendo que elas iam estudar, acabei deixando. Não deu outra, cinco e pouca começou o tiroteio. Eu só escutei um barulho muito forte de estouro na parede. Quando parou o vucovuco eu fui ver e uma “bala perdida” tinha entrado no quarto dela, bem na reta da mesinha do computador, onde ela ficava estudando. Eu olhei para o buraco na parede e desmaiei na hora. Sabia que se ela estivesse em casa a bala teria acertado na cabeça dela e eu não teria mais minha filha aqui. Foi Deus mesmo, só pode. Depois daquele dia, ela não saiu mais, ficava sempre comigo (Trecho de fala de moradora).
Desta forma, a efetivação de casos envolvendo balas perdidas torna-se uma dimensão relevante nas considerações sobre as mediações externas (CAVALCANTI, 2008) que influenciam nas percepções sobre segurança local. O que, consequentemente, torna a compreensão sobre a possibilidade das ocorrências ou, até mesmo, a vivência remota dos confrontos (por estímulos sonoros) experimentações que transitam nas linhas de risco e perigo, como trabalhado acima. Pois, após um primeiro momento de apreensão das possibilidades de recorrência dos tiroteios, eventos resultantes em “bala perdida” acabam propiciando um repertório quanto à possibilidade de vitimização deles decorrentes. Demonstrando, assim, o mesmo dinamismo abordado no primeiro capítulo referente às representações socioespaciais sobre casa e forte.
O que parece acontecer da mesma forma, ainda que em graus distintos, com os agentes de segurança. Uma vez que foi perceptível na fala dos policiais que a recorrência dos confrontos armados nas operações e incursões policiais poderia contribuir para uma desvinculação da representação sobre morte como consequência dos tiroteios. E neste sentido, os casos de
tortura56 de agentes de segurança por parte dos traficantes, bem como o elevado índice de vitimização policial no estado do Rio de Janeiro57, acabam constituindo-se também em mediadores externos. O que, neste sentido, ultrapassa as noções de risco e perigo tratadas acima e acabam fomentando uma materialização destas noções em ações policiais. O que me fez retornar, por exemplo, na reflexão sobre os desdobramentos dos eventos de vitimização policial, como o descrito e vivenciado na favela do Vidigal.
Em uma tentativa de simplificar este raciocínio, esclareço que foi ponderado por muitos agentes ao longo dessa pesquisa a relevância dos eventos de tortura nestas avaliações. Casos que tratavam de situações onde os policiais eram reconhecidos em alguma abordagem criminal, capturados e torturados por traficantes, tido em suas palavras como “judiação”. Essa conjuntura parecia, de início, conferir uma lógica contraditória de pensamento (e ação). Pois, ao passo que instituía a possibilidade da morte no âmbito da instituição como um fator de grande influência na orientação das atividades policiais, nas respostas à vitimização policial como abordado por Husek (2017), parecia conferir também uma atenuante para as mortes decorrentes da
“trocação”58. Ou seja, era preferível morrer no confronto do que na “judiação”. Uma vez que,
os confrontos recorrentes também podem gerar uma sensação de anestesia nos policiais, que pode se traduzir em um excesso de ousadia, destemor ou até mesmo insensatez, fazendo com que o policial se coloque mais em situações de perigo. Por outro lado, a revolta ou a raiva gerada após perder um colega também influencia na atuação policial, mas nesse caso gerando uma vontade de fazer algo, que foi se traduzindo em muitas entrevistas como um desejo de vingança (HUSEK, 2017, p.
153).
Evidenciando o que parece ser um processo análogo ao tratado no âmbito dos moradores, no que diz respeito à construção de seus repertórios para as distinções de noções sobre risco e perigo. Fazendo assim que a anestesia, como tratado por Terine Husek, fosse também influenciada por experiências onde o tiroteio não era sucedido de nenhum evento letal, como ponderado no seguinte exemplo:
Dependendo da comunidade, o cara deixa você entrar e nem troca (tiros) direito. Ai quando tu passa ele fecha as entradas e mete bala. Uma vez, há muito tempo, tiveram que chamar o Bope pra atender uma ocorrência. Os caras chegaram e tinha uma RP (Rádio Patrulha) encurralada lá na subida e tal, ai foram e subiram. Eles chegaram, ai todo mundo no rádio prioridade né, os caras tentando descer e foguetão. Ai o maluco do radinho dava tiro e o pessoal, ai ó tá vendo ai, e quem é que vai. Bope subindo, o pessoal avisou, olha estão atirando bem pra caramba, mas vai lá, é com ele mesmo.
56 Para ver mais https://oglobo.globo.com/rio/policial-sequestrado-por-traficantes-relata-como-foi-agredido- torturado-22832664; https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/11/25/pm-torturado-por- traficantes-no-rio-pediu-ajuda-a-amigo-antes-de-morrer.htm
57 Para ver mais: Relatório Vitimização Policial (1998 a novembro de 2015) do Instituto de Segurança Pública.
58 “Trocação” trata de um termo próprio dos policiais para referir-se aos confrontos armados.
Só ouvia no rádio “o Pé Preto (menção aos policiais do Bope) pode subir!”. Foi bala pra cima de todo mundo. Naquela hora nem o Bope entrou porque os caras atiravam muito. Só que os caras davam tiro só de sacanagem, para brincar com a vida da gente mesmo. Ai quado o Bope saiu mandaram um radinho falando rindo “tá tranquilo, pode descer” e liberaram a RP. Fizeram tudo só de sacanagem, para se divertir. Ai depois teve uma operação forte, veio Bope, Getam, BPChoque (Relato de entrevista com policial).
Ilustrando um quadro onde eventos de “judiação” e de “sacanagem”, como o mencionado acima, propiciam distintos estímulos à representação policial sobre o tiroteio. Os confrontos armados que são muitas vezes abordados por conta dos níveis de adrenalina e gozo de masculinidade por ele propiciados pode ser tido, também, como uma forma de fugir da
“judiação”. Demonstrando, por fim, que as balas perdidas e a vitimização acabam por possuírem determinado grau de agência na representação e atuação de moradores e policiais na compreensão sobre tiroteios.