4.6 OS PROFESSORES COMO AGENTES DAS ESCOLAS NO CAMPO
4.6.1 O que dizem os professores sobre a escola
Em consonância com a identificação dos elementos constitutivos das escolas públicas e privadas, as falas dos entrevistados revelam um conjunto de realidades que interage diretamente com a maneira como a Sociologia tem sido ensinada em sala de aula. Nessa direção, as palavras dos professores expressam os conflitos e as tensões vivenciados no cotidiano nas escolas. Os que trabalham nas escolas públicas expressam mais autonomia no que se refere à decisão de como ensinar. Já os que trabalham nas escolas privadas precisam se adequar às demandas de cada espaço para permanecer na condição de contratado.
Para discutir essas questões, seguem as informações sobre como se dá a relação de trabalho na escola, se a hierarquia escolar pode influenciar na prática docente, quais seriam as demandas e os principais desafios para essa disciplina, como os alunos podem influenciar as práticas educativas, se os agentes da escola reconhecem o papel da Sociologia e até que ponto que essas questões podem repercutir nas práticas educativas.
Quadro 22 – Os professores e as escolas públicas e privadas
Questões Falas dos entrevistados Elementos significativos Em relação à escola, qual a sua relação no trabalho e os principais desafios?
Interessante porque já trabalhei em dois tipos de escolas, atualmente estou na Escola Estadual da zona leste três que é uma escola polo de Natal, mas também já trabalhei em outra realidade a do interior, e isso por si só já diferencia. Há de se levar em conta que são problemáticas de vários âmbitos, a do
Não faz referência aos processos hierárquicos. Os desafios apresentados estão no campo da realidade dos alunos.
estudante em si, do modelo educacional e da estrutura escolar.
[...] Em relação aos estudantes o grande desafio é sempre atraí-los, mostrar a eles a importância do estudar a Sociologia e isso tem que ser feito através da relação dos conceitos, dos conteúdos a realidade deles. [...]
[...] o corpo docente e a estrutura escolar imprimem tanto demandas quanto dificuldades influenciadas de acordo com a localidade (Professor Júlio).
Os desafios postos são locais. Se apresentam de acordo com cada realidade.
Como a sua condição de servidor ou de empregado CLT dentro desse contexto de relações hierárquicas influencia na sua maneira de ensinar ou dos companheiros que você observa no cotidiano das escolas?
No privado existe uma cobrança e você tem formações que a escola particular exige e que você pode por em prática aqui na escola pública [...].
[...] hierarquia é uma forma de organização, de diálogo, porque quem está em uma posição hierárquica superior acho tem condições de orientar os seus subalternos para um melhor funcionamento, no nosso caso aqui no processo ensino/aprendizagem.
[...] Acho que a hierarquia é necessária. Na instituição pública ela é mais flexível, mais fragilizada. Não querendo julgar os colegas, mas a gente ver professores que alguns chegaram tentando fazer alguns trabalhos e com as dificuldades foram desestimulando (Professor Marcos).
O docente atua nas escolas públicas e privadas.
Valorização da hierarquia como elemento de organização do trabalho A hierarquia surge como mais flexível nas escolas públicas
Qual seria a influência da sua relação de trabalho na escola com a sua maneira de fazer a Sociologia? (Privado e Público)
Na escola pública eu não tive tanta interferência, tive mais dificuldades de trabalhar na esfera privada, porque além das aulas serem muito limitadas, houve momentos que tive que dividir a aula, uma semana era Sociologia e na outra era o professor de Filosofia, então, você imagina a dificuldade para um programa extenso como o de Sociologia. Eu sempre digo que a maior dificuldade não é a que se faz na proposta do professor, o professor tem liberdade na escola pública, pelo menos até hoje.
Estou com quinze anos de estado, passei por uma dezena de escolas, nunca ninguém tentou questionar o que é que estou ensinando e por que estou ensinando, então, vejo isso como algo positivo no sentido de que é uma confiança em mim, e vejo negativo porque pode ser algo que as pessoas achem sem importância (Professor João).
O docente atuou nas escolas privadas.
O professor tem liberdade de organizar seu trabalho pedagógico.
A liberdade do trabalho pedagógico do professor de Sociologia pode ser positiva e negativa.
O ponto negativo destacado se refere a possibilidade de os agentes não darem importância ao ensino de Sociologia, não se importando com a forma que é trabalhado em sala. De que maneira a sua condição de professor concursado influencia na sua prática docente?
O fato de ser concursado me traz uma tranquilidade maior para trabalhar [...] A tranquilidade do concurso é boa, mas que fica muito subjetivo. [...]
Acho que isso tem muito a ver com o papel da educação no estado, o que o estado espera. O indivíduo que não é concursado, que trabalha no setor privado, existe o foco, os alunos no sentido de prestar contas para o Enem, coisas desse tipo. Em tese no estado não temos essa pressão, mesmo que o professor queira adotar,
A autonomia do trabalho do servidor público é destacada. Descreve que no setor privado existe uma maior cobrança por resultados do trabalho docente.
que é uma experiência na qual o professor chega animado para trabalhar, no geral o ambiente escolar diz não.
A subjetividade que me refiro é que além da liberdade de cada um, porque hoje no estado você pode escolher em dar aula de Sociologia ou de matemática e ninguém vai questionar, o que estou querendo dizer é que isso faz com que você fique tranquilo para trabalhar com o que acha que seja melhor forma o mais correto em relação a conteúdos e conhecimentos. [...] A segurança do profissional quando ele é concursado é outra, o tipo de trabalho dele com relação à forma de abordar cada conteúdo fica muito mais visível, ele se posiciona, expõe sua opinião, a forma que o conteúdo é organizado, muda de acordo com o que ele acredita, não só na Sociologia como também em outras disciplinas (Professor José).
Destaca que no setor público não existe “pressão” ao trabalho docente.
As pessoas da escola pública não questionam os conteúdos que são trabalhados no ensino da Sociologia.
O professor tem a liberdade de se posicionar em sala de aula conforme sua visão de mundo. A hierarquia da escola na sua condição de CLT pode influenciar na sua maneira de ensinar?
Influência sim, porque existe a discussão de que por serem alunos que estão pagando, a quem a escola vai dar voz, aos alunos que fazem a escola ou aos professores que apesar de também fazerem parte dessa escola, podem ser substituídos rapidamente? O que não acontece necessariamente da mesma forma com a saída de alunos. Então, acho que a escola fica muito nesse sentido, para nós professores a escola apresenta que defende o seus professores mas que na prática o alunos passam a ter mais direitos do que são cordados por contratos assinados [...].
No entanto, a hierarquia direta que também participo, é feita pela orientadora pedagógica das três series e a coordenadora geral, que me dão total liberdade para fazer meu trabalho, não limitam meus assuntos ao contrário me incentivam a abordar questões problematizadas na sociedade, no intuito de explicar aos estudantes que a realidade na qual eles e estão inseridos não caiu do céu, ela foi criada e inventada pelos indivíduos que aqui estão. Nesse sentido eu me sinto muito aberto pra trabalhar não com o que quero, mas de acordo com os livros da Sociologia, os documentos, com a proposta que é própria da Sociologia (Professor Rogério).
Professor de escola privada. A condição de trabalho influencia as práticas educativas do docente de Sociologia.
Existe uma ênfase nas demandas dos alunos no espaço.
Apesar das questões acima destacadas, afirma que a orientação pedagógica possibilita uma autonomia ao trabalho docente. De que forma essa relação de trabalho não concursada influência o cotidiano das suas aulas, as suas relações e autonomia no processo ou no espaço escolar?
É um ponto importante, na Instituição que tenho duas aulas eu tenho autonomia de fato de trabalhar no processo, a hierarquia existe, mas não existe influência nos conteúdos trabalhados. Já na outra instituição que é uma aula por semana, de fato há essas implicações, uma das principais é a cobrança do que se deve ser trabalhado no ENEM e principalmente a questão dos estudantes enfatizarem determinadas situações em que o professor perde autonomia do processo. [...].
Um dia, um grupo com quatro alunos foram a diretoria informar que eu estava deixando de
Reconhece a existência das relações hierárquicas, destacando a autonomia na escola dos conteúdos por parte do professor.
Ao fazer referência a outra instituição privada que trabalha, revela que a condição de autonomia do trabalho docente é limitada
dar aulas para trabalhar temas de redação, eu fui advertido, sinalizado, uma vez que isso não acontecia de fato, pelo contrário: eu mostrando que um dos fatores que contribuem para o abstrato e do artesanato intelectual dentro da redação do ENEM é a argumentação que o conhecimento sociológico filosófico oferece. Isso demonstra que lá as relações de hierarquia são bem determinadas e consequentemente a cobrança tira sua autonomia dentro do processo (Professor Manuel).
em função da cobrança por resultados no ENEM.
O docente foi denunciado pelos alunos por não estar, na opinião deles, trabalhando temas relacionados a redação.
Essa situação reforça a fragilidade de autonomia que o docente tem ao trabalhar nas escolas privadas.
Fonte: Dados da pesquisa
As falas identificadas nas entrevistas do Quadro 22 revelam o quanto as escolas públicas e privadas e a ação dos agentes que atuam em seu interior repercutem na maneira como o docente da disciplina de Sociologia encontra apoio para as suas práticas, enfrenta empecilhos, adequa-se às demandas, vive ou não uma condição de autonomia.
As falas dos professores das escolas públicas expõem que o contexto das relações de trabalho, das demandas para a educação, repercute em certa autonomia dos professores ao ensinar a Sociologia. É o que revela o professor Júlio, ao não fazer referência às questões hierárquicas na escola, apesar de ter sido questionado sobre sua existência.
O docente pontua que um dos principais desafios do ensino da Sociologia está relacionado a própria realidade dos alunos. Essa “realidade”, como pontua o docente, pode ser compreendida como suas condições sociais de moradia, acesso a bens culturais etc. Ao considerar essas condições, a fala do professor revela que o seu planejamento tem sido construído de maneira comprometida com a aprendizagem dos alunos, possibilitando que os conhecimentos sociológicos sejam acessados pelos jovens, independentemente das suas condições sociais.
O professor Marcos, afirmando que nas escolas públicas as questões hierárquicas se manifestam de maneira mais flexível, defende o papel da hierarquia nesse setor como elemento de organização do processo ensino/aprendizagem. Por sua vez, o professor João, que teve uma experiência de trabalho nas escolas privadas, afirma que, na escola em que atua (na pública), tem liberdade de organizar suas práticas educativas. Porém, segundo ele, essa “liberdade” ao mesmo tempo que pode ser considerada “positiva”, revelando certa confiança no educador, pode ser vista
também como “negativa”, uma vez que ela pode resultar da não importância que os agentes dão ao ensino de Sociologia na escola. Ou seja, ao não se preocupar com a forma que o trabalho do professor é organizado, a escola pode expressar tanto uma confiança na autonomia docente quanto uma ação que negligencia essa disciplina e o seu representante.
No setor público, segundo o professor José, não existe “pressão” ao trabalho docente. Os profissionais que trabalham com ele nem mesmo questionam quais os conteúdos que são ensinados na Sociologia. Essa condição permite que os docentes tenham a liberdade de se posicionar em sala de aula conforme sua visão de mundo. Para o docente, isso se dá principalmente em função da “segurança profissional do concursado”.
Podemos verificar interpretações diferentes nas falas dos docentes das escolas privadas. Por exemplo, para o professor Rogério, a escola privada em que trabalha influencia em suas práticas educativas em sala de aula. Isso ocorre quando a instituição, enfatizando as demandas dos alunos no que se refere à capacitação para os exames como o ENEM, prioriza atividades vinculadas ao rendimento ou aos resultados escolares. Mesmo reconhecendo que a escola estabelece um controle sobre as atividades que o professor deve realizar, o entrevistado afirma que a orientação pedagógica tem garantido a autonomia do seu trabalho docente. Essa afirmação do professor parece se contrapor ao que vem sendo identificado na pesquisa: os docentes das escolas privadas têm cada vez menos autonomia de planejar suas práticas educativas de acordo com o papel da disciplina que acreditam. Segundo o professor Manuel, mesmo fazendo referência à autonomia que uma das escolas em que atua dá ao seu trabalho, ressalta que as relações hierárquicas e de poder são presentes em seu cotidiano. Isso porque, em outra instituição privada em que exerce a função de professor, a condição de autonomia do trabalho docente é limitada em função da cobrança por resultados no ENEM. Ele comenta que já foi “advertido” pela escola como resposta da instituição à reclamação de um grupo de alunos que afirmou que o docente não estava trabalhando temas relacionados à redação. Para Manuel, essa situação reforça a fragilidade de autonomia que o docente tem ao trabalhar nas escolas privadas.
4.7 O QUE DIZEM OS PROFESSORES SOBRE OS ALUNOS E O ENSINO DA