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4. Elementos aproximativos entre escritos do Antigo Oriente e a profecia de Amós

4.1. O que existe na profecia de Amós que se distingue dos

Conforme vimos nos textos da literatura referente a povos do Antigo Oriente Médio, há uma série de medidas que se aproximam de uma sensibilidade humana e social, visando eliminar injustiças cometidas contra pessoas social e economicamente debilitadas. São, segundo constatamos, documentos e declarações que parecem animadoras do ponto de vista social. De modo geral, direcionam-se para uma busca de equidade e retidão, em vista de garantir o direito e a proteção do órfão, da viúva, do pobre e oprimido dentro da sociedade. Há, porém, reservas quanto a uma visão otimista dos procedimentos de soberanos e nobres, descritos nos editos e textos acima listados, sejam do Egito, da Mesopotâmia e outras regiões. Na realidade, tais escritos apregoam uma justiça útil, pendendo muito mais para um individualismo do que mesmo para uma sensibilidade em relação a valores de caráter social.279

Entre estas medidas, citaremos algumas que merecem críticas, por nos permitirem constatar limites nas motivações e intenções que estão por trás dessas, na busca do

278 AMSLER, 1992, p. 31. 279 EPSZTEIN, 1990, p. 33.

estabelecimento de uma justiça social. Com relação a alguns editos, como os que decretavam anistia de dívidas, supressão de impostos ou taxas prescritas por algum governante, o que vemos é que, entre outras ações que beneficiavam as camadas populares de renda baixa que viviam em situação de miséria ou endividamento, tais medidas visavam apenas abolir temporariamente os efeitos nocivos do sistema, sem interesse, ao que parece, de modificá- lo.280 A esse respeito, questiona-se ainda que essa supressão de dívidas e extinção de encargos

por parte do rei, uma vez que essa prática era algo sempre esperado no início de um reinado. O novo soberano interessado em dispor favoravelmente o povo, a partir de um exame das contas de seu predecessor, mostrava nas falhas da administração anterior o caos existente, que pretendia transformar em cosmos. Com isso ele se apresentava como aquele que pretendia reestabelecer a equidade no decorrer do seu governo, buscando com isso uma receptividade por parte dos beneficiados com tais medidas.281 Ou seja, o censo comum era de que o rei ou

governante tinha como dever maior zelar pela causa dos pobres, que era a imensa maioria da população do seu reino. Portanto, falar dos benefícios realizados em favor dos pobres era sempre um grande fator de grande propaganda da benevolência dos reis de turno. É dessa situação que se pode entender melhor o constrangimento que causava um profeta quando ele ia ao portão da cidade, diante de todos, a desmentir o rei.

Ainda sobre os motivos e intenções de editos em fazer prevalecer o direito público, como o Código de Hamurábi, de Ur-Nammu, de Lipit-Istar, tudo indica que havia fórmulas ou modelos de escrito feito por pessoas profissionais contratadas para isso. Segundo Léon Epsztein citando J. Klima falando a esse respeito, temos o seguinte:

Este autor leva-nos a observar o fato de que a intenção de prevalecer o direito público, que aparece em Hamurábi, já fora evocado de maneira assaz semelhante pelo rei Ur-Nammu no século XXII e pelo rei Lipit-Ishtar no século XIX. Se a isto acrescentarmos outras analogias, como, por exemplo, o princípio de proteção das viúvas, dos órfãos, dos pobres... “esta semelhança muito flagrante sugere-nos a conjectura de uma prática estabilizada nas escolas dos escribas, de onde provinham os redatores das obras legislativas; prática que fora retomada de uns por outros, muito formalmente, pelo fato de exprimir melhor a intenção do soberano, intenção inalterável através dos séculos. Os esforços dos soberanos inclinavam-se para a consolidação de seu império e do seu poder pessoal. Por esse motivo, apreciavam e exploravam todos os meios que podiam servir para esta finalidade”.282

Fazendo referência especificamente ao Código de Hamurábi quanto a seus decretos que beneficiavam a população, há a ideia de que tais decretos, na verdade, tinham por trás

280 EPSZTEIN, 1990, p. 22. 281 Ibid., p. 24.

interesses de popularizar o reino a fim de torná-lo estável e não tanto motivos humanitários ou de justiça. Ou seja, o que se queria com as ações de proteção da propriedade do povo simples era resguardar interesses do rei. O que era feito tinha sentido à medida que o estado daí tirasse vantagens.283 Nesse sentido é que se situam também críticas sobre leis e decretos das reformas

de Urukagina, que se identificavam favoráveis às camadas subalternas da sociedade, em relação a favorecimentos destes setores dentre os quais se recrutava o exército em caso de guerra, que tinha como interesse muito mais o fortalecimento militar do seu reino, do que favorecer setores das classes populares.284 Como estratégia Urukagina, que era mal recebido

pelas classes superiores, ganhava a simpatia do povo, fazendo um governo populista a fim de melhor opor-se a seus inimigos. Além disso, necessidades de ordem militar obrigou que Urukagina procurasse o apoio da classe operária, como camponeses, pescadores e pastores, compondo com eles o seu exército.285 Portanto, o motivo dessas reformas por parte de

Urukagina, com melhorias sociais em relação a favorecimentos de setores populares, era muito mais o fortalecimento do seu poderio militar.286

Sobre as autobiografias e inscrições encontradas em túmulos, proclamando atos de equidade e justiça, que são colocadas como modelo de preocupação social com os necessitados e famintos, o que se mostra com essas, muito mais que uma atitude desinteressada, é garantir a própria imortalidade do nome e da imagem do morto. Quanto às autobiografias e inscrições encontradas, feitas por um determinado soberano, proclamando um senso de equidade e justiça enquanto esteve no poder, estas tinham por objetivo garantir a sua própria imortalidade, correspondendo, portanto, a sentimentos nem sempre desinteressados.287 Uma prova de que os deuses ou tal divindade também eram a favor ou

exigiam do rei, seu ungido, às vezes filho, a prática da justiça em favor dos pobres. Portanto, ao ser desmentida tal prática pelo profeta colocava em risco a própria vida eterna do rei. No Livro dos Mortos, por exemplo, nas declarações de inocência do morto, havia a expressão de uma ética elevada, pela enumeração de uma longa lista de faltas que este alegava não ter cometido, não era senão uma fórmula mágica para os rituais, que permitiam ao morto evitar as consequências do julgamento. O interessado sequer precisava ter tido conhecimento do texto.

283 EPSZTEIN, p.50. 284 SICRE, 2011, p. 47. 285 EPSZTEIN, op. cit. p. 23. 286 SICRE, op. cit. p. 46. 287 EPSZTEIN, op. cit. 34.

Bastava que um rolo ou papiro no qual estivesse inscritas as palavras ficasse a seu lado no túmulo.288 Também aqui havia uma visão utilitarista e particular.

Chamando a atenção para os limites ou esvaziamento dessas promulgações, editos ou leis, como o Código de Hamurábi e a reforma de Urukagina, Léon Epsztein tece um comentário mostrando que sequer estes conseguiram pôr em prática suas famosas decisões em relação a justiça social, devido a complicações próprias do governo de cada um deles, cujos empreendimentos, além de chegarem tarde demais, bem depressa eram levados ao vento. Muitas vezes, tornavam-se dificilmente aplicáveis por serem na sua maior parte fórmulas estereotipadas que serviam, antes de tudo, à propaganda política de um soberano que procurava satisfazer a opinião pública.289

Outras vezes, o motivo pelo qual nobres cidadãos agiram com benevolência para com os necessitados, em parte estava ligado ao reconhecimento de que seus bens e sua condição de riqueza foram aumentados como dom de Deus. Ora, o que se vê aí refletido é uma convicção de justiça como algo fundamental nas relações sociais, mas, a partir de um espírito de moral utilitária e não uma compreensão de justiça presente nos profetas bíblicos.290

Levando em conta o caráter interesseiro que está por trás das ações de benevolência, justiça social e equidade intencionadas nos documentos e escritos que até agora tratamos, notamos que ao fazermos um paralelo entre esses e os textos proféticos, há uma grande diferença. Em primeiro lugar, por serem escritos muito mais com um caráter de autolouvor ou como estratégia política. Quando muito, numa dimensão religiosa com o que consideramos teologia da retribuição.

Se formos ver como se comportavam lideranças em Israel, como os reis, comparado ao que vimos acontecer no Antigo Oriente, encontramos, estampado no Antigo Testamento, passagens mostrando ser responsabilidade e dever do rei possuir e praticar a justiça (2 Sm 8,15; 1 Rs 10,9; Sl 72,1ss; Is 9,6-7). Isto se revelaria na proteção aos mais fracos na sociedade, como o pobre, o órfão, a viúva, o oprimido e o estrangeiro. Se tomarmos tais

288 EPSZTEIN, p. 54. 289 Ibid., p. 26. 290 Idem, p. 29.

textos, podemos avaliá-los como ideologia vinda do Antigo Oriente e proximidades ao redor de Israel? Em parte, é provável que sim.

A partir do profetismo literário como reação à crise social, enquanto “ética profética para um mundo sustentável”, o que acontece em Israel é que na experiência histórica de fé, todo o povo, portanto também as lideranças terão como referência a Eleição, o Êxodo e a Aliança e a partir dos quais deveriam pautar sua história. Todavia, segundo vemos nos profetas, não era bem isso o que acontecia. O diferencial se dará pela ética profética que tomará essa referência como critério norteador e avaliativo da prática das lideranças. Serão profetas como Amós, como porta voz do próprio Javé, que estarão atentos a aproximação ou afastamento histórico da Aliança e Eleição.

Enquanto nos escritos dessas antigas culturas do Antigo Oriente Médio constata-se uma série de interesses e uma visão utilitarista da justiça, com garantia de vida longa, riquezas, reconhecimentos e honrarias, além de vantagens pessoais ou para um governo, no caso de Amós o que vemos é o avesso. A grande parte resumia-se a palavras exortativas, distante do que temos como denúncias proféticas ou acusações, como se vê em Amós.

Até onde somos informados pelo próprio livro de Amós, este não tinha uma posição de político ou religioso para se sustentar, ganhar popularidade em vista de se manter em altos cargos à sombra do rei ou sobreviver à custa disso. Tampouco tinha uma pregação que lhe atraísse simpatizantes. Prova disso é que foi banido do lugar. Portanto, seus interesses estavam distantes de fazer qualquer propaganda de si, usando os pobres, enquanto plataforma política.

Contextualizando sua atuação dentro da situação de violação do direito e da justiça instalada em Israel e as consequências de tal situação, a voz profética de Amós quer ser um grito de condenação contra as estruturas sociais e seus representantes, que distorcem a justiça “à porta da cidade” (Am 5,10). Sua mensagem compromete-se na defesa do direito do pobre e do fraco, tendo como assento principal uma crítica social baseada no anúncio do juízo iminente de Javé, em virtude do evidente desvio ético enraizado numa prática de exploração e falta de retidão em Israel. A responsabilidade disso tudo recaia sobre um número considerável daqueles que participam do Estado, tirando proveito próprio sobre a miséria exploração dos

pobres.291 E são esses mesmos quem se consideravam merecedores da aliança firmada por

Javé, que nada abalaria.

Contudo, o diferencial presente na profecia de Amós assenta-se no apelo ético – religioso que faz ecoar a exigência de que fé e compromisso com a justiça são inseparáveis. Mas, o que acontecia em Israel era o oposto. O auge político e econômico fez com que Israel se tornasse rico e próspero, mas com um agravante: a injustiça impera com toda crueldade, a começar palas autoridades que como representantes do povo que deveria ter como função zelar belo bem estar comum da coletividade. Quando na verdade o que fazem é provocar um “total terror” na vida do povo. É nessa ocasião que ressoam as palavras incisivas de Amós, anunciando um juízo da parte de Javé sobre Israel, por seus pecados sociais e porque a aliança com Javé não vigora mais.

Tal situação, do ponto de vista religioso, soa como ingratidão da parte de Israel, contrastada antiteticamente com a ação libertadora de Deus na história do povo (2,9-16). A injustiça legal e a opressão dos pobres são as atitudes principais sobre as quais recaem as críticas de Amós. Tais críticas fazem emergir um tema de relevância da teologia bíblica que é o de Javé como defensor dos pobres e dos fracos, indicando implicações ético-religiosas para que a aliança feita por Javé com o seu povo possa ser concreta nas relações sociais.