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2. A INFÂNCIA NA MODERNIDADE E A NECESSIDADE DE ENSINAR TUDO A

2.4 O que fazemos com as crianças e a responsabilidade de educar

Mais do que estudar a ―História da Educação‖ e sua importância ―como disciplina fundadora das Ciências da Educação‖ (NÓVOA apud CAMBI, 1999), estudar a Pedagogia significa estudar a partir da Modernidade, aquilo que representa não mais apenas a tradição de saberes repassados. Mas sim, a elaboração e sistematização de saberes sobre as coisas do mundo a partir da proliferação do novo, resultante da abertura do ser humano moderno para a racionalidade científica que passa a produzir um novo modo de relação do homem com a natureza, com o tempo, com o trabalho e entre si mesmo, estabelecendo um novo modo de ser e estar no mundo.

Hoje, constatamos que não basta mais ao homem contemporâneo ter ao seu lado alguém que o ensine sobre as coisas do mundo. Que mostre a ele como este mundo é (ARENDT, 2011). É preciso que este indivíduo compreenda que vive agora, num mundo em constante deslocamento (HALL, [1992] 2014), com inúmeras imbricações culturais (WIEVIORKA, 2006), com relações sociais que não mantém sua forma por muito tempo e como que se liquefazem (BAUMAN, 2001), que são diariamente inovadas de tecnologias e, portanto, resta a este sujeito estar sempre em busca do conhecimento e aprendendo por toda a sua trajetória de vida.

Estudar a educação significa compreender que a História da Educação é, talvez, a história das formas de ensinar sobre as coisas do mundo segundo cada tempo a que pertençam. E que falar em história exige buscar aquilo que de forma significativa implicou no passado, mas que constituiu um enredo cujos desdobramentos são identificados no tempo presente.

Se ensinar era projeto da modernidade em curso, a complexidade desse projeto exige a necessidade de ampliar o campo da pedagogia frente à ampliação e complexidade das relações sociais de uma sociedade de massas. Exige também o questionamento das lacunas de um

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projeto de formação humana único, de uma receita pronta da melhor forma de ensinar. E é dentro de um contexto de ideias, da melhor forma de fazer, de defesa de pontos de vista, de defesa de uma maneira e não de outra, que se encontram aqueles que pesquisam e defendem o terreno que consideram mais fértil para a aprendizagem, para a educação da infância, que conceituam, elaboram e praticam aquilo que passam a considerar como fundamento de sua base operacional diante da organização disciplinar e da pesquisa científica a qual se vinculam. Segundo Morin (2002, p. 37), ―A organização disciplinar instituiu-se no Século XIX, principalmente com a formação das universidades modernas e desenvolveu-se no Século XX com o progresso da pesquisa científica‖.

Quanto à pedagogia, ela possui uma característica diferente no processo de disciplinamento, de organização hierárquica dos saberes. Enquanto as outras disciplinas nascem dentro dos conceitos específicos de áreas de conhecimento e objetos específicos a estas áreas, a pedagogia tem como seu objeto a infância. Mas isto nada tem de facilitador para a pedagogia, porque diferente das disciplinas que a partir da infância incidem a formação humana a partir de objetos específicos das suas áreas, como exemplo a geometria dentro da matemática e tem diante de si uma criança ou um adolescente já com uma formação, a pedagogia responsabiliza-se, digamos, pela base operacional a partir da qual o estudante irá continuar sua aprendizagem.

É preciso que se destaque aqui então, dois aspectos da pedagogia. O primeiro diz respeito ao sentido semântico da palavra: pegar pela mão, conduzir do analfabeto para o alfabetizado. Ainda é com a primeira infância, com a criança pequena, com os ―recém- chegados por natureza‖ (para lembrar Arendt), a responsabilidade maior da pedagogia. ―A infância representa o ponto de partida e o ponto de chegada da pedagogia‖, afirma Narodowski (2004, p. 18). E ainda:

A pedagogia encontra na criança seu argumento irrefutável para intervir na educação e reeducação através da escola, para participar da formação de seres humanos e grupos sociais. Para o pedagogo, a infância é o passaporte para sua própria inserção em um futuro possível, futuro no qual os homens viveriam, em grande medida, de acordo com o que fora realizado por eles antes, nos anos de sua infância e consequentemente, nos anos de sua educação. [...] a pedagogia se erige com um ‗grande relato‘ em estreita conexão com a narração de uma infância desejada em uma sociedade desejada (NARODOWSKI, 2004, p. 19).

E em tudo que desejamos, depositamos esperanças. Para finalizar este capítulo lembrando a instigação foucaultiana, ―o que fazemos de nós mesmos‖, é preciso considerar que o que fazemos de nós mesmos hoje não pode ser desvinculado daquilo que o projeto educativo atribuía como aposta na e pela educação. A racionalidade técnica, instrumental,

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científica, nos prometia levar ao melhor dos mundos, a resgatar em nós o melhor que poderíamos ser.

Para refletir a contento a pergunta de Foucault, talvez tenhamos que nos perguntar também: o que a educação fez de nós mesmos? Considerando que somos também os responsáveis por apresentar o velho mundo aos recém chegados por natureza, também devemos perguntar: o que fazemos nós com as crianças? Como e com que estratégias corroboramos na genealogia que fará elas responderem no futuro, o que fizeram delas mesmo?

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e avinda dos novos e dos jovens. A educação e, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum (ARENDT, 2011, p. 247).

Às vezes nos parece que o cômputo do tempo, diante dos tempos de cada um, nos prega uma peça. Pois vivemos nós adultos confrontando o nosso presente que é composto daquilo que fomos quando crianças e que hoje é passado, tendo que conviver paralelamente com quem é presente também, as crianças de hoje, em um mundo comum. Mas que representam a condição de um futuro, mas que por serem ―seres em formação‖, filhotes, estão sob nossa responsabilidade. Conforme Arendt (2011, p. 235), ―A responsabilidade pelo desenvolvimento da criança volta-se em certo sentido contra o mundo‖.

Talvez por isso o presente necessite de tanta atenção e seja tão importante a reflexão de como educamos nossas crianças pequenas. Se um mar de possibilidade de investigação se descortina à nossa frente quando falamos de educação na contemporaneidade, assim como de dúvidas e incertezas, que nos lancemos a ele munidos de razão, mas também de sensibilidade. E que se deve haver um horizonte a ser perseguido, ele não está esperando ser encontrado lá no futuro, ele está ao nosso lado, esperando ser resgatado, bem no presente, e que são nossos, mas também do mundo, estes filhotes pequenos. Assim sendo, nos próximos capítulos avançaremos no debate sobre a concepção e a condição da infância, enquanto alunos mas também enquanto criança.

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