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Foto 1 – Primeira operadora da Alumar

3.2 O que Muda e o que Permanece

A pesquisa junto às famílias dos menores aprendizes permitiu observar padrões culturais que foram se mantendo ou se alterando através das gerações. Nesse sentido, um aspecto de mudança constatado remete à origem do termo família, que vem do latim famulus, que significa um conjunto de servos ou dependentes subordinados a um chefe ou senhor. Neste conceito está implícita a idéia de autoridade masculina e dependência, principalmente econômica, a esta autoridade. Entretanto, depara-se nesta pesquisa com famílias chefiadas por mulheres e outras em que a renda oriunda do trabalho feminino é a principal fonte de sustento do lar.

Por outro lado, alguns aspectos culturais foram passando de geração para geração, como é o caso da divisão das tarefas domésticas, onde o cuidar das crianças, o preparo da alimentação e da organização da casa, continuam sendo

responsabilidade feminina. Mas, se insistirmos em procurar sinais de mudança nesse sentido, é possível dizer que os maridos às vezes “dão uma mãozinha” e que as meninas da nova geração estão pelo menos reclamando com os irmãos quando estes não assumem algumas tarefas domésticas para que elas possam concluir uma tarefa escolar, por exemplo.

Um traço comum de mudança nessas “nossas famílias” 18 refere-se à redução do número de filhos de uma geração para outra, fato que deve ter contribuído para que várias dessas mulheres tenham retornado aos estudos ou se lançado no mercado de trabalho quando os filhos estavam crescidos. Certamente isto seria mais difícil se novos filhos fossem chegando. Uma dessas famílias possui um único filho, uma outra tem quatro, nas demais o número varia entre dois e três.

Tendo menos filhos do que tiveram seus genitores, cuja média era dez filhos, os pais dos menores aprendizes, apostando no projeto familiar melhorar de

vida, têm os seus filhos como uma espécie de investimento, esforçando-se para

propiciar a melhor educação escolar possível e proporcionando-lhes o acesso a determinados bens de consumo que provavelmente não lhes estariam disponíveis caso tivessem família numerosa.

Nessas famílias, a maioria das mães trabalha fora, seis dentre as dez. Duas delas são chefes de família, as outras quatro trabalham para complementar a renda familiar e afirmam que há certa concordância por parte dos maridos que vêem o trabalho externo da esposa como importante auxílio nas despesas domésticas.

A maioria dos pais e mães das famílias pesquisadas é procedente de pequenos municípios do interior do Maranhão e Piauí, onde praticavam atividades agrícolas, portanto, de origem camponesa. Por experiência própria, sei que o trabalho camponês é valorizado em função do que ele pode proporcionar para a família enquanto coletividade, não como uma ação de promoção individual.

Com inúmeros filhos para alimentar, o trabalho na roça torna-se um imperativo no qual toda a família deve estar empenhada, sendo indispensável o trabalho das mulheres. Poderiam ter base nesse contexto algumas expressões que ouvi dos maridos quando eu questionava a opinião deles em relação ao trabalho externo das esposas: “A família é nossa, temos que batalhar juntos”; “Bom mesmo

18 Para simplificar a referência às famílias dos menores aprendizes utilizaremos também a expressão

seria que ela ficasse em casa, mas temos que unir as forças para dar o melhor para nossos filhos.”

A ida para a cidade se deu sob diferentes motivos. Alguns foram desde criança morar com parentes devido à morte ou dificuldades dos pais em criá-los, outros para “morar em casa de família”, trabalhando como empregada doméstica não remunerada, outros para estudar, acompanhar o marido, mas em todas as trajetórias há um ponto em comum: o projeto de melhorar de vida, ideário esse percebido por Sarti (2003), que do seu estudo sobre moradores da periferia de São Paulo, conclui que a expectativa de melhorar de vida está relacionada à condição do migrante, constituindo o motivo de migrar.

Segundo essa lógica, confirmada em diversos relatos nesta pesquisa, a possibilidade de ascensão social se daria com o acesso à educação escolar. Inspirados por esse propósito, com exceção do ex-marido de Custódia Cupuaçu, todos os pais e mães dessas “nossas famílias”, investiram na educação escolar. A diferença pairou nas possibilidades de cada um dos cônjuges em relação ao projeto de progredir pela educação, assim que constituíram família. As mulheres, ao exercerem a maternidade, tiveram que deixar os estudos para se dedicar inteiramente aos cuidadas com as crianças e com o lar, pelo menos enquanto os filhos estavam pequenos e necessitavam de maiores cuidados e atenção.

Aquelas que continuaram seus estudos ou passaram a trabalhar após o casamento, só o fizeram depois dos filhos crescidos. Muitas alimentavam o desejo de se tornarem independentes, de viajarem pelo mundo em missão religiosa, de exercerem uma profissão, mas diante do desafio da maternidade e da obrigação moral que esta lhes traz, optaram por abdicar, em alguns casos momentaneamente, de seus projetos de cunho individual para se dedicarem à família.

De acordo com Fonseca (2000), ser uma mãe devotada, ao lado do papel de dona-de-casa eficiente, constitui-se uma das principais virtudes da mulher de classe popular. Deixar os filhos jogados à própria sorte, representaria um dos principais motivos de ataque à honra feminina. Por outro lado, dedicar-se aos filhos e vê-los mais tarde progredindo e bem encaminhados na vida, gera grande satisfação para a mãe, que percebe seu esforço como valendo a pena, conforme nos relata Sandra Sapoti:

[...] quando as meninas eram pequenas eu fiquei em casa com elas, não trabalhei, acompanhei de perto. Hoje mesmo tive conversando com uma amiga minha que foi muito bom porque elas foram bem encaminhadas. Não tenho arrependimento de ter ficado em casa com elas. Agora já posso deixá-las porque já foram criadas, já têm a base.

A presença cotidiana da mãe junto aos filhos, especialmente se esta tiver personalidade forte, contribui para que elas se tornem as principais responsáveis pelo sucesso escolar dos filhos, afirmação que é corroborada por Souza e Silva (2003), em estudo sobre a caminhada de jovens pobres para a universidade, que demonstra que a mãe, muito mais do que o pai, é incumbida das responsabilidades diretamente relacionadas à atividade escolar: preparar o material escolar, conduzir a criança à escola, participar das reuniões, falar com a professora e atividades análogas.

Segundo Sarti (2003), a relação entre pais e filhos é aquela onde se estabelece o vínculo mais forte, com as obrigações morais atuando de forma mais expressiva. Sarti (2003), argumenta que, na perspectiva dos pais, os filhos são essenciais para dar sentido a seu projeto de casamento, ‘fertilizando-o’, para não ser uma árvore seca. Dos filhos é esperada uma retribuição, que existe como compromisso moral: quando adultos, têm a obrigação moral de retribuir o esforço dispensado pelos pais assim que estes vierem a precisar ou bastando ser um bom

filho, isto é, honesto, trabalhador.

Nesta pesquisa, detectei poucas mudanças no que tange à escolha da profissão pelas mulheres. Das quatro menores aprendizes, somente uma deseja ser engenheira eletricista. As demais, querem cursar Medicina. Dentre outras filhas que não participaram do programa, há quem planeje fazer vestibular para Fisioterapia, Farmácia, enfim, a opção continua sendo pelo que tradicionalmente consideram-se “profissões mais femininas”, todas relacionadas com o cuidar e o servir.

No que se refere aos projetos de constituir família, pelo menos ao nível do discurso, a carreira profissional vem sendo colocada como prioritária, algo que elas fazem questão de informar, mesmo sem serem questionadas a respeito. Entretanto, há de se considerar que suas mães, antes do casamento, também tiveram seus projetos individuais, que foram abandonados momentaneamente ou mesmo trocados pelos projetos de cunho familiar.

Resta saber como essa nova geração de mulheres conciliará seu projeto de carreira profissional no momento de constituir família, quando terão de se

defrontar com uma série de obrigações morais relacionadas aos papéis tradicionalmente designados às mulheres.

Por outro lado, cabe destacar que o processo de individuação da mulher não tem o mesmo peso em todas as camadas e grupos sociais, levando-se em consideração que os mais pobres não têm condições de bancar o processo de individuação, esbarrando na impossibilidade de se fazer escolhas ao mesmo nível dos mais ricos, como nos assinala Bauman (2004), e estando numa situação de dependência dos laços familiares e de parentesco, como exposto por Fonseca (2000) e Sarti (2003).

Sobre as aspirações profissionais desses jovens em relação ao futuro e as limitações impostas pela sua condição de classe, é o que trataremos no próximo tópico.