Figuras 69, 70 e 71 – Selfies de Cindy Sherman com edições.
Fonte - Instagram da artista81.
Cindy Sherman é uma renomada artista norte-americana que tornou-se conhecida por seus autorretratos conceituais. Desde a década de 70, a artista produz fotos de si mesma. Seu primeiro grande trabalho foi uma série de 70 fotografias: Untitled Film Stills (Fotografias de Cena sem título). Nessas fotos Sherman apresenta e questiona ícones de feminilidade, criados pela televisão e pelo cinema. Desde então, a artista usa seu corpo para dar vida a diferentes personagens. Suas fotografias são agrupadas em séries e cada imagem é tão peculiar, que seu rosto por trás de tantos disfarces torna-se irreconhecível.
79 Lançado em 2010, o Instagram é uma rede social online de compartilhamento de fotos e vídeos
entre seus usuários. Nas postagens é possível aplicar filtros digitais, acrescentar desenhos, palavras e textos, além de compartilhar com seus seguidores a sua localização. E desde de a sua criação vem passando por diferentes atualização, como a postagens de vídeos, por exemplo, tornando-se a cada atualização ainda mais atrativo para os seus usuários. Informações encontradas no site:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Instagram, acessado em 05 de junho de 2018.
80 Informações encontradas no site: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/08/11/Cindy-
Sherman-abre-seu-Instagram.-Qual-%C3%A9-o-lugar-dessa-rede-social-na-arte. Acessado em 13 de jun de 2018.
81 A página pessoal de Cindy Sherman no Instagram está disponível no endereço:
Nas obras realizadas pela artista na década de oitenta é possível perceber, a partir da representação de corpos femininos abjetos, o questionamento dos padrões de beleza socialmente atribuídos para as mulheres, segundo a artista o feio e o indesejável lhe encantam (GROSENICK, 2001). Assim, não causa estranhamento que as suas fotos mais recentes sigam nessa direção e problematizem a busca incansável de muitas mulheres por transformar seus corpos em imagens perfeitas. Segundo André Feitosa (2011), Cindy Sherman em fotografias como, Untitled #175 de 198782,
põe em foco figuras que explicitam o lado não consolidado do belo e questionam valores de normalidade presentes nas culturas ocidentais. Suas fotografias exploram características obscuras que são normalmente associadas ao universo feminino, como a loucura, a clausura doméstica, mulheres de corpos incongruentes ou mesmo vítimas de violências físicas. Essas ponderações de Feitosa (2011), ao trabalho fotográfico já consagrado da artista podem, em certa medida, serem atribuídas também às suas selfies publicadas no Instragram.
Recentemente são as suas selfies que têm chamado a atenção. No final do ano passado, a artista tornou pública sua página pessoal no Instagram, dentre as suas postagens, destacam-se os registros que a artista tem feito da sua própria imagem. Nelas, Sherman não procura mostrar uma bela imagem de si mesma, pelo contrário, ela parece questionar essa popularização do registro da própria e impecável imagem. Suas fotos são conceituais, fazem pensar e distanciam-se de quaisquer estereótipos de beleza. Diferentemente das fotos dos alunos canoenses que, de maneira geral, almejam reproduzir os padrões de beleza vigente em busca de uma boa repercussão dos seus registros imagéticos. Segundo Lipovetsky e Serroy (2015, p. 376), o autorretrato contemporâneo:
[...] se afirma como um modo de vida cada vez mais banalizado, como compulsão de se comunicar e de ‘ser descolado’, mas também como marketing de si, cada qual procurando ganhar novos ‘amigos’, procurando valorizar seu ‘perfil’ e encontrando uma gratificação na aprovação de si mesmo pelos outros [a selfie] traduz uma espécie de estética de si que ora é um donjuanismo virtual, ora um novo Narciso no espelho da tela global.
82 Obra disponível no link: http://www.artnet.com/artists/cindy-sherman/untitled-175-a-
Já nas selfies postadas por Sherman83 pode-se perceber uma certa sátira da
artista em relação as selfies que proliferam a cada segundo nas redes sociais, as quais, normalmente retratam momentos felizes e são produzidas para se autopromover e conquistar seguidores. Com seu Iphone a artista produz fotos de si mesma e utiliza aplicativos de edição de imagens como Facetune, Perfect365 e YouCam Makeup para modificar, distorcer e deformar a sua própria imagem. Longe de querer ser admirada por sua beleza ou fotogenia, Sherman usa essas ferramentas, que surgiram para corrigir quaisquer imperfeições e deixar as pessoas ainda mais bonitas, de uma forma não ortodoxa e, dessa forma, questiona hiperexposição que as pessoas estão dando para as suas próprias imagens. Ao mostrar seu rosto retorcido, deformada, próximo ao grotesco (Victor Hugo, 2007), Sherman problematiza o ato de fotografar-se e põe em xeque esse hábito contemporâneo de registrar a própria imagem e tornar esse registro público. O que Pastor (2016, p.19), pontua sobre o registro da própria imagem me parece ter alguma aproximação com as selfies produzidas pela artista de acordo com o autor a selfie:
[...] demonstra, para além da aparente banalidade de uma produção de autorretratos instantâneos, possíveis formas de relação com a própria aparência ou como uma experiência lúdica de proximidade. Nessa partilha de intimidade – numa comunhão de esferas relacionais –, visualiza-se também o hibridismo com o próprio aparelho. A prática do selfie surge misturando-se com uma longa rede imagética e cultural de autorretratos, associado às potencialidades comunicativas do smartphone.
Nesse sentido, para além da futilidade de mostrar-se bela e rodeada de amigos em um momento de confraternização, as recentes selfies de Sherman possibilitam a artista continuar fazendo diferentes experiências com a sua própria imagem, transformando-se em outras pessoas, algo que ela já fazia com seus autorretratos conceituais, no entanto, agora, essas experimentações são realizadas com rápidas sequências de toques na tela do seu celular e, ao serem disponibilizadas na rede, podem ser acessadas por qualquer um em qualquer lugar do mundo.
Além disso, suas selfies nos permitem problematizar a popularização do registro de si na contemporaneidade. Isso é algo que tenho procurado fazer em
83 Algumas das informações a respeito das recentes publicações imagéticas da artista no Instagram
foram encontradas nos sites: https://www.theguardian.com/artanddesign/2017/aug/09/cindy- sherman-Instagram-selfies-filtering-life e https://www.wmagazine.com/story/cindy-sherman- Instagram-selfie, acessados em 30 de maio de 2018.
diferentes momentos desse texto, e que ao mesmo momento, tenho cuidado de não ser simplista e de não apresentar generalizações, mas trazer pontos de vista a partir de diferentes perspectivas teóricas. Nesse sentido, assim como Pastor (2017), evito um posicionamento prévio de julgamento desse fenômeno contemporâneo, que diz respeito à produção e o compartilhamento das selfies, classificando-as como nociva e narcisista, ou, de maneira contrária, tratando-as como libertadoras e revolucionárias. Em vez disso, de forma muito parecida ao autor, procurei problematizar a sua complexidade.
Sem a pretensão de classificá-las, as selfies de Sherman podem ser vistas como uma sátira que encoraja a reflexão a respeito da produção dessas imagens e sobre o uso crescente de aplicativos para a sua manipulação. Além de representar uma nova faceta no trabalho da artista, sua série de selfies problematiza o ato de se fotografar e fazer desse registro público, pondo em discussão o narcisismo imaginário da contemporaneidade. Por outro lado, as produções de Sherman e a infinidade de selfies produzidos por pessoas comuns em todo o mundo transformam o ato de se fotografar em uma forma de expressão que diz muito sobre a sociedade contemporânea. Assim, para além de qualquer rótulo, a discussão sobre as formas como se tem transformado o corpo em imagem, propõe pensar as imagens de si como um modo de existência de seus autores a partir de uma lógica de instantaneidade, compartilhamento e comunicação (PASTOR, 2017).
Trazer para a tese as atuais selfies produzidas por uma famosa retratista conceitual, não teve como intenção categorizá-las, ou, somente, compará-las com os registros de si realizados pelos adolescentes canoenses. Integrá-las a essa discussão teve como principal interesse pensar essa produção contemporânea a partir de suas complexidades, tanto no momento de sua criação, quanto no momento em que esse registro é publicizado. Além disso, fazer referência as selfies produzidas por Sherman, evidenciam a potencialidade que essas imagens podem ter para a discussão a respeito da forma como determinados padrões de beleza são reforçados enquanto outros são colocados à margem.
No próximo e último capítulo, apresento algumas considerações sobre essa pesquisa, primeiro com tom de desabafo, pois, após vivê-la tão intensamente, é difícil dar a ela um ponto final. Em seguida, estabeleço algumas relações entre os arquivos visuais presente nos celulares dos três alunos buscando aproximações e diferenças. Além disso, e, talvez, a contribuição mais importante que essa tese pode trazer para
os professores, reitero a importância de as tecnologias, em especial o celular, encontrar um espaço para seu uso pedagógico dentro das engrenagens tão sedimentadas da escola, um assunto controverso, mas, da mesma forma, fundamental na contemporaneidade.
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS: PARA QUE CONTINUEMOS PENSANDO NA RELAÇÃO DOS ADOLESCENTES COM OS CELULARES E O UNIVERSO VISUAL
Figura 72 – Fim da tese.
Fonte – Imagem salva da internet 6284.
Chegar ao último capítulo dessa tese, traz à tona dois sentimentos, o primeiro é de extrema alegria por ter concluído essa etapa tão importante da minha formação acadêmica, o curso de doutorado, algo que tanto almejei, e que, por isso, realizei com muita seriedade, comprometimento e dedicação. Felizmente, diferente de muitos relatos que já ouvi, a realização dessa pesquisa em momento algum foi sofrida, maçante ou desinteressante, pelo contrário foi, muitas vezes, empolgante e prazerosa. Nesse sentido, segui à risca as palavras de Umberto Eco (2010) e me diverti durante a realização dessa tese. Além disso, estudar, pesquisar, ministrar aulas e conviver com os adolescentes sempre foram momentos de muito aprendizado. Assim, essa pesquisa deu-me a oportunidade de conciliar dois importantes interesses da minha vida profissional e acadêmica, a pesquisa e a docência. Como não estar realizada e contente?
84 Imagem disponível no endereço:
https://www.google.com.br/search?q=imagem+fim+da+tese&rlz=1C1NHXL_pt-
BRBR786BR789&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwii27OTopTbAhUKHpAKHZb3DZs Q_AUICigB&biw=1366&bih=613#imgrc=7-NGSWv_3VIeBM:
Infelizmente, não são somente momentos de felicidade que me acompanham com a escrita dessas últimas palavras, o sentimento de nostalgia está latente. Como dar um ponto final nesse estudo? Como abandonar essa pesquisa? Como deixar para trás todas as indagações e incertezas que estiveram presentes em meus pensamentos nesses quatro anos? Mesmo sabendo que dificilmente conseguiria dar conta de todas as discussões que o contato com o universo visual produzido e publicado pelos alunos proporcionaria.
Finalizar essa pesquisa não está sendo fácil, tenho certeza de que essa dificuldade está diretamente ligada a sensação de incompletude que um estudo como esse pode suscitar, pois a sensação é a de que essa pesquisa nunca ficará pronta, porque nunca terei as respostas para todas as perguntas. Assim, admito e assumo as possíveis limitações dessa tese, já que, a partir das escolhas que foram feitas, algumas discussões foram mais aprofundadas do que outras. Com isso, seu caráter aberto e contingente a acompanham e possibilitam que ela continue em construção.
A forma como os jovens se relacionam com os aparelhos celulares e com a visualidade deve continuar sendo objeto de interesse em outros estudos. Essa demanda permanecerá relevante, pois, a cada dia, com os avanços tecnológicos acontecendo de maneira desenfreada, as tecnologias que conhecemos hoje brevemente passarão por reformulações ou se tornarão obsoletas, fazendo com que outras as substituam. Assim, surgirão celulares mais modernos, com novos aplicativos à disposição e com diferentes possibilidades de interação, como também, novas formas de produzir, armazenar e compartilhar conteúdos. Nesse sentido, Morduchowicz pontua que: “volvernos a encontrar con nuevos cambios tecnológicos y, my posiblemente, con un adolescente distinto” (2014, p. 132). Dessa forma, como em um efeito cascata, pode-se prever que as novas possibilidades de interação com as tecnologias acarretarão mudanças na forma como os jovens interagem com esses meios, como relacionam-se com o outro, como constroem seu conhecimento e, consequentemente, em uma maneira distinta de ver, sentir e estar no mundo.
Nesta tese, além de observar os adolescentes canoenses fazendo uso do aparelho celular, em diferentes momentos da rotina escolar, do questionário que responderam, das três entrevistas semiestruturadas que realizei e das nossas conversas sobre a forma como se relacionam com seus pares por meio desse dispositivo móvel, tive acesso as imagens armazenadas nos celulares de três adolescentes, como também, conheci as fotos publicadas por um deles no Facebook.
Com a análise desse universo visual, tive pistas sobre os interesses, os gostos e os anseios desses alunos. O que possibilitou a mim professora/pesquisadora conhecê-los melhor, e ao saber mais sobre eles pude compreender um pouco melhor os adolescentes estudantes da escola, já que seus comportamentos perante seus pares e os usos que fazem do celular são muito semelhantes. Eles acessam os mesmos sites, escutam as mesmas músicas e trocam muitas mensagens entre si no turno inverso da escola. Além disso, o que foi um dos dados mais significativos encontrados nessa pesquisa é: eles produzem, armazenam e compartilham muitas imagens entre eles próprios.
Segundo Morduchowicz (2008), o acesso à tecnologia e a maneira como os jovens a usam é muito semelhante em diferentes lugares e em diferentes classes sociais. Talvez, um garoto argentino tenha mais afinidade com um adolescente de Paris ou de São Paulo, do que com um garoto da zona rural da própria Argentina, porque o que os aproxima, o que os unifica, é o uso fazem da internet.
Nesse sentido Canclini (2017) afirma que a circulação digital é transterritorial, assim, o acesso à informação e ao entretenimento transcendem as fronteiras nacionais sem eliminá-las. Para o autor, a forma de recepção é que se transformou: hoje podemos assistir a um filme, ler um jornal, escutar músicas e muitas outras coisas, não importando o lugar onde estejamos. Segundo Couto Júnior (2015), um internauta que navega na Europa pode usufruir dos mesmos conteúdos da Web daqueles que estão conectados à internet na América Latina, e todos usufruem de um mesmo ambiente virtual no qual todos têm a possibilidade de estar em contato permanente. De acordo com Lemos (2009), o ambiente virtual possibilita a disseminação dos conteúdos e informações de qualquer lugar do planeta, sem que para isso sejam necessários grandes investimentos financeiros.
Santaella (2007, p. 134) destaca o importante papel dos aparelhos celulares para a disseminação dos conteúdos ao afirmar que: “com o surgimento dos aparelhos portáteis, textos, imagens e sons tornaram-se ubíquos, enquanto os celulares vão ficando cada vez mais turbinados, circulando por todo o canto”.
Nesse último capítulo, é importante revisitar as perguntas que nortearam essa pesquisa. Ao apresentá-las novamente, minha intenção é aparar as possíveis arestas e propor um encerramento, por ora, para as discussões propostas.
A primeira interrogação: Como os adolescentes se relacionam com a visualidade a partir da incursão das tecnologias digitais? Faz referência ao universo
visual acessado pelos adolescentes a partir das tecnologias, em especial para esse estudo, qual a visualidade acessada pelos estudantes com a utilização dos celulares.
Foi possível perceber, tanto pelas suas falas, quanto pelas respostas nos questionários e por observá-los interagindo com seus celulares diariamente, que a produção, a edição e o compartilhamento de imagens fixas ou em movimento é bastante comum para esses estudantes. Assim, grande parte do universo visual a que eles têm acesso atualmente são imagens produzidas por eles mesmos, por seus amigos, ou aquelas que circulam nas redes sociais. Esse universo visual se apresenta de modo interativo e fácil para os adolescentes pelo simples ato de deslizar o polegar (SERRES, 2013) pela tela do celular.Nessa mesma direção, Santaella (2010), afirma que a popularização dos celulares com câmera possibilitou a produção de imagens em grande escala, a autora menciona ainda que, nesses aparelhos com telas sensíveis ao toque, as produções imagéticas podem ser facilmente manipuladas.
Frente a essa constatação, tornou-se instigante conhecer as imagens que alguns desses adolescentes escolheram manter armazenadas em seus dispositivos móveis, a partir do questionamento: Quais registros imagéticos os adolescentes canoenses mantêm salvos em seus aparelhos celulares? Após conhecer os 1082 registros armazenados pelos adolescentes e olhar com atenção para cada um deles, foi possível constatar que, as imagens que retratam pessoas, foram as mais presentes nos celulares dos três adolescentes. E, dentro desse grupo, aquela que se mostrou em maior número, novamente para os três adolescentes, foram fotografias realizadas por eles mesmos, nas quais seus rostos eram mostrados de forma destacada, as selfies.
Nessas fotos eles se mostravam, principalmente, sorrindo, fazendo “biquinhos” ou caretas e, nas suas imagens mais recentes, as edições tornaram-se bastante evidentes com a intenção de mostrá-los ainda mais bonitos. O que essas fotos podem nos dizer sobre esses três adolescentes? Essa curiosidade deu origem à terceira pergunta: É possível entender a juventude contemporânea, representada aqui por três adolescentes da cidade de Canoas, pelas imagens que eles produzem? Da mesma forma que Coelho (2013) apontou em sua dissertação de mestrado e levando em consideração os comentários de Estela e Eduarda sobre as suas fotos, também acredito que os seus arquivos visuais diziam bastante sobre eles. Entendo que as fotos que são eleitas para serem mantidas salvas ou aquelas que ganham ainda mais
visibilidade nas redes sociais carregam significados e por isso dizem muito sobre seus autores.
Ao ter acesso aos registros visuais de Estela, Eduarda e Lorenzo tive indícios sobre seus gostos, seus interesses, a vontade de estarem sempre rodeados de amigos e familiares, seus desejos de serem vistos e admirados, as músicas que ouvem, sobre as festas que frequentam. Mesmo que Lorenzo não tenha chegado a essa mesma conclusão, acredito que seus registros visuais, por serem em maior número e mais diversificados, deixaram ainda mais evidentes a forma como vive a sua adolescência nesse mundo hiperconectado e saturado de imagens no qual está inserido.
Estela, Eduarda e Lorenzo são três estudantes moradores de Canoas, que vivem grudados em seus celulares e que são muito ativos nas redes sociais, além disso, produzem fotos frequentemente. Com a análise desses registros imagéticos, não tive a intenção de comparar as produções visuais dos estudantes levando em consideração seus gêneros: feminino e masculino. No entanto, algumas pequenas aproximações e diferenças ficaram bem evidentes.
Nas imagens armazenadas pelos três estudantes e nas fotos publicadas por Estela, as selfies estiveram presentes em maior número. Nelas ficou evidente a vaidade dos alunos e o desejo em conquistar olhares, especialmente dos amigos. Fato facilmente comprovado em nossas conversas: “Eu marco meus amigos nas fotos, porque daí eles olham a foto e acabam curtindo” (Estela, 2016).
Diferentemente de alguns estudos apontados na tese, os quais analisam as selfies para além da autopromoção e do narcisismo (NEMER e FREMAN, 2015, PASTOR, 2017, KOZINETS, GRETZEL e DINHOPL,201785), nas selfies dos alunos o
desejo de mostrar-se, ser visto e transformar o corpo em uma bela imagem ficou evidente. Tanto em relação às fotos que são eleitas pelos adolescentes para serem publicadas, quanto nas suas falas: “Eu quero que as pessoas olhem as minhas fotos e me achem bonita” (Eduarda, 2017). Ou seja, mais importante do que ser bonito fora do ambiente virtual é imprescindível parecer “bem na foto”, nas telas. “Queria pedir desculpas a quem me acha linda no Facebook e vê a decepção pessoalmente” (2018). Esse desabafo de Estela, que foi copiado de sua página pessoal no Facebook, vai,
85 Esses três autores norte-americanos afirmam que as selfies podem revelar muito mais do que o
narcisismo de seus autores. Elas são um atitude de autorreflexão, comunicação, além de serem um ato cultural e um apelo à conexão, (KOZINETS, GRETZEL e DINHOPL,2017).
justamente, nessa direção, a aluna reitera seu esforço para produzir e publicar uma bonita imagem de si mesma. E, ao se julgar menos bonita pessoalmente, conquista mais olhares e sua postagem repercute já que seus amigos reiteram a sua beleza nos comentário, “Cara, tu é linda”, “Tu é a coisa mais linda desse mundo”.