CAPÍTULO 5: O usuário de crack do ponto de vista do/a ACS
5.2 O que os/as ACS pensam sobre o consumo de drogas
As concepções dos/as ACS acerca do uso de SPA remetem à experiência prática deste/a profissional de saúde no território. O consumo de drogas, especialmente as ilegais, emerge em seu cotidiano indissociado de pessoas e situações marcadas pela violência e/ou que lhe oferecem algum tipo de risco. A vivência da microárea; e o acesso a informações acerca do usuário de crack (ao observar sua rotina, ouvir relatos a seu respeito ou atendê-lo na ESF) oferecem diversos elementos socioculturais que configuram sua compreensão sobre esta prática social.
Muitos/as ACS se referem ao uso de drogas por alguém da comunidade sem especificar o padrão de consumo ou o tipo de substância psicoativa de que se trata. Esta unicidade conceitual é revelada em expressões como “fumador de pó” (ACS 02) ou “você fuma drogas?” (ACS 13).
Há ACS que consideram o uso de drogas, especialmente as ilegais, estritamente negativo e problemático. Isto intimida ou desmotiva a tratar do tema: “[…] Falou em droga você fica meio acuado.” (ACS 01). Abordá-lo, portanto, figura como um tabu.
ACS que não diferenciam SPA legais e ilegais encaram o consumo de drogas como uma prática atrelada à desvalorização pessoal. Trata-se de um modo de dar fim à própria existência; e reflete um “patamar” (ACS 01) alcançado como resultado de experiências anteriores com as quais o sujeito não lidou de modo adequado.
Segundo esta perspectiva, inevitavelmente o sujeito irá morrer por consequência do uso abusivo de SPA ou será assassinado por alguma dívida contraída junto a um traficante – um risco que se acentua sobretudo para usuários menores de idade, na perspectiva de uma das ACS. “A pessoa […] Tá usando droga, tá acabando com sua própria vida, não tem amor próprio. […] E quando é jovem, pior ainda, de dez a 16 anos. Ou vai morrer de tanto usar droga ou vão acabar matando […] Porque, às vezes, deve.” (ACS 02).
Outros/as ACS definem o uso de drogas como uma tentativa de preencher um “vazio” (ACS 03) existencial. Isto os/as aproxima da leitura psicanalítica sobre este fenômeno, embora não se aprofundem a este respeito: “Ele (usuário) tá na academia; […] tá trabalhando; […] tá tendo uma atividade, preenchendo esse vazio que ele buscava na droga.” (ACS 03).
Há agentes comunitários/as que consideram o uso de SPA um elemento adoecedor, independente do fato do sujeito ser ou não portador de uma doença clínica. O consumo -
empreendido pelo usuário ou por uma pessoa próxima a ele, a exemplo de um familiar - é visto como algo problemático; e considerado prejudicial para a saúde, especialmente ao agir conjuntamente com fatores de caráter socioeconômico, físico, mental etc.
Porque se você não está bem; tá desempregado; tá com algum problema na família de droga, de álcool; isso tudo abala a saúde. Mesmo você […] não tendo nenhum problema de saúde, uma hipertensão, uma diabete, etc. Mas o desemprego, problema de droga na família causa doença. (ACS 03)
Alguns/mas ACS concebem o uso de drogas não como um aspecto capaz de lesar a saúde, mas a encarnação da própria enfermidade. Neste sentido, o consumo de SPA é sinônimo do uso abusivo e intenso, habitualmente retratado como “dependência” pelo senso comum. Trata-se de uma “doença” buscada pelo usuário, ao invés de adquirida por meio da ação de um agente exógeno; associada à impossibilidade do indivíduo se manter abstêmio do consumo destas substâncias; e da qual não possui consciência. Os depoimentos abaixo servem como exemplos:
“Ele (usuário) não tem a consciência que é uma doença, mas ele é um doente.” (ACS 03) “Você tá viciado em uma coisa é uma doença, né? […] Ele às vezes até não quer quando tá bem, mas não consegue ficar sem. […] É uma doença que a gente acha que ele buscou […]. Não foi uma doença que veio, se alojou, como tem o câncer, entre outros.” (ACS 02)
A sabedoria prática de agentes de saúde sobre as modalidades de uso de drogas e a(s) motivação(ões) que existe(m) por trás desta prática, se comparada a outros referenciais (ex. Redução de Danos, saber biomédico) evidencia diferenças entre seus critérios de classificação. Consequentemente, revela modos distintos de lidar com o consumo de SPA.
Similar à bagagem do/a ACS imersa no território, a RD é pautada em elementos socioculturais. Contudo, isto não significa que exista uma correspondência entre estes paradigmas.
A RD presume que o indivíduo, a substância psicoativa e o contexto sociohistorico sejam compreendidos obrigatoriamente de maneira indissociada80. Admite ainda a
possibilidade de haver a associação entre uso de SPA e atitudes positivas, salutares ou agregadoras.
80 A interação entre as propriedades bioquímicas da substância escolhida, as “atitudes e personalidade do usuário” e o “meio físico e social onde ocorre o uso” define o efeito provocado pelo consumo de uma droga (ZINBERG, 1984, p.4). Ao mesmo tempo, permite compreender o nível de controle do sujeito em relação ao consumo de SPA, pois remete ao grau de interferência desta prática no seu círculo social, no seu estado psíquico e na sua “motivação psicológica para outras situações não ligadas ao consumo ou obtenção da droga” (FIGUEIREDO E GREGORI, 1992, p.18).
A experiência dos/as ACS, em sentido inverso, revela-se incompatível com esta perspectiva. Isto é um aspecto que possui em comum com a vertente médico-tecnicista de cuidado, declaradamente avessa a reconhecer aspectos positivos no uso de drogas, especialmente ilegais.
A vivência dos/as ACS atrela o consumo à inevitabilidade da morte devido ao uso abusivo de SPA ou como punição por um débito não pago, contraído junto a um traficante. A abordagem proibicionista, ao contrário, não necessariamente se apoia na realidade para sustentar um argumento similar. Ainda assim, assume uma lógica de caráter fatalista sobre o assunto, independente da realidade do usuário: consumir drogas ocasiona a morte, inexoravelmente.
O fato de ACS retratarem o consumo de SPA por meio de um único conceito, a exemplo daqueles que o equivalem a uma “doença”, assinala um ponto em comum entre a sabedoria prática e o paradigma da biomedicina. A RD, ao contrário, estabelece e distingue diversas finalidades associadas ao emprego destas substâncias – uso social, medicinal, religioso, ritual, cultural, psicológico, estético etc. Se avaliada por esta perspectiva, a compreensão dos ACS seria considerada sinônimo de indiferenciação de padrões de uso de drogas ou tipos de usuários.
Em diferentes depoimentos dos/as ACS, o uso de álcool (ex. cerveja, vinho, uísque etc.) surge relacionado à boemia típica do bairro; e é muito comum nos momentos de lazer de profissionais de saúde e moradores/as (ex. festas, viagens, visitas a familiares etc.). Para a RD, beber é considerado um exemplo de consumo de SPA com fins recreativos. Pelo fato da racionalidade do/a ACS apoiar-se em outros critérios classificatórios, o álcool não é considerado uma droga por agentes de saúde.
Conforme preconiza a RD, o uso de medicamentos alopáticos, a exemplo daqueles prescritos por profissionais da ESF, corresponde ao uso medicinal de SPA. Os benefícios para saúde produzidos por sua utilização consistem em uma finalidade atribuída ao consumo dessas substâncias. Segundo a perspectiva da biomedicina, o uso de medicações não é equivalente ao consumo de drogas. Tampouco a experiência dos/as ACS abre precedente para este tipo de associação.
A rotina de trabalho nas dependências da ESF e nas microáreas inclui situações nas quais ACS presenciam e ouvem relatos de moradores/as que adotam cuidados com a sua saúde pautados na utilização de chás medicinais. Isto pode ser exemplificado através do depoimento de uma agente de saúde: “Eu tive uma (paciente) que ela nunca tinha tomado medicação. Ela
só tomava chá de chuchu. […] Era chuchu… Era […] chá de milho alpiste que diz que controlava a pressão (arterial).” (ACS 05).
De acordo com a ótica da RD, este relato ilustra o uso medicinal, de origem popular, de substâncias psicoativas não produzidas pelo homem. A utilização de chás por pessoas da comunidade faz parte da experiência do/a ACS em seu cotidiano no bairro. Entretanto, ela não é entendida como equivalente ao uso de SPA, pois não está atrelada à violência que marca sua racionalidade prática a este respeito.
Eventualmente, moradores/as vinculados/as a religiões de matriz africana comparecem à ESF trajando roupas e acessórios característicos (ex. torço e roupas brancos, guias, “contra- egum81” etc.). É comum observar no bairro a circulação de inúmeros/as adeptos/as e praticantes
de diferentes nações do candomblé que, a despeito de suas diferenças, partilham o uso de plantas diversas, sob a formas de banhos de cura, chás, aplicação de unguentos, inalação de fumaça, entre outros. Consoante o paradigma da RD, esta prática expressa o emprego de SPA voltado para fins religiosos e/ou ritualísticos. De maneira oposta, a sabedoria prática do/a ACS não julga a aplicação destas substâncias como uma modalidade de consumo de SPA.
O saber resultante da experiência do/a ACS no território sobre o consumo de drogas em geral atrela-o a razões diferentes, essencialmente negativas ou nocivas. Isto motiva o/a profissional a conceber o uso de crack como algo prejudicial; e admitir que distintos usuários desta droga são impelidos ao consumo desta SPA por um mesmo e único tipo de estímulo. Para os/as ACS, quem usa crack o faz pela mesma razão.
Este raciocínio corresponde ao entendimento sobre o assunto, do ponto de vista da biomedicina. Contudo, examinado sob a ótica da RD, revela-se um critério inflexível de classificação, pois não reconhece a possibilidade de existir homens estimulados a usar crack por motivos diferenciados.
A racionalidade prática influencia a atenção à saúde do usuário. A indistinção contraria um pré-requisito fundamental para assegurar o cuidado qualificado (referido nos Capítulos 3 e 5): o respeito e a valorização da especificidade do sujeito no processo de cuidar (WALDOW e BORGES, 2008).
O mesmo pode ser dito em relação à posição que o/a agente comunitário/a adota diante de saberes populares em saúde. Além do/a ACS, diferentes categorias profissionais em saúde não os incorporam em suas orientações e/ou ações dirigidas para a comunidade.
Os programas públicos de assistência e educação em saúde se baseiam em uma concepção de cultura como um “sistema de crenças fixas”, que estabelece a diferença como um empecilho para promover mudanças no comportamento. Deste modo, profissionais de saúde buscam “civilizar” crenças e hábitos populares, ou seja, conformar o modo de vida adotado pelas populações assistidas a determinada maneira de conceber e de exercer o cuidado (BRIGGS, 2003 apud TAVARES, CAROSO E SANTANA, 2015, p.509). Isto abre precedente para que o discurso médico se converta em discurso jurídico e, através da medicalização, intervenha em “tudo aquilo que é considerado perigoso ou desviante” (CAPONI, 1997 apud BATISTELLA, 2007, p.58).
A desvalorização da atenção em saúde segundo o saber popular descaracteriza outro aspecto do processo de cuidar, assinalado por Oliveira (2008, p.66-67): a comunicação dialógica entre os universo cultural e simbólico do cuidador e do sujeito que recebe o cuidado. Cada um corresponde a um modelo particular da experiência do agravo em saúde, o que inclui: “etiologia do problema; duração e caraterísticas dos sinais e sintomas; fisiopatologia do problema; evolução natural e prognóstico; e tratamento indicado”.
Segundo este autor, o cuidado qualificado implica haver a manifestação dos modelos explanatórios do cuidador e do sujeito que recebe o cuidado (embora isto possa ocorrer de modo parcial e/ou inconsciente); o reconhecimento e o respeito da coerência e da diferença de suas respectivas lógicas internas (ainda que o saber do sujeito se aproprie de alguns elementos do saber biomédico); a assunção de uma postura de receptividade por ambos; e a troca e/ou negociação entre os dois sistemas explanatórios (mesmo que temporariamente). Garantir o cuidado, portanto, envolve reconhecer o paradigma biomédico como uma possibilidade entre inúmeros sistemas culturais existentes, ao invés de admiti-lo unicamente como parâmetro.
O entendimento sobre o ponto de vista do/a ACS acerca do consumo de SPA e seus diferentes propósitos está intimamente associado à maneira pela qual este/a profissional encara as substâncias psicoativas. Isto remete à representação diferenciada destas substâncias segundo o paradigma de cuidado biomédico, a RD e a sabedoria prática dos/as ACS - aspectos abordados na próxima sessão.