CAPITULO III DISCIPLINAS DE POLÍTICA COMERCIAL – Regras Comerciais
3.1 Regime Geral de Origem
3.1.1 O que é o Regime Geral de Origem
A livre circulação de mercadorias em um espaço mercadológico integrado, eliminando fronteiras comerciais entre os países partícipes, pressupõe a adoção de uma série de outras medidas que a mera eliminação dos direitos aduaneiros até então aplicados.
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ÂNGELO, Ivo do Pinho. Restrições não-tarifárias e principais barreiras externas às exportações brasileiras. In: ÂNGELO, Ivo do Pinho e MORAES, Antônio Luiz (org.). Formação de Negociadores em Comércio Exterior. Brasília: ESAF, 2002, p 79.
Entre estas medidas estão os Regimes Gerais de Origem que se constituem em “(...) conjuntos de normas que disciplinam a outorga de tratamento tarifário preferencial, segundo critérios (regras de origem) específicos para cada produto”174. Na realidade, é o instrumento jurídico que contém as chamadas regras de origem.
Para os estudiosos do comércio internacional, tais regras se traduzem, por vezes, em barreira não tarifária175, que protegem alguns produtos e/ ou setores produtivos intrabloco; geralmente, mas não exclusivamente, considerados “sensíveis”.
“(...) citem-se como os principais instrumentos da Política Comercial a tarifa, as quotas tarifárias, as medidas de defesa comercial, os subsídios à exportação e as barreiras não tarifárias, incluindo neste último grupo as regras de origem”176.
Contudo, a existência de um Regime Geral de Origem, com regras de origem definidas, garante que os benefícios advindos da eliminação dos direitos aduaneiros intrafronteiras não sejam estendidos a produtos e / ou países para os quais as concessões não foram direcionadas, tornando-os inócuos para aqueles que os negociam. No caso específico de áreas de livre comércio, como não há um tratamento comum para produtos procedentes de terceiros mercados, sua importância é ainda mais relevante que numa situação de União Aduaneira.
Nas áreas de livre comércio, o Regime Geral de Origem é fundamental e deve abranger todo o universo de produtos comercializáveis. Só assim, é possível evitar que os benefícios advindos das concessões tarifárias acordadas sejam canalizados para produtos e / ou países não pertencentes ao espaço mercadológico em que figura a tarifa zero nas relações comerciais intrabloco (livre circulação de produtos).
Nas Uniões Aduaneiras, por sua vez, como é pressuposto um tratamento tarifário comum para terceiros mercados (tarifa externa comum) e plena isenção de tarifa no âmbito do espaço mercadológico integrado (eliminação total das fronteiras comerciais), as regras
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AGUIAR, Maruska. Regras de Origem. In: ÂNGELO, Ivo do Pinho e MORAES, Antônio Luiz (org.). Formação de Negociadores em Comércio Exterior. Brasília: ESAF, 2002, p.300.
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Segundo Ângelo, “As barreiras não-tarifárias, normalmente, estão baseadas em diversos regulamentos e intervenções governamentais pouco transparentes, conduzindo a novas formas de protecionismo disfarçado, (...) Por outro lado, muitas vezes, encontram respaldo nos dispositivos legais vigentes internacionalmente (...)” (ÂNGELO, Ivo do Pinho. Op. Cit. p 80).
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FERREIRA, Luis Gustavo. Acordos Comerciais e Regras de Origem. In: AGUIAR, Maruska. Discussões sobre Regras de Origem. São Paulo, Aduaneiras, 2007, p. 82.
de origem se fazem necessárias apenas para os produtos constantes de Listas de Exceções à Tarifa Comum.
No caso do Mercosul, dada a sua condição de área de livre comércio incompleta e União Aduaneira inacabada, com muitas situações de pendência impeditivas da livre circulação de produtos intrabloco, tanto no campo das barreiras tarifárias como no das não tarifárias, inúmeras exceções a TEC e ausência de uma legislação aduaneira harmonizada, o Regime Geral de Origem é prerrogativa essencial para que os ganhos advindos das negociações tarifárias conduzidas pelos países membros não se percam pela indevida apropriação por parte de atores externos a esse processo de integração.
Tanto nas áreas de livre comércio como nas Uniões Aduaneiras, ainda em fase de construção, independentemente do nível de negociação tarifária acordada entre as partes, a forma de evitar a chamada operação de “triangulação”177 é instituir o Regime Geral de Origem. Somente a partir de regras de origem definidas mediante a utilização de “(...) critérios relacionados aos processos produtivos dos bens”178 é possível assegurar a origem dos produtos comercializáveis e impedir que determinadas concessões tarifárias acordadas sejam indevidamente apropriadas.
A contra partida está no efeito colateral que um Regime Geral de Origem pode acarretar a depender de como as regras de origem que o constituem se estabelecem, qual seja, o de desvios de comércio 179. Contudo, o correto ajuste das regras de origem pode impedir que estes efeitos ocorram em proporções indesejáveis e prejudiciais à liberalização comercial.
Do ponto de vista estratégico, não há como negar a crescente importância que vem assumindo as questões referentes à origem, no âmbito dos acordos comerciais. O controle
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Trata-se de uma operação de compra e venda em que o comerciante contorna a existência de uma tarifa mais alta, utilizando-se indevidamente das concessões acordadas entre determinados países para determinados produtos. Opera de forma triangular, ou seja, importa de um país o produto a uma alíquota baixa e via um outro país coloca o produto importado no mercado final de destino, que seria um terceiro país onde a tarifa do imposto de importação para aquele produto é superior à vigente no país, que funcionou de intermediário na operação.
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FERREIRA, Luis Gustavo. Op. Cit. p. 80. 179
sobre a origem dos bens comercializáveis se constitui, hoje, “(...) un ejemplo de una disciplina de relevância creciente en la estrategia negociadora de todos los paises”180.
“Nas últimas décadas, (...), o regime de origem tem assumido crescente importância, pois as tarifas aduaneiras foram substancialmente reduzidas nos países desenvolvidos e, assim, as medidas protecionistas, quando requeridas, têm sido baseadas principalmente em quotas, direitos antidumping e direitos compensatórios, que são aplicados especificamente sobre determinados fornecedores externos.”181
Não seria, portanto, exagerado afirmar que a forma como o Regime Geral de Origem é idealizado e implementado, considerando as regras de origem que abriga, a despeito das concessões tarifárias outorgadas, também influencia diretamente os novos padrões de competitividade comercial que se estabelecem no âmbito do novo espaço integrado, podendo contribuir ou não para o alcance dos objetivos inicialmente traçados e / ou, ainda, para o desenvolvimento industrial regional.
“Assim, a forma em que são definidas as regras de origem é de extrema importância para que sejam atingidos os objetivos de integração comercial regional e o desenvolvimento da indústria local, pois elas podem facilitar ou criar obstáculos para o comércio dentro de um bloco econômico quando, em princípio, este deveria ser livre”182.
Finalmente, para que um Regime Geral de Origem possa cumprir com seus objetivos precípuos, sem cair na arbitrariedade que poderá emanar do poder discricionário daqueles que o administram, é preciso que o mesmo incorpore duas características fundamentais: simplicidade e transparência.
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CORNEJO, Rafael. Prefácio. In: AGUIAR, Maruska. Discussões sobre Regras de Origem. São Paulo, Aduaneiras, 2007, p.3.
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KUME, Honório. Uma nota sobre o Regime de Origem no Mercosul. Texto para discussão nº 373, IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Rio de Janeiro, maio de 1995, p 1.
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