2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 FAMÍLIA: MEIOS POPULARES, TRAJETÓRIAS E SINGULARIDADES
2.3.2 O que revelam as pesquisas sobre leitura e letramento
Na busca por trabalhos específicos sobre práticas de leitura e ou letramento em famílias de meios populares, realizamos um segundo levantamento51. Diante disso, observamos que, dos quarenta e seis (46) artigos encontrados, trinta e nove (39)52 são referentes ao letramento escolar53 e apenas dois (2) abordam o letramento fora da escola, ou seja, abordam outras dimensões da perspectiva social da leitura e escrita.
Os referidos trabalhos são as pesquisas de Tavares e Ferreira (2008) e Espindola e Souza (2008), publicadas na 31ª reunião. O primeiro em formato oral no Grupo de Trabalho de Alfabetização, Leitura e Escrita, e o segundo em pôster no Grupo de Trabalho de Educação Popular.
51Realizado, como já referido, no site da ANPEd. No primeiro resultado observamos a predominância do conceito de letramento, em relação as práticas de leitura e escrita. Diante disso, realizamos uma nova busca limitando-se a esse termo. Para maiores detalhes sobre esse levantamento ver apêndice A com quantitativo de trabalhos sobre letramento nos Grupos de Trabalhos nos últimos dez anos. Ver também o apêndice B, com quadro por título, autoria, instituição etc.
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Em dois (2) trabalhos não foi possível identificar o objeto de estudo, pois não tivemos acesso aos textos dessas duas pesquisas: Práticas e eventos de letramento de jovens e adultos: um estudo com porteiros. (COUTINHO, GT 18, 2005) e uma sessão especial intitulada: Uso dos letramentos pelas classes trabalhadoras. (SHUARE e KLEIN, 2012). Três (3) são artigos com discussões teóricas são eles: O lugar do cânone no letramento literário (FRITZEN, GT 10, 2007) e duas sessões especiais: Cultura Escrita e letramento (CHARTIER, 2006) e Alfabetização e letramento: tensões teóricas, metodológicas e políticas. GERALDI e STREET, 2010). É importante destacar que os textos das sessões especiais não são disponibilizados para consulta, sendo assim concluímos dessa forma a partir dos títulos das apresentações.
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Ou seja, no universo de 46 trabalhos apenas duas (2) pesquisas tratam do letramento em contextos sociais o que demonstra ainda a predominância dos estudos que tratam o letramento no âmbito escolar. No campo das pesquisas sobre letramento os estudos que tratavam de letramento escolar (práticas de leitura e escrita relacionadas à escola) dos que abordavam o letramento social (práticas de leitura e escrita fora da escola: sociais), foi uma divisão e definição realizada por Soares (2003).
O artigo de Tavares e Ferreira (2008), intitulado Práticas e eventos de letramento em meios populares: Uma análise das redes sociais de crianças de uma comunidade da periferia da cidade do Recife, traz os resultados de uma dissertação de Mestrado em Educação que teve como objetivo principal investigar as práticas e os eventos de letramento em uma comunidade da periferia da cidade do Recife a partir de momentos de interação das crianças com a escrita, sob a ótica das redes sociais de pertencimento. Ou seja: por que algumas crianças apresentam boas competências de leitura e escrita, enquanto outras que habitam a mesma comunidade concluem as primeiras séries do Ensino Fundamental ainda analfabetas? Os resultados, apontam, ao destacar as relações entre as práticas de letramento das redes sociais primárias (família) e as redes sociais secundárias (escola), que as crianças legitimam como práticas de leitura e escrita os eventos de letramento no contexto familiar, permeados pelo uso do livro didático e da literatura infantil.
Assim como a maioria das pessoas indicadas como leitoras estão no quadrante da família, é no contexto familiar que foram encontrados os principais materiais de leitura. Nas relações entre escola e família, as autoras destacam que as famílias de meios populares, devido aos pais apresentarem baixa escolarização, e acreditando não conseguir ajudar seus filhos nas atividades escolares, dão uma grande importância a uma determinada “ordem moral” e respeito às autoridades, como o professor.
O segundo trabalho de Espindola e Souza (2008), intitulado Práticas de letramento em meios populares: discutindo as relações família e escola, teve como objetivo refletir sobre as relações entre família e escola e de que forma as práticas letradas desenvolvidas pelas famílias investigadas interferem nas relações desta com a instituição escolar. Ou seja, será possível afirmar que há relações entre o fato da família ter maior vivência de práticas e eventos de letramento e a presença desta família na escola, no acompanhamento da vida escolar dos filhos, na participação dos encontros com professores, etc? Essa pesquisa pode ser caracterizada como qualitativa de cunho etnográfico.
Os resultados indicaram que apenas uma mãe aponta que lê para o filho quando estão juntos, enquanto as demais relatam que brincam e assistem com os filhos como forma de lazer. Além disso, são também responsáveis pelas atividades escolares e participam ativamente das reuniões de pais e mestres. Todas também
relatam que os filhos pedem para que elas contem histórias. Materiais escritos como Bíblias, dicionários, livros de receitas, coleções de literatura, cartões recebidos e principalmente livros escolares foram observados ao longo das visitas nas residências. Mesmo assim, a pesquisa também destaca que o maior problema quanto à leitura é a carência de material de leitura nos meios populares e que isso se deve às dificuldades financeiras. As autoras também analisam os espaços de leitura a que essas famílias teriam acesso e constatam que só existe uma biblioteca pública na cidade onde ocorre a pesquisa.
São diversas as estratégias utilizadas por essas famílias para letrar seus filhos: como leitura e contação de histórias, informações sobre o universo letrado, informações sobre a função social da língua escrita, auxílio nas tarefas escolares e guardar os livros usados por parentes e filhos mais velhos para serem reutilizados por menores. As autoras concluem que talvez o fato de as famílias investigadas terem diferentes vivências de práticas e eventos de letramento as leve a estarem mais presentes na escola.
Essas pesquisas se aproximam do objeto de nossa tese em alguns aspectos: ambas têm como objetos famílias de meios populares e as práticas e ou os eventos de letramento são investigados, principalmente, dentro do contexto familiar. As duas pesquisas chegam à conclusão de que as famílias de meios populares são heterogêneas e que há diversas formas de investimentos e mobilizações em relação às práticas de leitura.
A partir dos estudos apresentados, entendemos que o letramento está relacionado às práticas sociais de diversos grupos que estão imersos no mundo da escrita e fazem uso da leitura, em seu cotidiano, de diferentes maneiras. Também percebemos que o conceito de letramento é multifacetado e amplo. Suas perspectivas teóricas e campos de atuação acrescentam de forma impactante as discussões, tanto em torno da alfabetização quanto das práticas diversas de apropriação e uso da leitura no campo social e cultural.
2.4 AS PESQUISAS SOBRE FAMÍLIA, ESCOLARIZAÇÃO E LEITURA
2.4.1 Família e escola: o que revelam as pesquisas
A categoria família e suas relações com a escola, nos estudos da sociologia da educação, estão, segundo Nogueira (2011), presentes na literatura sociológica ao menos na escala macroscópica, desde as décadas de 1950/60.54 Essas pesquisas de caráter essencialmente quantitativo “enxergou no meio familiar de origem, em particular em sua dimensão sociocultural, um poderoso fator explicativo das desigualdades escolares entre os educandos” (NOGUEIRA, 2011, p. 157). Segundo Rocha e Bonamino (2012, p. 2),
Há pouco mais de meio século, os estudos sociológicos se interessam pelas características do meio familiar de origem dos alunos e pelo seu papel na explicação das desigualdades no acesso à educação, nos resultados educacionais e nas trajetórias escolares.
De acordo com Nogueira (2011), ainda na década de 1960, as famílias com as características de longevidade escolar chegaram até naquele momento histórico, a ser denominadas como famílias educógenas, por serem famílias capazes de, por suas atitudes, hábitos e estilos de vida, possibilitar o sucesso escolar dos filhos – um conceito que teve pouco impacto no Brasil, porém já superado atualmente.
Já na década de 1970, os paradigmas da reprodução, tanto de cunho marxista como culturalista, segundo Nogueira, “não fizeram senão postular a transmissão pela família – e seus descendentes – de uma herança” (2011, p. 158). Os estudos de Bourdieu e Passeron em relação a essa herança de caráter material ou simbólico apontavam que esse fator seria determinante nos resultados escolares dos indivíduos. Naquele momento, década de 1970, os processos pelos quais esses padrões educacionais eram criados e reproduzidos não eram estudados, além de que as ações internas das famílias não eram pesquisadas em si mesmas, mas apenas “inferidas” a partir da constatação de seus efeitos sobre os destinos escolares. Ou seja, os estudos sociológicos até o final dos anos 1970 não
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Nesse período, segundo Nogueira (2011), existia uma corrente de pesquisas hegemônica que hoje é denominada como “empirismo metodológico” que a partir do extraordinário crescimento dos sistemas nacionais de ensino possibilitado pela prosperidade econômica e pelo desenvolvimento social que se seguiram ao final da Segunda Guerra mundial, provocou, nos principais países ocidentais industrializados, o aparecimento de toda uma corrente de pesquisas, executadas por cientistas sociais, que tinha como tema central as relações entre o sistema escolar e a estratificação social.
reconhecem o papel da família na escolarização dos filhos; esse papel é deduzido a partir da condição de classe, sem nenhum elemento decorrente de observações empíricas (NOGUEIRA, 2011).
E finalmente, chegamos aos anos 1980/90. Rocha e Bonamino (2012) localizam que
nos anos 80, a crítica ao que parecia ser uma redução das expectativas e demandas educacionais familiares a um ethos ou posição de classe do grupo familiar (BOURDIEU 1998; 1998a), levou ao questionamento dos determinismos sociais e culturais e ao redirecionamento dos estudos sociológicos para as práticas e estratégias familiares cotidianas face à escolarização dos filhos (p. 4).
Sendo assim, a Sociologia da Educação passou por uma reorientação caracterizada por um “deslocamento do olhar sociológico das macroestruturas para as práticas pedagógicas cotidianas” (NOGUEIRA, 2011, p. 159) e voltaram o olhar para as “pequenas unidades analíticas”. É dentro desse contexto que um novo campo de estudos se apresenta, enfocando as trajetórias escolares de indivíduos e as estratégias utilizadas pelas famílias.
Nogueira, Romanelli e Zago (2010) consideram importante lembrar que, embora a família não estivesse tão ausente dos estudos educacionais nos últimos anos, sempre aparecia de forma negativa. Atualmente, a tendência é abordar a família, mas,
como sujeito central da pesquisa em educação, com interesse em conhecer seu universo sociocultural, suas dinâmicas internas e suas interações com o mundo escolar, não mais se contentando com conclusões deduzidas unicamente a partir de sua condição de classe (NOGUEIRA; ROMANELLI; ZAGO, 2000, p. 10).
A temática tomou esse perfil no momento em que a Sociologia, principalmente a Sociologia da Educação, passava pelas transformações teóricas e metodológicas citadas acima, deslocando seu olhar das grandes estatísticas e do conceito reprodutivista da educação para uma abordagem microssocial, como destacamos anteriormente. De acordo com Nogueira (2005), as pesquisas no campo da sociologia da educação têm avançado no sentido de contemplar diferentes dimensões das relações da família com a escola, da abordagem de fatores posicionais ligados ao meio de origem à investigação de características socializadoras das famílias e de suas estratégias face à escolarização dos filhos.
Também a ausência de uma sistematização sobre a produção no campo educacional referente ao tema dificulta a sua avaliação. Nogueira, Romanelli e Zago
(2010) discutem que essa dificuldade de sistematização se deve ao fato de o tema ser trabalhado em diferentes campos disciplinares, como é o caso da antropologia e da psicologia, e não só na educação.
Nessa perspectiva microssocial, vamos destacar o estudo de Viana (2005), que reflete sobre o papel interno da família no processo escolar.
Viana (2005) publicou um artigo em que relata uma pesquisa sobre formas específicas de presença das famílias de camadas populares na escolarização dos filhos. A autora afirma que é necessário identificar especificamente as práticas de cada família, ou seja, ela defende que existem formas específicas de presença familiar na escolarização dos filhos nos meios populares. Assim como nosso estudo pretende mostrar, Viana (2005) diz que “não há um estilo familiar único”. A autora aponta que é importante observar, além do que é definido nos estudos clássicos sobre o tema, que as causas do sucesso escolar em famílias de meios populares não podem ser definidas unicamente como práticas de superescolarização ou de uma forte mobilização escolar; existem outras características que necessitam ser analisadas.
É importante observar, segundo Viana (2005), que cada família provavelmente deverá ter tido o que ela denomina de “práticas socializadoras”, muitas vezes distintas, para trabalhar, no caso do estudo em questão, a escolarização dos filhos. É necessário descrever essas práticas em cada família, “sobretudo nas brechas a serem exploradas de suas diferenças internas, podem ser vislumbradas pistas para identificação de formas específicas de presença das famílias na escolarização dos filhos” (VIANA, 2005, p. 121).
Nessa perspectiva de formas específicas de presença familiar nos meios populares, realizamos um levantamento55 e constatamos ainda um pequeno quantitativo de estudos sobre família e suas práticas sem uma relação direta com a
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Realizamos dois levantamentos bibliográficos, que serão apresentados a seguir. O locus da pesquisa foi o site da Anped. A escolha pela Anped se justifica por ser essa instituição a mais importante e influente em nossa área. São nas reuniões, agora bianuais, que se encontram e debatem os principais representantes da área educacional de nosso País. Realizamos a pesquisa nos links sobre as reuniões anuais da associação. Selecionamos dez reuniões científicas que compreendeu da 27ª a 36ª Reunião. Esses encontros foram realizados entre os anos de 2004 a 2013. A busca no site foi realizada nos seguintes itens de cada reunião: Trabalhos – Posters – Sessões Especiais – Trabalhos encomendados e Sessões de Conversas. Esse primeiro citado foi realizado no Grupo de Trabalho de Sociologia da Educação. As pesquisas relacionadas à família e a escola, ou seja, os processos de escolarização são a grande maioria. Nesse contexto encontramos 7 (sete) são eles: Nogueira (2005), Otto e Pereira (2007), Glória (2008 e 2010), Silva (2011), Rocha e Bonamino (2012) e Resende; Nogueira; Viana (2013). Todos discutem a família e seus sujeitos no processo de escolarização
escola. Ou seja, observamos que ainda há uma predominância de pesquisas sobre a relação família e escola.
Sendo assim, selecionamos três pesquisas que discutem investimentos e mobilizações, especificamente familiares, que são os elementos que aproximam esses trabalhos da nossa tese. Diante disso, faz-se necessária uma apresentação mais detalhada desses estudos.
A primeira pesquisa, de Otto e Pereira (2007), objetivou descrever e interpretar as características do trabalho pedagógico desenvolvido em famílias de meios populares56, ou seja, as formas de participação dos pais na escolarização dos filhos e os investimentos materiais e simbólicos realizados por essas famílias, além de produzir conhecimento local sobre as estratégias escolares das classes populares. Os autores constataram algumas estratégias, como manter um relacionamento estreito com professores e direção, contar com a solidariedade entre todos os filhos, especialmente os com idade e escolaridade mais avançadas para ajudar nas atividades escolares e também, raramente, deixarem seus filhos saírem sozinhos. Perceberam também que principalmente estas famílias desenvolveram certa prática de exortação da escola dentro do lar e um controle das relações sociais dos filhos, o que produz
um efeito de legitimação da mesma, inserindo o agente numa espécie de círculo virtuoso do êxito, onde o mais importante em suas vidas é o estudo. Uma vez inseridos nesta lógica, os próprios agentes passam a cobrar de si mesmos o êxito no intuito de manter sua legitimidade entre o âmbito familiar e social (p. 5).
E concluem afirmando que a compreensão dessas estratégias de atuação familiares contribuíram para uma efetiva parceria entre a família e escola.
O estudo de Rocha e Bonamino (2012) tinha como objetivo discutir as relações de sete famílias de meios populares que guardaram os cadernos escolares de seus filhos, no sentido de entender a existência de uma possível relação com a escolarização dos mesmos. As pesquisadoras observaram, entre outros aspectos, que as famílias exerciam um tipo de trabalho voltado para projetar a longevidade escolar dos filhos, por meio da presença constante da mãe, de uma rotina doméstica, do acesso a bens de consumo duráveis, como televisão e computador, como mecanismos exclusivos de lazer, entre outras. As autoras concluíram que há uma expressiva relação entre a preservação e guarda de cadernos pelas famílias e
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Foram entrevistadas as famílias de cinco alunos do Ensino Fundamental e realizadas também observações domiciliares.
o investimento na escolarização dos filhos. Destacamos também que as autoras não encontraram nenhum outro material escolar, exceto cadernos e livros escolares, circulando na vida social desses sujeitos.
Resende, Nogueira e Viana (2013)57, ao discutir as relações entre origem social, escolha do estabelecimento de ensino, mobilização escolar familiar e desempenho escolar dos filhos em famílias de camadas populares, usuárias da rede pública de ensino de Belo Horizonte, chegaram a uma conclusão que envolve o efeito específico da mobilização das famílias em relação à escola: que algumas famílias, intencionalmente, burlavam o cadastro escolar para matricular seus filhos em escolas públicas consideradas melhores.
Diante desses estudos, podemos perceber a existência de diversas formas de investimentos e mobilizações familiares em diferentes situações, como a guarda dos cadernos escolares, estratégias para matrículas, a ajuda do filho mais velho, entre outras, tornam essas famílias responsáveis pela construção de práticas que objetivam o acompanhamento e a escolarização prolongada dos filhos e filhas.
Nessa perspectiva, esta pesquisa, que teve como objetivo compreender as práticas de leitura no processo de construção de filhos e filhas leitores em famílias cujos pais apresentam baixa escolarização, construiu um caminho teórico e metodológico, buscando uma aproximação do objeto que tem muitos aspectos singulares. Este caminho será detalhado no capítulo a seguir.
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3 METODOLOGIA: UMA INSPIRAÇÃO SOCIOLÓGICA PARA A