CAPÍTULO 1 UMA DIMENSÃO POLÍTICA DA MAGISTRATURA
1.1 JURISDIÇÃO E PODER POLÍTICO
1.1.1 O que significa o poder de dizer o Direito e o renitente voluntarismo
As grandes disputas do poder de dizer, ou poder-dizer o Direito, ou, ainda,
jurisdição impõem um constante revisitar Hans Kelsen. Não que antes de Kelsen a
jurisdição não fosse problemática e que não haja o que se discutir anterior às
70 ZAULI, Eduardo Meira. Democracia e métodos constitucionais de recrutamento da magistratura no Brasil. Revista Teoria & Sociedade, v. 15, n. 2, p. 52–81, dez. 2007. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/revistasociedade/edicoes/artigos/15_2/DEMOCRACIA_E_M%C3%89TOD OS_CONSTITUCIONAIS.pdf>. Nesse sentido, observe-se, como faz Michel Troper, que “o Direito nada mais é, então, que uma técnica de exercício do poder político”. TROPER, Michel. A filosofia do direito. São Paulo: Martins, 2008, p. 121;
71 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Estructuras judiciales…, p. 86;
teorizações do jurista austríaco muito citado, pouco compreendido,
73mas é a
“virada”
74de Kelsen (e, posteriormente, Hart) que desloca os termos da discussão
jurídica da cisão entre “objetivismo/subjetivismo” para outro patamar, superando a
imagem de juiz como boca da lei e demais asseverações do positivismo exegético.
Retornar, hoje, para reflexões a respeito da velha noção do bouche de la loi,
de que “a sentença era um ato de inteligência, visto que o juiz era o intérprete do
legislador, agindo de forma inteiramente imparcial, sem envolver-se com os fatos
postos para sua apreciação”
75com vista a concretizar a lei como expressão da
vontade geral, nulificando qualquer pretensão de subjetividade no ato interpretativo,
76para, depois, negar tal concepção, demonstrando que o juiz não é neutro etc. não é
mais do que “descobrir a pólvora”, como afirma Streck, o que pode ser poupado “nessa
quadra da história”.
77A superação da ideia de objetividade da jurisdição é o grande mérito da teoria
kelseniana, com grandes contribuições para a hermenêutica. No entanto, um dos
grandes equívocos que ocorrem às críticas kelsenianas sérias e comprometidas com
o que Kelsen realmente escreveu é que a teoria kelseniana não é uma teoria
hermenêutica, mas sim uma teoria com implicações hermenêuticas. Kelsen
pretendeu, com sua teoria, sobretudo na Teoria Pura do Direito, “elevar a
Jurisprudência, que – aberta ou veladamente – se esgotava quase por completo em
raciocínios de política jurídica, à altura de uma genuína ciência, de uma ciência do
espírito”.
78Depura-se dessa ideia central, uma distinção essencial ao positivismo entre a
ciência e seu objeto de estudo, vale dizer, no caso, entre a ciência do Direito e o direito
(norma), conhecido como objeto dotado de exterioridade.
79A principal consequência
em se isolar a norma como objeto de estudo acarreta a dissociação de qualquer outra
73 Não é o caso dos autores que são abalizados junto de Kelsen neste capítulo e o criticam, obviamente.
74 O termo é de Lenio Streck. STRECK, Lenio Luiz. O (pós-)positivismo e os propalados modelos de juiz (Hércules, Júpiter e Hermes) – dois decálogos necessários. Revista de direitos e garantias fundamentais, n. 7, p. 15–45, 2010. Disponível em: http://www.fdv.br/sisbib/index.php/direitosegarantias/article/view/77, p.18;
75 ALVES, Eliana Calmon. Escolas da Magistratura. Revista da Escola Nacional da Magistratura, v. 1, n. 2, p. 18–25, 2006, p. 18;
76 OMMATI, José Emílio Medauar; FARO, Julio Pinheiro. De poder nulo a poder supremo: o Judiciário como superego…, p. 179;
77 STRECK, Lenio Luiz. O (pós-)positivismo e os propalados modelos de juiz…, p. 19;
78 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. 7 Ed. Coimbra: Almedina, 2008, p. VII;
sorte de elementos – notadamente a moral, o valor, a justiça – como preocupações
da elaboração científica que dessa concepção irá decorrer.
80Com escopo na lição de
Norberto Bobbio, Michel Troper esclarece que, ainda assim, o positivismo jurídico
como ciência é um signo que se traduz em três diferentes concepções: o
normativismo, o realismo e o positivismo enquanto ideologia.
81O realismo “pretende
reduzir o direito a um conjunto determinado de fatos – os comportamentos dos juízes
– e fazer da ciência do direito uma ciência empírica”,
82o positivismo como ideologia
“prescreve a obediência ao direito enunciado e estabelecido, ou porque se acredita,
como a escola da exegese na França, que ele seja justo, ou, independentemente de
seu caráter justo ou injusto, porque é o direito”.
83O normativismo, contudo, não se
debruça nem sobre o dado empírico da aplicação do direito na prática pelos juízes,
nem tampouco prescreve que o direito deva ser obedecido, ou que é justo (até mesmo
porque esse juízo de valor retiraria a neutralidade da análise do objeto), mas
debruça-se hileticamente sobre a norma, analisando-a de modo dissociado da moral, a fim de
elaborar conclusões científicas a seu respeito. A maior marca do normativismo, é,
portanto, a avaloratividade
84– e é nesta corrente que se pode enquadrar o positivismo
kelseniano. É no solo da pretendida avaloratividade (ainda que impossível em termos
epistemológicos) que florescem as implicações hermenêuticas mais renitentes do
kelsenianismo.
É importante observar que “a exclusão desses elementos [a moral, a justiça
etc.] da ciência do Direito não significa que Kelsen os desprezasse (…). Efetivamente,
o que Kelsen objetivava era evitar um sincretismo metodológico que afundasse a
ciência do direito em discussões estéreis, alheias ao seu propalado objeto, a norma
jurídica”.
85“Assim, apesar de ser um erro frequente entre os autores mais superficiais,
o normativismo kelseniano não pode ser reduzido a um mero legalismo em que impera
80 BOBBIO, Norberto. O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito. São Paulo: Ícone, 2006, p. 133;
81 TROPER, Michel. A filosofia do direito…, p. 26-27;
82 TROPER, Michel. A filosofia do direito…, p. 26;
83 TROPER, Michel. A filosofia do direito…, P. 28;
84 HACHEM, Daniel Wunder; NAGAO, Luís Ossamu Gelati. Justiça e felicidade entre o direito e a moral nas vertentes do positivismo. in: GABARDO, Emerson; SALGADO, Eneida Desiree (Coord.) Direito, felicidade e justiça. Belo Horizonte: Fórum, 2014, p. 77;
85 CADEMARTORI, Sérgio Urquhart; GOMES, Nestor Castilho. A teoria da interpretação jurídica de Kelsen: uma crítica a partir da obra de Friedrich Müller. in: Revista Sequência, Florianópolis: Editora da UFSC, nº 57, dez. 2008, p. 99;
a literalidade indiscutível da lei”.
86A norma, que é, por sua vez, o objeto da Teoria
Pura do Direito, passa inexoravelmente por um processo volitivo de interpretação – e
aqui a maior consequência hermenêutica daquilo que Kelsen constata, mas não
propugna. Nesse aporte, tem-se que a prescrição deontológica da Lei “é
materialmente vazia”,
87e, assim, só surtirá consequências após ser aplicada, e esse
processo de aplicação/interpretação não prescinde da vontade do
aplicador/intérprete.
Ocorre, é claro, que é dado a qualquer pessoa a capacidade interpretativa de
atribuir significado à Lei e, nem por isso, Kelsen admitirá que a norma jurídica válida
poderá ter qualquer fonte. Isso porque é um ponto fulcral na Teoria Pura do Direito a
diferença entre norma jurídica/proposição jurídica e, paralelamente, interpretação
autêntica/interpretação não-autêntica. No que tange o segundo binômio (interpretação
autêntica/interpretação não-autêntica), Kelsen entende que apenas as autoridades
jurídicas – que, entende, são o legislador e o julgador
88– conferem a interpretação
autêntica ao direito, seja formulando normas gerais, no caso do legislador, em
conformidade com o restante do ordenamento, ou individuais, no caso do julgador.
Kelsen não olvida que a autenticidade da própria intepretação é auto-referente
ao ordenamento jurídico. Vale dizer: determinados sujeitos são os intérpretes
autênticos, podendo dar verdadeiro sentido à norma, porque há fundamento de
validade que garante essa competência dentro do próprio ordenamento. Assim, “o juiz
só pode dizer o que é direito porque antes foi classificado por esse mesmo direito
como juiz; ou seja, para existir, o decisionismo judicial precisa de uma norma válida
anterior que o constitua como tal, eis que somente aqueles autorizados pelo direito
podem agir como seus órgãos de aplicação/criação”.
89Contudo, a norma jurídica,
diferente das leis naturais, precisa ser enunciada (por um intérprete autêntico) para
possuir validade e produzir efeitos práticos, o que envolve um processo interpretativo,
decorrente da própria natureza imprecisa da linguagem. Nesse sentido, Katya Kozicki
86 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa: Carl Schmitt, Hans Kelsen e a afirmação do poder no ato interpretativo do direito. in: Revista Sequência, Florianópolis: Editora da UFSC, nº 67, dez. 2013, p. 124;
87 CADEMARTORI, Sérgio Urquhart; GOMES, Nestor Castilho. A teoria da interpretação jurídica de Kelsen…, p. 101. É por isso que a teoria de Kelsen quase recai a um regresso ao infinito, resolvido apenas pela remissão ao princípio-primeiro da norma hipotética fundamental, de forma idealista.
88 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito…, p. 83;
89 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 130;
e Fernanda Karam de Chueiri Santos, expõem que, “a existência de graus de
incertezas na norma é o preço que se paga pelo uso da linguagem que tem em si um
graus e indeterminação que é a ela inerente, principalmente quando se está diante de
casos limítrofes”.
90O grande impacto hermenêutico da teoria kelseniana, o voluntarismo, no
entanto, exsurge no o último capítulo (desconsiderados os apêndices posteriores) do
Teoria Pura do Direito, a respeito da problemática da interpretação, tanto autêntica
quanto não-autêntica. Nele, Kelsen se debruça sobre o caráter indeterminado do
Direito, e observa que tal indeterminação pode ser tanto intencional quanto não
intencional. Uma indeterminação intencional seria, por exemplo, o caso em que a
moldura da norma oferece como sanção para determinada conduta tanto multa quanto
prisão, a depender da gravidade. O cabimento de uma ou outra consequência jurídica
àquela conduta descrita ficará conforme o juízo discricionário do juiz.
91Já a indeterminação não intencional decorre do fato de que “o sentido verbal
da norma não é unívoco, o órgão que tem de aplicar a norma encontra-se perante
várias significações possíveis”,
92“dada a natureza linguística das normas jurídicas, a
equivocidade é ineliminável”.
93Ou seja, mesmo a atribuição de sentidos a
determinadas palavras poderá, na maioria dos casos, levar a plúrimas possibilidades
de significação – cabendo à discricionariedade do juiz aplicador/intérprete escolher
por este ou aquele significado.
Tanto na indeterminação intencional quanto na não-intencional (mas,
sobretudo, nesta) reside um ponto fulcral da teoria kelseniana: a lei, então, é apenas
uma moldura (ora mais, ora menos restrita) que, uma vez contemplada, fornece um
rol de respostas jurídicas possíveis que são igualmente válidas. Isso porque, se todas
as decisões mencionadas se enquadram na norma mais geral (lei), possuem o
fundamento de validade resguardado. Assim, Kelsen nega a tratativa de uma decisão
mais correta do que a outra, ou, ainda, de uma única decisão correta, a “melhor”
decisão. Assim, “a obtenção da norma individual no processo de aplicação da lei é,
90 KOZICKI, Katya; SANCHES, Fernanda Karam de Chueiri. O sentido da discricionariedade judicial visto a partir de Hart e o necessário diálogo com Dworkin. in: Revista da AJURIS – Associação dos juízes do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: AJURIS, nº 126, jun. 2012, p. 95;
91 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito…, p. 380-381;
92 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito…, p. 381;
93 CADEMARTORI, Sérgio Urquhart; GOMES, Nestor Castilho. A teoria da interpretação jurídica de Kelsen…, p. 103;
na medida em que nesse processo seja preenchida a moldura da norma geral, uma
função voluntária”.
94Logo, Kelsen em momento algum exclui a vontade, o ímpeto, do intérprete
oficial, com mais ou menos restrição, no papel de criar a norma, mesmo individual.
Por conseguinte, “a escolha entre as interpretações compreendidas dentro da moldura
está baseada pura e simplesmente na vontade particular do juiz, não sendo orientada
por nenhuma norma interpretativa ou padrão de justiça externo ao direito, a exemplo
de princípios vinculativos (Dworkin) ou da consideração de um juiz-tipo (Schmitt)”.
95Outrossim, destaque-se que “o poder discricionário do juiz é intensificado na teoria da
interpretação kelseniana, pois a escolha que embasa a decisão está pautada em
valores particulares do aplicador do Direito, não havendo uma ‘moral
institucionalizada’ ou pertencendo ao direito que possa limitá-lo, ao contrário do que
propõe pós-positivistas como Alexy”.
96Nota-se, contudo, que, em relação à validade da norma por estar, ou não,
“dentro da ‘moldura’”, houve um deslocamento do pensamento kelseniano entre a
primeira e a segunda edições do Teoria Pura do Direito (e entender essa transição é
essencial para compreender a metodologia e o objetivo da teoria kelseniana, bem
como porque ela não é uma teoria hermenêutica).
Na primeira edição do livro, em 1934, Kelsen definia o ato de interpretação
como conhecimento e vontade, vale dizer, sua vontade influía apenas depois que a
apreensão dos limites da lei (a “moldura”) estava perfeitamente delimitada: O primeiro
momento – cognitivo – é o que se liga diretamente ao normativismo: “a norma a ser
aplicada configura-se assim como uma moldura que delimitará a vontade do juiz,
tornando o ato discricionário e não arbitrário. (…). O segundo momento – volitivo –
liga-se diretamente à discricionariedade. O aplicador do direito deve escolher, a partir
de sua vontade, uma dentre (…) aquelas possibilidades compreendidas pela moldura
normativa”.
97Contudo, “mesmo essa frágil barreira cai por terra em 1960, na segunda
e definitiva edição da Teoria Pura do Direito, na qual Kelsen reconhece que o juiz
94 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito…, p. 384;
95 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 126;
96 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 126;
97 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 126;
pode, mediante um autêntico ato interpretativo, decidir fora da moldura proposta pela
ciência do direito”,
98donde verifica-se que “no final da vida, Kelsen abandonou a
concepção hilética das normas e se aproximou da concepção expressiva dos
realistas”.
99Nessa concepção posterior, “uma decisão judicial ‘ilegal’ pode, por força
do seu trânsito em julgado, tornar-se definitiva, e isto não a torna ‘antijurídica’. Com
efeito, embora tal decisão possa contrariar algum preceito material ou processual
previsto em norma geral, encontra respaldo em outra disposição da própria lei geral,
isto é, o instituto do trânsito em julgado (…). É possível, pois, a criação de direito novo
para além do disposto na moldura normativa”,
100ou seja, o juiz pode decidir “fora da
moldura” e essa decisão ser válida.
101Nesse âmbito, “a radicalização de Kelsen de 1960 não significa que a moldura
deixou de existir, mas sim que ela pode ser continuamente ampliada por atos de
vontade daqueles a quem a ordem jurídica confiou o poder de decidir. Em sentido
prático, isso equivale a uma autorização para que qualquer decisão tomada pelo órgão
competente seja válida”.
102Assim, “Kelsen, portanto, admite que o juiz possa, pela via
da intepretação, criar direito novo, situado fora da moldura da norma”,
103o que lhe
rendeu diversas críticas.
104Todavia, “é exatamente a teoria da interpretação de
Kelsen que irá deixar clara a sua opção metodológica, colocando-se contra a ideologia
iluminista da subsunção que vê no juiz um mero operador lógico, personificado, nos
termos de Montesquieu e Schmitt, com a ‘boca da lei’”.
105Por isso mesmo o normativismo kelseniano é compreendido como
voluntarismo, isto é, admite a vontade pura do intérprete como um elemento
fundamental – e que às vezes poderá derrocar outros elementos, como o próprio texto,
os princípios etc. – na aplicação da lei. Essa visão, que “vira a mesa” e torna o juiz
98 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 127;
99 TROPER, Michel. A filosofia do Direito…, p. 53;
100 CADEMARTORI, Sérgio Urquhart; GOMES, Nestor Castilho. A teoria da interpretação jurídica de Kelsen…, p. 105;
101 APPIO, Eduardo. Discricionariedade política do Poder Judiciário. Curitiba: Juruá, 2008, p. 23;
102 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 128;
103 VIDAL, Marcelo Furtado. Ideologia e interpretação na teoria pura do Direito de Hans Kelsen. in:
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região. Belo Horizonte: TRT, nº 62, jul./dez. 2000, p. 137;
104 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 128;
105 MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; Milão, Diego Antonio Perini. Decisionismo e Hermenêutica Negativa…, p. 124;
possivelmente o sujeito mais empoderado de todo o sistema jurídico, é claro,
encontrou diversas vênias na doutrina. Nesse sentido, mesmo Herbert Hart,
neopositivista e hermeneuta, não ratifica essa possibilidade de discricionariedade
absoluta do intérprete, observando que, assim como a interpretação dos textos
linguísticos, há significados de pré-compreensão ínsitos às normas, do mesmo modo
que as palavras possuem acordos de pré-compreensão para que qualquer
comunicação seja possível, donde a discricionariedade o julgador deve, portanto, ser
exercida apenas nas lacunas do ordenamento jurídico.
106Apenas para se limitar a dois grandes hermeneutas brasileiros, severos
críticos das constatações de Kelsen, Lenio Streck atesta, por exemplo, que a
superação do paradigma objetivista (o juiz é um autômato, bouche de la loi etc.) com
o legado voluntarista foi uma “vitória de pirro”,
107capaz de gerar diversas anomalias,
como, por exemplo, tornar o juiz um “escolhedor”, o que, em simbiose com uma leitura
rasa da teoria alexyana, importaria, por exemplo, que, no conflito de dois princípios, o
juiz deveria discricionariamente escolher um deles como mais relevante, o que é uma
fraude ao próprio Alexy e sua metodologia rígida de ponderação.
108Para Streck,
decidir e escolher são atos distintos,
109pois este é um ato de vontade e aquele um ato
de responsabilidade, calcado em parâmetros externos ao intérprete. Eros Roberto
Grau, no mesmo sentido, nega a discricionariedade judicial, noutros termos, que
querem, contudo, significar algo similar. Para Grau, interpretar o direito envolve juízos
de legalidade, o que envolve a prudência e as limitações do texto, e, assim, repulsa a
ideia de discricionariedade, que leva em conta juízos de oportunidade e elementos da
subjetividade do intérprete.
110Esse tipo de objeção vai ao encontro das teorias dos novos hermeneutas e
teóricos do Direito do final do século XX e início do século XXI, denominados muitas
vezes de pós-positivistas, em um movimento que volta a se preocupar com o conteúdo
106 KOZICKI, Katya. Levando a justiça a sério: interpretação do direito e responsabilidade judicial. Belo Horizonte: Arraes Editores, 2012, p. 25;
107 STRECK, Lenio Luiz. O (pós-)positivismo e os propalados modelos de juiz…, p. 18;
108 STRECK, Lenio Luiz. O (pós-)positivismo e os propalados modelos de juiz…, p. 19;
109 STRECK, Lenio Luiz. OK, Juiz não é Deus (Juge n'est pas Dieu!). Mas, há(via) dúvida? Disponível em: http://www.conjur.com.br/2014-nov-20/senso-incomum-ok-juiz-nao-deus-juge-nest-pas-dieu-duvida#_ftn3
110 GRAU, Eros Roberto. Por que tenho medo dos juízes: (a interpretação/aplicação do direito e os princípios): edição refundida do ensaio e discurso sobre a interpretação/aplicação do direito. 6 ed. São Paulo: Malheiros, 2013, p. 89-90;
da norma e da decisão no pós Segunda Guerra Mundial, observando que o Direito
não pode ser visto como uma moldura em branco capaz de dar azo a atrocidades –
haveria, assim, um conteúdo mínimo de justiça a ser respeitado.
111É o que Alexy vai
chamar de repulsa à “injustiça extrema”, clara e evidente, que não poderá jamais ser
contemplada pelo ordenamento jurídico, nisso inclusas as normas jurídicas in
concreto, isto é, as decisões judiciais, restando as “zonas cinzentas” de justiça e
injustiça dentro da disputabilidade jurídica racional.
112Os pós-positivistas surgem nesse contexto de negação da discricionariedade
na interpretação jurídica, a fim de garantir alguma semântica mínima de Justiça, a
partir da ideia de que a discricionariedade é, em si, antidemocrática.
113Isso não
significa o retorno retrocedente à ideia de juiz como neutro, autômato etc., pois, como
afirma cotidianamente Streck, “os juízes não são alfaces”,
114isto é, possuem opiniões,
ideologias etc., no entanto, não devem julgar conforme elas, não são elas que devem
abalizar suas decisões. Pretende-se, assim, de maneira generalizada, “substituir a
subjetividade do intérprete pela intersubjetividade construída a partir da esfera pública,
tendo como ponto central a reconstrução da história institucional do direito,
respeitando a tradição, a coerência e a integridade do sistema jurídico”.
115Nesse cariz,
a Constituição, como parâmetro de “reconstrução da ordem jurídica a partir de dados
emancipatórios”,
116isto é, o documento que capitula um conteúdo mínimo dos acordos
sociais fundamentais, passa a ser o referencial de integração do ordenamento
jurídico,
117sobretudo em constituições analíticas e dirigentes, que instituem uma série
de valores e objetivos, como a brasileira.
118111 BARROSO, Luis Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo - os conceitos fundamentais e a construção de um novo modelo. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 242;
112 ALEXY, Robert. Conceito e validade do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 63;
113 STRECK, Lenio Luiz. O (pós-)positivismo e os propalados modelos de juiz…, p. 27;
114 Por exemplo: STRECK, Lenio Luiz. Como decidem os juízes? Os dramas das filhas influenciam as suas decisões? Disponível em: http://www.conjur.com.br/2014-jun-19/senso-incomum-dramas-filha-influenciam-juiz-decidir
115 STRECK, Lenio Luiz. Montesquieu nunca pensou em um Judiciário nos moldes brasileiros.
Disponível em:
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4251&secao=383 .