Percebemos que o universo de programas crescia a cada dia nas décadas de 60 e 70, havendo uma forte diversidade que levava à concorrência entre eles. Uma pesquisa realizada, pelo então seminarista Tárcis Prado (1969:39-40), para a conclusão do curso na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, levantou por meio de escuta na grande São Paulo e constatou que naquele ano, havia 64 programas evangélicos transmitidos, sendo que 53% eram de cunho pentecostal. Com exceção da Assembléia de Deus, na qual havia setores dentro da Igreja que ainda criticavam o rádio e a falta de um programa unificado, ou um gestor dos programas “A Voz da Assembléia de Deus”, as demais igrejas (Quadrangular, O Brasil Para Cristo e Deus é Amor)
44 Fragmentos deste áudio de 1982 do programa “Voz da Libertação” foram gentilmente cedidos pelo
professor Leonildo Silveira Campos e se encontram no CD encarte deste trabalho.
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tinham no rádio uma ferramenta fundamental para divulgação e ampliação de sua mensagem. O mais destacado, nestas duas décadas foi Manoel de Melo, pois segundo Campos:
A Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil para Cristo”, de Manoel de Melo, era a mais conhecida igreja pentecostal a usar o rádio. Miranda empregou a mesma técnica de comunicação de Melo, fazendo do rádio o seu principal veículo de propaganda (1997:273)
Lima, pesquisador e pastor da igreja O Brasil Para Cristo, realizou uma comparação com David Miranda neste sentido:
Entre janeiro de 1956, quando Mello iniciou a transmissão do programa “A voz do Brasil para Cristo”, até 1962, com a inserção de Miranda na radiodifusão com “A voz da libertação”, surgiram outros pregadores do rádio, entretanto nenhum deles conseguiu os resultados que estes dois líderes pentecostais alcançaram, fazendo deles ícones do rádio religioso. Sendo que o Missionário David Miranda, mesmo que não reconheça publicamente, seguiu o modelo empregado tanto no rádio como na pregação de cura divina praticado por Manoel de Mello. (2009:137)
Por outro lado, a concorrência incluiu os pastores da Igreja Quadrangular, por onde Mello passou antes de iniciar O Brasil Para Cristo. O historiador da Quadrangular, Rosa (1976:270) registra a saída de Mello do movimento acusando-o de ser um mero imitador. Ora, o livro de Rosa foi escrito em meados da década de 70, época em que Mello estava em plena ascensão com sua igreja:
Outros movimentos e cruzadas sairiam do grande movimento, como afluentes de um grande rio. Um dos primeiros movimentos, foi “O Brasil Para Cristo” cuja sede se situa-se em São Paulo, sob a liderança de seu fundador, pastor Manoel de Melo .... Alguns desses movimentos, passariam mesmo a imitar ostensivamente a Cruzada, em estilo e em tudo mais ... é evidente que todos esses movimentos, inclusive “ O Brasil Para Cristo”, têm sido fruto de brigas e divisões,
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e quando não, eles têm sido meros imitadores da Cruzada. Antes de 1953, antes da vinda da Quadrangular, não se ouvia falar em missionários pregando cura divina às multidões.
Apesar das acusações de plágio e imitação, não há como negar que as três igrejas utilizaram fortemente do rádio nessas décadas. A tensão gerada pela concorrência continuou nos anos 80, especificamente em São Paulo na falida Rádio Tupi.
Imagem n° 19 – Manoel de Mello, capa da revista Veja
Fonte: revista Veja (7.10.1981)
O crescimento pentecostal varria o país e refletia no uso do rádio. Em outubro de 1981, Manoel de Mello é capa da revista Veja (7.10.1981), com destaque informando que o missionário Manoel de Mello tinha, até com exageros, um milhão de seguidores. A matéria cita outras igrejas pentecostais que cresciam no país e afirmava que tal ofensiva era devido aos programas de rádio que é “hoje o mais poderoso instrumento de evangelização usado pelos pentecostais” (p.60). No mês seguinte, a mesma revista em matéria interna, publicou com o título Missões eletrônicas, uma reportagem na qual afirma que cerca de 40 milhões de brasileiros ouviam programas religiosos entre católicos
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e evangélicos, e 85 emissoras de rádio estão em poder dos evangélicos. Segundo aquela reportagem, a Rádio Tupi de São Paulo que havia pedido concordata, estava sobrevivendo graças à venda de 16 horas de programação em sua emissora para David Miranda e Manoel de Mello. (Veja 11.11.1981). Três anos depois a emissora se renderia totalmente aos pentecostais, pois segundo Santoro (1984:25) em 1984, 100% da grade de horários da Tupi estava locada para seis igrejas diferentes:
A Rádio Tupi de São Paulo, por exemplo, tem uma programação exclusivamente de programas religiosos, distribuídos por seis igrejas diferentes: as madrugadas são divididas entre os missionários Manoel de Melo (com o programa “Voz do Brasil para Cristo”) e Davi Miranda (que apresenta “Vozes da Libertação”); durante o dia revezam-se nos microfones os dois missionários já citados e mais Moreira da Silva (em “Congregação Fraterna”) e Reinaldo Santos (que duas vezes ao dia realiza orações durantes poucos minutos); à noite voltam as apresentações de Davi Miranda, interrompida por volta da meia-noite para o programa de cinco minutos da Igreja Primitiva do Desvio, apresentado pela única mulher, a missionária Elza.
Segundo Fernando Morais (1994:364), a Rádio Tupi de São Paulo havia sido fundada em 1937, por Assis Chateaubriand, na época “ostentando três estúdios e um enorme auditório, a Tupi paulista era a emissora mais potente da América Latina, com 26 quilowatts em seu transmissor”. Manoel de Mello, Davi Miranda entre outros pentecostais mantiveram seus programas na Rádio Tupi até a sua falência em meados da década de 80. Campos (1997:270) afirma que a Rádio Tupi como parte dos Diários Associados já vinha há anos em processo decadente; que foi prolongado por mais alguns anos devido aos horários vendidos para igrejas. Corroborando com Campos, o pesquisador Álvaro Bufarah (2010:13) explica que a falência foi decretada em 1983, juntamente com o fim da TV Tupi e sua emissora AM em São Paulo operando em 1040Mhz. O empresário Paulo de Abreu adquiriu o espólio e a marca Tupi, transferindo sua marca fantasia “Tupi AM” para uma emissora de São Caetano do Sul chamada Cacique, que ele havia adquirido em 1981. Tendo transferido
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seus transmissores para a cidade de São Paulo, mudou o nome para Rádio Difusora do Brasil, e por fim, novamente para Tupi AM que passou a operar em 560Mhz, no “canto do dial”, com potência menor do que era a poderosa Tupi quando pertencia aos Diários Associados. Não sabemos até que ano a emissora manteve os evangélicos em sua programação. Atualmente a Tupi já mudou de freqüência e hoje se dedica ao público que aprecia a música sertaneja e de raiz.
Além da Tupi, outras emissoras se prestavam a arrendar horários para evangélicos em meados da década de 80, pois o intenso uso do rádio foi constatado por Hugo Assmann (1986:17), que chamou o fenômeno de “igreja eletrônica”:
Uma informação que nos salta à vista se refere aos próprios meios eletrônicos: rádio e TV. Parece fora de discussão que, na América Latina, o uso do rádio goza ainda de franca supremacia sobre o limitado uso da TV, no que se refere à transmissão de programas religiosos. Embora os programas religiosos na TV estejam em ascensão, e até já se perfile a criação de televisoras “cristãs”, provavelmente os programas radiofônicos deverão ocupar um lugar central na pesquisa.
Se naquela época o rádio tinha franca supremacia sobre o uso da TV, quase 25 anos depois da afirmação de Assmann, talvez o rádio continue mantendo essa supremacia, apesar de a TV ser um atrativo para as grandes igrejas evangélicas, o acesso a programas de TV ainda custam muito mais do que o rádio. Entretanto, outras análises para constatar a real situação atual deveriam ser contempladas, propósito este que não cabe neste trabalho.