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2.2 A Teoria Effectuation

2.2.3 O raciocínio effectual

Sarasvathy (2008), define “lógica” como sendo um conjunto de ideias, consistentes internamente, que formam uma base clara para a ação no mundo. Dessa forma, afirma que a lógica causal, que é utilizada por ela como contraste em relação à lógica effectual, baseia-se na premissa de que, na medida em que se pode predizer o futuro, pode-se controlá-lo. A lógica effectual baseia-se na premissa de que, na medida em que se pode controlar o futuro, não é necessário predizê-lo (SARASVATHY, 2003). De acordo com Sarasvathy (2001a, 2001b), o raciocínio da lógica causal representa uma abordagem norteada pela definição de um objetivo, a partir do qual o indivíduo seleciona os meios necessários para obter o efeito definido a priori.

Para Faia, Rosa e Machado (2014), na abordagem causal a oportunidade é fruto da avaliação analítica da informação, sendo que as oportunidades identificadas determinam os rumos a seguir (HARMELING, 2011). Portanto, com a disponibilidade de informações confiáveis, as probabilidades para resultados específicos podem ser predefinidas, o que configuraria para a lógica causal, um caso de tomada de decisão (BLAUTH; MAUER; BRETTEL, 2014).

Conforme essa abordagem, o indivíduo avalia e seleciona as oportunidades que poderão maximizar a expectativa de retorno do empreendimento e se engaja em atividades de planejamento e análise, enquanto busca explorar seus recursos e conhecimentos preexistentes, em direção ao alcance do objetivo predefinido (CHANDLER et al., 2011). Vide figura 3.

Figura 3 – Pensamento gerencial – Raciocínio Causal

Fonte: Adaptado de Sarasvathy (2001b)

Todavia existe uma variação do raciocínio causal, denominado raciocínio causal criativo que envolve a criação de novas alternativas para alcançar o objetivo previamente definido. Vide figura 4.

Figura 4 – Pensamento estratégico – Raciocínio Causal Criativo

Fonte: Adaptado de Sarasvathy (2001b)

Segundo Sarasvathy (2008), embora a lógica criativa seja frequentemente utilizada no pensamento estratégico, ela pode ser utilizada ou não na lógica causal, enquanto o pensamento criativo representa a essência da criação na lógica effectual. Portanto, a abordagem effectual consiste em uma lógica em qual a partir dos meios disponíveis, o indivíduo analisa quais efeitos poderão ser criados com aqueles recursos. Vide figura 5.

Figura 5 – Pensamento empreendedor – Raciocínio Effectual

Fonte: Adaptado de Sarasvathy (2001b)

Para Sarasvathy (2001b), na abordagem effectual a lógica de raciocínio se inicia com determinado conjunto de meios, que permite o surgimento de metas de forma contingenciada ao longo do tempo, a partir da imaginação e de diversas aspirações daquele que inicia o empreendimento e das pessoas com as quais ele interage.

Ainda de acordo com Sarasvathy (2001a, p. 250), a “vida humana está repleta de contingências que não podem ser facilmente analisadas e previstas, só podem ser apreendidas e exploradas” e, por esse motivo, os processos da teoria Effectuation são muito mais frequentes e muito mais úteis para compreender as esferas da ação humana e lidar com elas.

De acordo com Schweizer, Vahlne e Johanson (2010) e Harmeling (2011) a contingência opera de diversas formas na geração e exploração de oportunidades, pois ao fechar uma janela pode facilmente abrir diversas outras.

Portanto a lógica effectual é particularmente útil em situações em que a ação humana é o fator predominante na modelagem do futuro (SARASVATHY, 2001a; SARASVATHY, 2004; MORRISH, 2009; ORRISHCORNER e HO, 2010; GABRIELSSON e POLITIS, 2011). Como exemplo, pode-se afirmar, com base na perspectiva da teoria Effectuation, que o mercado de determinada empresa é formado por um conjunto de pessoas aptas e dispostas a comprometer a quantidade necessária de recursos e capacidades para mantê-lo, ao invés de se adotar a perspectiva de que o mercado para uma empresa seja representado pelo universo de possíveis consumidores.

Desse modo, pelo fato de a lógica effectual não assumir a existência de um mercado preexistente, por basear-se na ideia de que o mercado que se cria ou fundamenta-se nas pessoas que se é capaz de reunir, assim o mercado na verdade, é o resultado de configurações estáveis de massas críticas de partes interessadas que, ao se unirem-se transformam as saídas da imaginação humana na construção e realização de suas aspirações, pelos meios econômicos (SARASVATHY, 2004).

Segundo Sarasvathy (2001b), a lógica effectual é dependente das pessoas, enquanto a

causal é dependente do efeito que se pretende obter, que foi previamente escolhido, pois, na

lógica causal, a escolha das pessoas que irão participar do empreendimento será delimitada pelo efeito que foi determinado em um segmento-alvo dentro de um mercado preexistente.

No entanto, de acordo com a lógica effectual, os tomadores de decisão não podem esperar para encontrar as pessoas certas, mas devem esforçar-se continuamente para atrair as pessoas certas e para aprender a desenvolvê-las e aprimorá-las dentro de “seus próprios quintais” (SARASVATHY, 2001b; SARASVATHY, 2004; WILTBANK, et al., 2009).

Sob essa lógica, as decisões sobre qual caminho seguir ocorrem ao empreendedor de acordo com as perdas aceitáveis, mantendo-se ele flexível, utilizando experimentações e buscando manter o controle sobre o futuro por meio de alianças e pré-acordos, com potenciais, fornecedores, consumidores e concorrentes (CHANDLER et al., 2011; BLAUTH;

MAUER; BRETTEL, 2014), ao invés de terem como base a análise e a seleção das alternativas que teriam a maior expectativa de retorno.

Conforme González, Añez e Machado (2011, p. 145), a lógica effectual “se sustenta em uma visão de mundo — e dos ambientes de negócio — como uma realidade em construção, cuja modelagem considera a ação humana extremamente importante”.

Ao utilizar a lógica effectual, o indivíduo trabalha em coisas que estão sob seu controle e se esforça para expandir a abrangência de coisas que pode controlar, eliminando a necessidade de prever o futuro, pelo menos nos estágios iniciais de construção de um novo empreendimento (WILTBANK et al., 2009). Essa situação se assemelha ao momento atual de adoção de práticas de BYOD no ambiente organizacional, que envolve diversas incertezas e ambiguidades, as quais levam a uma realidade em construção pela ação de usuários e gestores de TI.

De acordo com Sarasvathy (2001b, 2003), também deve-se considerar que a adoção da lógica effectual não necessariamente aumenta a probabilidade de sucesso de novas empresas, mas reduziria os custos do fracasso, ao permitir que ele ocorra mais cedo e em níveis mais baixos de investimento.

Esse pensamento que relaciona o sucesso ao fracasso vai ao encontro da ideia da arte de aprender e sobreviver às falhas, e acumular êxitos ao longo do tempo. E nestas idas e vindas é que os artefatos econômicos, como, produtos, empresas e mercados, são criados, graças às aspirações humanas, as quais dariam à economia a capacidade de imaginar (SARASVATHY, 2002; MORRISH, 2009).

Afinal, antes de existirem os produtos e os mercados, existiram as aspirações humanas, por intermédio das quais os indivíduos imaginam, alavancam, redefinem, manipulam e transformam qualquer e todos os materiais à mão (SARASVATHY e DEW, 2005b; SARASVATHY e DEW, 2013). Essas ações são resultantes de um processo dinâmico e interativo da ativação e promoção daquilo que é, em si, precisamente e simplesmente, especificado por criaturas cognitivamente limitadas, cuja visão e introspecção estão longe da omnisciência (SARASVATHY e DEW, 2013).