3 A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA ANTE AS RELIGIÕES DE MATRIZES
3.3 O racismo na formação da intolerância religiosa
Historicamente as religiões de matrizes africanas sempre demonstraram uma grande capacidade de resistência diante do exercício de práticas discriminatórias. Às práticas religiosas afro-brasileiras o tratamento sempre se resumiu em reprimir-lhes o exercício e deslegitimá-las. Todavia, evidencia-se que no Brasil, por trás do conhecido como intolerância religiosa, escondem-se outros fatores
168
OLIVEIRA, Ilzver de Matos; LIMA, Kellen Josephine Muniz de. Intolerância contra as religiões de matriz africana: uma análise sobre colisão de direitos através de casos judiciais emblemáticos. In: ENCONTRO NACIONAL DO CONPEDI, 24., 2015, Aracaju. Direitos fundamentais.
Florianópolis: Conpedi, 2015. p. 369-386. Disponível em:
<https://www.conpedi.org.br/publicacoes/c178h0tg/51f4alp5/U4Pi6Mb14L8B1dO4.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2018.
169
SILVA, Vagner Gonçalves da. Intolerância religiosa: impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. São Paulo: EDUSP, 2007.
de raízes mais profundas, relacionadas à história política, social e econômica do país.170
Observa-se que não são crenças conflitantes que se nivelam disputando por espaços, fiéis e cifras, e sim um ataque sistemático, inescrupuloso e desproporcional a grupos religiosos que sequer possuem caráter proselitista. Esses grupos, não casualmente, são os que professam religiões de matrizes africanas. Desta forma, quando se adentra no tema intolerância religiosa no Brasil, depara-se com uma faceta do racismo.
É sabido que a Igreja Católica participou da empreitada colonizadora fornecendo os substratos ideológicos para sua legitimação e agindo ela própria na colonização religiosa, comprimindo manifestações exteriores das demais religiões. Esse fato criou a necessidade de os escravos negros utilizarem o sincretismo de suas crenças com as da Igreja, mascarando seus deuses com os nomes de santos católicos, como forma de resistência cultural. Com tal subterfúgio, respeitavam a lei, a Igreja, e continuavam cultuando seus deuses africanos.171
Quando as manifestações de religiosidade afro-brasileira se transformaram em religião sistematizada a perseguição cresceu, somada à política de embranquecimento presente nos anos finais da escravidão, que pretendia eliminar negros e seus descendentes da cena pública brasileira e teve forte colaboração da população da época.172
A referida perseguição se deu principalmente por parte da polícia e da imprensa, que reclamava sobre a negligência e lentidão no combate às manifestações religiosas de origem africana. Os candomblecistas sofreram com a invasão de casas, destruição de objetos, foram acusados de importunar a ordem pública com seus batuques, praticar o uso ilegal de medicina e curandeirismo e até mesmo de sequestro, tortura e morte para seus rituais, o que lhes rendeu injustas
170
OLIVEIRA, Ilzver de Matos; LIMA, Kellen Josephine Muniz de. Intolerância contra as religiões de matriz africana: uma análise sobre colisão de direitos através de casos judiciais emblemáticos. In: ENCONTRO NACIONAL DO CONPEDI, 24., 2015, Aracaju. Direitos fundamentais.
Florianópolis: Conpedi, 2015. p. 369-386. Disponível em:
<https://www.conpedi.org.br/publicacoes/c178h0tg/51f4alp5/U4Pi6Mb14L8B1dO4.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2018.
171
JENSEN, Tina Gudrun. Discursos sobre as religiões afro-brasileiras: da desafricanização para a reafricanização. Revista de Estudos da Religião, São Paulo, n. 1, p. 1-21, 2001. Disponível em: <http://www.pucsp.br/rever/rv1_2001/p_jensen.pdf >. Acesso em: 14 jan. 2018.
172
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil,1870-1930. 6. ed. São Paulo: Companhia das letras, 2005. p. 47.
prisões. A forma de driblar as represálias se deu com o uso de estratégias, tais como alteração dos locais dos terreiros, o disfarce das cerimônias e enfrentamentos judiciais.173
Uma das consequências mais marcantes da opressão sofrida foi o sincretismo. Constantemente reprimidos, os terreiros e seus frequentadores se escudaram atrás do catolicismo, mascarando seus deuses com os nomes de santos católicos, a exemplo de Iemanjá, deusa das águas, tornar-se Nossa Senhora da Conceição, e Oxalá, divindade criadora da humanidade, transformar-se em Jesus Cristo.174
Nota-se que para subir na estrutura social e ser minimamente respeitado, restou ao negro aceitar os valores impostos pelos brancos, em um desejo de embranquecimento que aos poucos foi adentrando sua mentalidade e tem principal raiz na sua posição inferior no sistema escravocrata brasileiro.
Outra questão significativa diz respeito ao etnocentrismo contido na ideia de intolerância. O etnocentrismo está arraigado no inconsciente do ser humano e apoia-se na desconfiança e rejeição ao outro diferente, constituindo forte instrumento para o racismo.175
Na segunda metade do século XVIII, houve a construção de uma ideologia colorista em relação aos não brancos, calcada em estudos biológicos e na explicação de que o crescimento de determinada sociedade estava ligado aos caracteres raciais transmitidos geneticamente em sua população. O progresso cultural estaria vinculado à pureza da raça, enquanto a decadência, à mistura racial, pressupondo a superioridade das sociedades brancas europeias em relação às demais sociedades humanas.176
As teorias racialistas penetraram o Brasil em 1870, e tiveram grande receptividade nos meios intelectuais brasileiros, inclusive no mundo jurídico. Se antes a inferioridade dos escravos negros era explicada a partir de sua “aptidão” e “predisposição” para escravidão, ou da suposta preguiça, com a entrada de tais
173
OLIVEIRA, Agamenon Guimarães de. Candomblé sergipano. Aracaju: SEC/CDFB, 1978. 174
OLIVEIRA, Agamenon Guimarães de. Candomblé sergipano. Aracaju: SEC/CDFB, 1978. 175 BORGES, Edson; D’ADESKY, Jacques; MEDEIROS, Carlos Alberto. Racismo, preconceito
e intolerância. São Paulo: Atual, 2002. p. 54. 176
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. p. 45.
teorias, os estigmas preconceituosos passaram a se respaldar cientificamente. Essas teses, apesar dos novos olhares sobre a realidade brasileira e suas transformações, subsistiram no pensamento acadêmico até à década de 1930, com a emergência da teorização da democracia racial.177
Deste modo, conclui-se que o processo de intolerância religiosa contra as religiões de matrizes africanas é, na realidade, racismo religioso. A rotulação de suas crenças reporta à condição de escravidão a que foram submetidos seus integrantes durante a diáspora africana. A inferiorização racial criada pelo homem branco europeu disseminou a ótica etnocêntrica eurocentrada que se eterniza, em tentativa de apagar a memória, tradição e existências negras. Esse exercício de exterminação elabora novas facetas até os dias atuais, mostrando ser um esforço de desmantelamento da população negra. E uma das formas de concretização desse racismo estrutural e sistemático se dá pelo rebaixamento e deslegitimação das identidades, singularidades, corpos e simbologias africanas.
3.4 A dinâmica da intolerância em face das religiões de matrizes africanas e