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Fluxograma 2 – Triangulação

4 DA FAVELA AO HIP-FUNK, OU SERIA FUNK-RAP? OS FATORES

4.3 OS PROTESTOS DO HIP HOP

4.3.3 O rap protesta? Protesta com certeza! Tá ligado?

Para entender melhor as prioridades trabalhadas dentro do rap, faz-se importante analisar sua história e a possibilidade de falar em um hip hop e, especialmente, num rap nacional e não em importação americana de cultura. É isso

21 B-Boy Neguin, Campeão Mundial do Red Bull BC One 2010, um dos maiores eventos do mundo de

break, é capoeirista desde os 05 anos de idade. Para mais sobre o tema: B-Boy Soul - When Break Dance meets Capoeira. Disponível em: <https://vimeo.com/42590437>. Acesso em: 12 jul. 2016.

que será analisado no próximo tópico. Para o que se busca aqui, basta entender que dentro das letras de rap a temática social é uma constante, demonstrando como é o dia-a-dia na favela, na cidade, na vida. Por isso o protesto aparece de muitas formas.

No Afeganistão, por exemplo, a rapper Paradise Sorouri, da banda 143 Band, protesta contra a violência política, especialmente a que atinge as mulheres afegãs (REDAÇÃO M DE MULHER, 2014). No Brasil a rapper Flora Matos, com um só refrão, consegue atacar o padrão de beleza imposto pela mídia, especialmente por grandes redes de comunicação:

Mas na tv andam dizendo que eu não presto É a mídia, mídia com receio de protesto

Tem que cantar com voz aguda e botar silicone Desculpa Rede Globo eu represento é no microfone (Flora Matos – Protesto)

A mulher aparece também nas composições da rapper paranaense Karol Conka:

Se quiser conferir, vem cá, pra ver se aguenta Miro muito bem, enquanto você tenta

Enquanto mamacita fala, vagabundo senta Mamacita fala, vagabundo senta

Depois que o alarme tocar Não adianta fugir

Vai ter que se misturar

Ou, se bater de frente, perigo é cair (Karol Conka – Tombei)

Nelson Triunfo, considerado o pai do hip hop no Brasil, afirmou em entrevista ao programa “Provocações”, da Tv Cultura, que “lia sobre Woodstock, Bob Dylan, Rufus Thomas”. Tanto Woodstock enquanto momento social e Bob Dylan como figura simbólica, são trabalhados por HAMM como precursores dos protestos através da cultura e da música (1995). Portanto, a base do hip hop de onde o rap emerge, começa sendo nutrido por música e cultura de conscientização e protesto, o que acaba influenciando nos rumos que essa cultura assume.

Assim como Nelson, o grupo Rapadura XC tem sua origem no nordeste. Eles protestam em sua letra por um maior reconhecimento do rap nordestino no cenário da música brasileira:

Meto meu chapéu de palha sigo pra batalha Com força agarro a enxada se crava em minhas Mortalhas

Tive que correr mais que vocês pra alcançar minha vez Garra com nitidez rigidez me fez monstro camponês Exerce influência, tendência, em vivência em crenças Destinos

Se assumam são clandestinos se negam não nordestinos Vergonha do que são, produção sem expressão própria Se afastem da criação morrerão por que são cópias Não vejo cabra da peste só carioca e paulista

Só frestyleiro em nordeste não querem ser repentistas Rejeitam xilogravura o cordel que é literatura

Quem não tem cultura jamais vai saber o que é Rapadura

Foram nossas mãos que levantaram os concretos os Prédios

Os tetos os manifestos, não quero mais intermédios Eu quero acesso direto às rádios palcos abertos Inovar em projetos protestos arremesso fetos Escuta! a cidade só existe por que viemos antes Na dor desses retirantes com suor e sangue imigrante Rapadura eu venho do engenho rasgo os canaviais Meto o norte nordeste o povo no topo dos festivais, Toma!

(Rapadura XC – Norte Nordeste Me Veste)

Existe também uma forte percepção por parte de alguns rappers de que as oportunidades, a visibilidade e o reconhecimento do trabalho acabam sendo sempre mitigados, quando não engavetados, já que a realidade do rapper parece não precisar (e nem dever) ser ouvida fora da favela:

Literatura marginal continua

Por aqui ainda sendo a voz do bandido

Ainda sendo a voz do rapper que representa o perigo E outra vez você se vê que a nota musical

Quando ecoa sobre a mente criminal, cabelo voa Faz estrago, nas corte, nos palácios, não importa O nosso movimento incomoda, eu sei que é foda (Realidade Cruel – Gangsta Rap Nacional)

Na mesma entrevista Nelsão (como é chamado Nelson Triunfo) falou sobre preconceito

Você sofreu muito com preconceito aqui?

Muito. Lá na Tv Tupi eu sofri um dos primeiros preconceitos assim porque eu, na minha ingenuidade da época eu não percebi, o pessoal falou “cara você dança muito”, e eu disse obrigado, “mas eu quero que você fale nada!”. Eu tava naquele tempo do Morris Albert, do Dadiv MacLean, que eram todos brasileiros que cantavam em inglês e o pessoal pensava que os caras eram gringos né?! Poxa será que o cara quer dizer que eu sou um dançarino estrangeiro? Não! Eu descobri mais tarde que ele não queria que

eu falasse por causa do meu sotaque. Ele queria minha dança, mas não queria que eu falasse porque tinha vergonha.

(PROVOCAÇÕES, 2011)

O preconceito aparece de forma muito característica no rap, enquanto preconceito racial, persistente desde a escravidão e que parece ainda impregnado, quase que como pilar da sociedade brasileira:

Navio negreiro navegou matou pela cor Depois da senzala tortura é na favela

Hitler morreu, mas tô no gueto judeu da nova era (Facção Central – O homem estragou tudo)

Esse preconceito além de racial é também social:

Eu quero denunciar o contraste social

Enquanto o rico vive bem, o povo pobre vive mal Cidade maravilhosa é uma grande ilusão

Desemprego pobreza miséria corpos no chão As crianças da favela não tem direito ao lazer Governantes só falam e nada querem fazer O posto de saúde é uma indecência Só atendem se o caso for uma emergência A sociedade capitalista com sorriso aberto Rir de longe é melhor do que sofrer de perto Miséria e morte é o nosso dia a dia

Pelo menos entre nós não existe judaria Um amigo estudou não teve oportunidade Brigou, lutou por sua dignidade

Mais uma vez por falta de opção

O seu trabalho foi na boca com uma nove na mão Ele queria um dia voltar atrás

Infelizmente esse amigo já não vive mais

Se ele tivesse uma chance podia ser trabalhador Como não teve, para o inferno alguem lhe mandou Contraste social, o povo pobre é que vive mal Eles querem negão dentro da prisão

(MV Bill – Contraste Social)

Assim como tratado a pouco sobre a figura do rapper pertencer a uma determinada representação social, a sociedade parece construída através do ideal higienista, de que “favelado” é sinônimo de perigo:

O coletivo de favelado agora é arrastão Discriminados na rua, na praia, na condução A televisão esquece da pobreza

Impondo a playboyzada como padrão de beleza (MV Bill – Contraste Social)

Não é difícil perceber como o rap se apresenta de uma forma dura, basta consultar qualquer discografia nacional que será possível achar uma faixa de protesto, um “apontar de dedo” para os problemas sociais. O rapper acaba por ter uma conformação engajada, com postura e comportamento críticos (CAMARGOS, 2015, p. 77). O rap vem da música negra brasileira, americana, africana e de todos os fatores que de alguma forma influenciam a formação sociocultural da realidade brasileira. É a simbiose de realidade e herança que fizeram nascer o rap nacional, que não é igual nenhum rap do mundo.