• Nenhum resultado encontrado

O real e o imaginário

No documento Download/Open (páginas 82-85)

A Centopeia de Neon oferece ao leitor uma compreensão inteiramente crítica dos fatos que integram a realidade brasileira. Edival Lourenço coloca em cena, com rara acuidade, aspectos de uma sátira grotesca que permeia o contexto brasileiro, penetrando com sutileza em suas camadas subjacentes, submetendo o rico material histórico e social, aqui presente, ao riso destruidor, o grotesco e a carnavalização. Assim, o grotesco e a carnavalização se

constituem não somente com a finalidade de subverter o sublime, o elevado ou as relações humanas, mas ambas as teorias colaboram para demonstrar o homem tal como é, ou seja, sem as suas máscaras pré-rotuladas, cuja moldagem provém da rígida hierarquia social do período.

O corpo grotesco não está separado do resto do mundo, não está isolado, acabado nem perfeito, mas ultrapassa a si mesmo, franqueia seus próprios limites. Coloca-se ênfase nas partes do corpo em que se abre ao mundo exterior, isto é, onde o mundo penetra nele ou dele sai ou ele mesmo sai para o mundo, através de orifícios, protuberâncias, ramificações e excrescências, tais como a boca aberta, os órgãos genitais, seios, falo, barriga e nariz. (BAKHTIN, p. 23, 2008)

2JURWHVFRXWLOL]DGRSRU(GLYDO/RXUHQoRWHPRPHVPRWRPGH³KXPRUQHJUR´GR começo do século XIX que tinha o sentido de ser pejorativo com o único intento de ofender e aparentar um pensamento enquanto no íntimo dos personagens percebemos o contrário do que nos tenta ser demonstrado através do riso.

2ULVRSRGHVHUHQWHQGLGRFRPR³RVLJQRGHXPDSDL[mR± RRUJXOKRRXDJOyULD´ (ALBERTI, 1999, p. 129) diz que o riso é a manifestação da superioridade do homem, imbuído da arrogância íntima, pois ele acredita ser capaz de resistir às tentações do cotidiano DR GL]HU TXH ³HVVH HUUR HX QmR FRPHWR´ SRUpP IUDTXHMDU H GHL[DU VH OHYDU SHOR DQVHLR GH alcançar o sucesso fácil e sem esforços. E, é esse riso de orgulho e glória que são acometidos os personagens do romance Centopeia de Neon.

Baseados no pensamento acima exposto, podemos considerar o fato de que há uma influência mútua em alguns casos de ideias opositivas, sendo assim, é por interferência do inumano que Edival Lourenço atinge o seu humano e reflete sobre ele, apesar do medo e do sentimento de falta de sua humanidade presentes nas relações extra-humanas. Ao declarar que R PXQGR QmR OKH ³WLQKD PDLV VDOYDomR´ QHP R KRPHP D SHUVRQDJHP Panifesta em seu discurso o que estamos expondo sobre a ironia sarcástica estar presente nesta obra, e enfatizamos que unida a ela encontramos o discurso do tom sagrado pela evocação do termo ³nascimento do Anunciado Miscigênito´ FRPR XP HPSUpVWLPR comparativo desse tipo de alocução para destacar a problemática existencial vivida pela personagem do romance em estudo.

Comparar é um procedimento que faz parte da estrutura de pensamento do homem e da organização da cultura. Por isso, valer-se da comparação é hábito generalizado em diferentes áreas do saber humano e mesmo na linguagem corrente, onde o exemplo dos provérbios ilustra a frequência de emprego do recurso. A crítica literária, por exemplo, quando analisa uma obra, muitas vezes é levada a estabelecer confrontos com outras obras de outros autores, para elucidar e para fundamentar juízos de valor. Compara, então, não apenas com o objetivo de concluir sobre a natureza dos elementos confrontados mas, principalmente, para saber se são iguais

ou diferentes. É bem verdade que, na crítica literária, usa-se a comparação de forma ocasional, pois nela comparar não é substantivo. (CARVALHAL, 2006, p. 8) Desse modo, pode-se perceber que ao comparar o livro, A Centopeia de Neon, ao quadro, O Carnaval de Arlequim, de Joan de Miró, o romance apresenta uma ironia sarcástica, uma explosão de cores que atua como um jogo entre o bem e o mal, onde o lado humano vive embusca do lado ³inumano´. Ainda que exista uma altercação em torno da ironia em que é depositada como uma de suas manifestações a oposição entre o real e o irreal, numa grande festa carnavalesca. Pois, o romance lourenciano apresenta no seu quarto capítulo um par de Ets para estabelecer essa relação entre o humano/inumano carregados de alegria e dor, tal qual a figura do arlequim. Linda Hutcheon coloca a questão, humano/inumano, não FRPR XPD LGHLD VHQGR DQXODGD SHOD RXWUD GLWRQDR GLWR  ³>@ R TXH SRGH RFRUUHU VH R significado irônico for visto como sendo constituído não necessariamente apenas por uma substituição ou/ou de opostos, mas por ambos o dito e não dito trabalhando juntos para criar algo novR´. (2000, p.97)

Que toquem os tambores, retiremos as máscaras e deixemos de viver a sombra do falso elogio o concreto e o primitivo, aparecem ao dadaísta nesta descomunal antinatureza, como o próprio sobrenatural. O sobrenatural é apresentado numa profunda harmonia entre o real e o imaginário, assim, como na tela O Carnaval de Arlequim de Joan de Miró, que traz a figura do homem com bigodes e cachimbo a observar a grande festa popular, onde, a promiscuidade e o sexo descompromissado podem gerar um novo ser envolto de todas as alegrias e dores dessa festividade.

5RPm ILFD QD H[SHFWDWLYD GR ³QDVFLPHQWR GR $QXQFLDGR 0LVFLJrQLWR H WRGD D +LVWyULDHPUHFRPHoR´ /285(1d2, 2009. p. 189) Um recomeço com o único intuito de terminar com o caos, a desordem provocada pelo homem durante muitos séculos.

Devo identificar-me com o outro e ver o mundo através de seu sistema de valores, tal como ele o vê; devo colocar-me em seu lugar, e depois, de volta ao meu lugar, completar seu horizonte com tudo o que se descobre do lugar que ocupo, fora dele; devo emoldurá-lo, criar- lhe um ambiente que o acabe, mediante o excedente de minha visão, de meu saber, de meu desejo e de meu sentimento. (BAKHTIN, 1997, p. 45)

Assim sendo, podemos concluir que a cultura popular da corrupção social e o absurdo tornam-se, então, o fundamento do romance A Centopeia de Neon, que se encontra caracterizada por duas facetas: uma constituída pelo submundo torpe assolado por todos os WLSRV GH YtFLRV H FULPHV RXWUD SHOR R XQLYHUVR ³UHVSHLWiYHO´ GD RUGHP HVWDEHOHFLGD SHOD sociedade dominante. Nesse universo de duplicidade e dissimulação, onde o vigarista,

empenhado numa cruzada espúria, que prevê resultados imediatos, acaba conseguindo espaço para realizar ações perniciosas, muito prejudiciais á sociedade. E esse gatuno, que queria sobreviver frente à vertigem dos novos tempos, praticava as ações mais abomináveis, como fraudes, roubos e extorsões, para sobreviver e subir na escala social.

3.2 A máscara símbolo da metamorfose carnavalesca como paradgma de arte em

No documento Download/Open (páginas 82-85)

Documentos relacionados