CAPÍTULO II OS ÚLTIMOS ANOS DA ESCRAVIDÃO EM JATAÍ
2.2 Entre traças e cupins: Os últimos anos da escravidão em Jataí nos registros
2.2.1 O Recenseamento do Brasil de 1872: brancos, pardos e negros
XIX, mais especificadamente no ano de 1872 quando foi feito o “recenseamento do Brazil”. O referido documento esboça de forma meticulosa
Gráfico 01
Divisão 'racial' da Parochia de Jatahy em 1872
0 200 400 600 800 1000
Pardos Brancos Negros Caboclos
os dados referentes à população que habitava as diferentes regiões do Brasil. Sob tal perspectiva encontramos as informações alusivas à Parochia do Divino Espírito Santo do Jatahy, que nos informa sobre as ‘raças’, sexo, estado civil, religião, nacionalidade, instrução, idade e profissão da população que residia na localidade. O recenseamento cientifica que no ano de 1872 a Parochia do Divino Espírito Santo do Jatahy possuía 1815 moradores, com uma ligeira superioridade numérica do sexo masculino. Dos 1815, 82,6% eram livres e 17,4% escravos. Entretanto, ao contrário do que se pressupõem esses primeiros dados, o documento não registra uma superioridade numérica de brancos, pois segundo a classificação do recenseamento, a população era constituída por 27,3% de brancos, 47% de pardos, 20% de negros e 5,7% de caboclos, conforme pode-se perceber no gráfico a seguir.
FONTE: Recenseamento do Brasil de 1872 – IBGE.
Em consonância com a Parochia de Jatahy, as Parochias de Nossa Senhora das Dores do Rio Verde e Parochia do Divino Espírito Santo de Torres do Rio Bonito18 – que nesse momento destacavam-se como as principais
regiões do Sudoeste da Província de Goiás – apresentavam, segundo o censo de 1872, proximidades quanto ao número de livres e escravos quando considerada proporcionalmente a sua população. Observa-se nesse contexto a ligeira superioridade proporcional ao que se refere a população total de escravos em Jatahy e Torres do Rio Bonito em Relação a Rio Verde, que
naquele momento possuía a maior população total da região do sudoeste, como pode ser observado na tabela a seguir:
Tabela 01 – Distribuição da população do Sudoeste da Província de Goiás (1872)
FONTE: Recenseamento do Brasil de 1872 – IBGE.
Assim, podemos salientar a importância dos cativos para a região do sudoeste goiano quando comparamos sua proporção sobre a população total com outras regiões como o nordeste paulista, por exemplo, estudado por Marcondes e Garavazo (2002). Naquela região, apesar da superioridade numérica da população, a quantidade proporcional de escravos que era de 18,8% em 1872, segundo dados do censo daquele ano, é bem próxima com a do sudoeste goiano. Acrescenta-se que até a década de 70 as economias das regiões mencionadas apresentam proximidades, pois estão voltadas para a produção agro-industrial. Essa situação começa a mudar no nordeste de São Paulo a partir da década de 70 quando há uma predominância da produção do café.
Acerca do senso de 1872 é importante ressaltar a utilização da denominação raça que naquele momento encontrava-se impregnada das teorias raciais que contagiaria grande parte das discussões sobre a formação da sociedade brasileira feitas entre 1870 e 1930. Segundo Schwarcz (1993), a década de 70 do século XIX é significativa para a história das ideias no Brasil uma vez que um novo ideário positivo-evolucionista ascende no país e é
Paróquias Livres Escravos Total % população livre sobre a total % população escrava sobre a total Rio Verde 1956 354 2310 84,7 15,3 Jataí 1500 315 1815 82,6 17,4 Caiapônia 1088 309 1397 77,9 22,1 Total 4544 978 5522 81,7 18,3
adotado pela elite que compunha os centros de ensino nacionais, museus etnográficos, faculdades de direito e medicina, além dos institutos históricos e geográficos, que também se fortaleciam nessa ocasião.
De maneira paradoxal, essas ideias raciais soavam como solução para os impasses de uma sociedade que se tornava cada vez mais mestiça19, pois,
segundo análises de Schwarcz (1993), Azevedo (2004) e Munanga (2004), se por um lado esses modelos poderiam assegurar o jogo de interesses de uma elite que procurava manter uma sociedade bastante hierarquizada, ou seja, distinguir aqueles que eram superiores dos que eram inferiores, por outro lado, o projeto de construção de uma nação estava ameaçado devido os inconvenientes da mestiçagem, especialmente os propagados pelos viajantes que passaram pelo Brasil.
Nesse tocante, de acordo com o que foi percebido no gráfico 01, a maioria da população da Parochia do Divino Espírito Santo do Jatahy era formada por pardos que vieram na sua grande maioria de outras partes da Província de Goiás, de Minas Gerais e São Paulo. Essa denominação ‘pardo’ foi altamente discutida pela historiografia brasileira, e carregava em si mais do que uma simples referência à cor do indivíduo, de acordo com Mattos:
[...] A designação de ‘pardo’ era usada, antes, como forma de registrar uma diferenciação social, variável conforme o caso, na condição mais geral de não branco. Assim, todo o escravo descendente de homem (branco) tornava-se pardo, bem como todo homem nascido livre, que trouxesse a marca de sua ascendência africana – fosse mestiço ou não.
[...] o qualitativo ‘pardo’ sintetizava, como nenhum outro, a conjunção entre classificação racial e social no mundo escravista. Para tornarem-se simplesmente ‘pardos’, os homens livres descendentes de africanos dependiam de um reconhecimento social de sua condição de livres, construído com base nas relações pessoais e comunitárias que estabeleciam. (MATTOS, 1998, p. 30)
19 Números do Recenseamento do Brasil de 1872 apontam que a população negra e mestiça
somavam 4,2 milhões o que correspondia a 55% da população de todo o Império. Essa população mestiça era formada por negros livres e pardos. O aumento numérico dessa população tem suas raízes no ano de 1850, com a proibição do tráfico atlântico, no entanto, nas décadas que prosseguiram a proibição a população escrava do país, segundo autores como Hebe Mattos (1998) foi sendo consideravelmente reduzida. Além disso, como destaca Célia Maria M. de Azevedo (2004) o medo e o perigo de uma insurreição escrava e as discussões abolicionistas estavam cada vez mais presentes em alguns setores sociais, o que motivava a procura por outro tipo de mão-de-obra e a concessão de cartas de alforria.
Dessa forma, percebe-se que a sociedade da Parochia do Divino Espírito Santo do Jatahy, acompanhava uma dinâmica nacional, que como referenciado anteriormente na década de 70 do século XIX apresentava uma maior quantidade de pardos do que de brancos e negros. Isso nos leva a concluir, embasados nos argumentos de Hebe Mattos (1998), que, portanto, a população de pretos, forros e livres pobres de uma forma geral, na segunda metade do século XIX, não encontrava-se simplesmente marginalizada na sociedade, sem nenhuma ação social, cultural ou econômica. Pois, na perspectiva da autora – e também nossa – apesar de estarmos diante de uma sociedade desigual, esse grupo populacional supracitado que era numericamente maior que os brancos livres, participava, formava e transformava a sociedade, pois agia nela socialmente a partir de códigos culturais estabelecidos.
Um exemplo dessa participação desse grupo pode ser percebido ao analisarmos mais um elemento retratado no recenseamento de 1872, onde é possível perceber que dos 820 homens livres apenas 193 não tinham profissão, o que não significa, entretanto, que não trabalhavam em algo. Na sua grande maioria, os homens livres e pardos trabalhavam na lavoura, eram criadores ou assalariados como, por exemplo, jornaleiros. As mulheres livres eram em grande parte costureiras, domésticas ou lavradoras. Já a população masculina de escravos estava quase toda concentrada nos serviços da lavoura, enquanto a parcela de mulheres negras escravas dividiam-se também em costureiras, lavradoras e domésticas.
Apesar de não ser maioria numérica, os escravos presentes na Parochia do Divino Espírito Santo do Jatahy em 1872, por certo, eram importantes elementos para o desenvolvimento da região, desempenhando atividades fundamentais na Parochia – que apesar da distância dos grandes centros comerciais e devido à precariedade das estradas – desenvolvia e mantinha um importante comércio interno. Esses pressupostos podem ser verificados seguindo a trilha da literatura memorialista sobre a região como, por exemplo, em Lima e França (2004) e Mello (2002) e de viajantes como Oscar Leal (1980) que descreveram a grandiosidade da propriedade de Serafim José de Barros, especulando que ela fosse uma das melhores e mais importantes fazendas do estado de Goiás, pois possuíam inúmeros currais, gado, um belo edifício e
segundo Dorival Carvalho Mello (2002) possuía na época da abolição algo em torno de 25 escravos.
2.2.2 A escravidão nas escrituras de compra e venda de escravos do