• Nenhum resultado encontrado

O reconhecimento da união estável como entidade familiar

CAPÍTULO 2 – A TRAJETÓRIA DO DIREITO FRENTE AOS ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS DAS DÉCADAS DE 1980 E 1990, EM RELAÇÃO À FAMÍLIA

2.3. Princípios constitucionais norteadores do Direito de Família

2.3.3. O reconhecimento da união estável como entidade familiar

Aliás, o reconhecimento da união estável como família foi outra grande conquista da sociedade brasileira, eis que até então pessoas que estivessem nesta condição, permaneciam à margem da lei, tendo que provocar manifestação do Poder Judiciário. E muitos brasileiros assim se encontravam, haja vista que condições econômicas desfavoráveis aliadas à mudança de comportamento, principalmente entre os jovens, bem como a facilidade de trânsito nessas relações propiciaram a proliferação dessa modalidade de relacionamento, tido como informal e visto como um teste para uma relação mais duradoura.

36

Oliveira aponta que “a diferença está na forma de constituição: o casamento solenemente; a união estável informalmente, pela evolução dos sentimentos diários de união que são renovados a cada dia até se atingir um estado de plena vida em comum” (2002, p. 212)

A legislação até então existente cuidava de alguns “efeitos jurídicos advindos da relação concubinária, mas nunca dispensando tratamento sistematizado nem tampouco direto sobre o assunto” (OLIVEIRA, 2002, p. 157). Diante disso, os casos levados aos tribunais brasileiros foram dando contornos ao reconhecimento da união estável como um tipo de arranjo familiar, iniciando com a indenização à mulher em razão de serviços domésticos prestados, passando pela divisão de patrimônio em casos que restasse demonstrada a contribuição para tanto e, posteriormente, identificando entre os companheiros sociedade de fato (OLIVEIRA, 2002, p. 160/168).

Depois do reconhecimento constitucional foi promulgada a Lei 8.971/94, (BRASIL, 1994) para regulamentar o direito dos companheiros à sucessão, conceituando a aludida união, no artigo 1.º, como uma relação entre homem e mulher, cuja duração seja igual ou maior a cinco anos, ou que tenha gerado filhos comuns, em que ambos sejam solteiros, separados judicialmente, divorciados ou viúvos.

Como o referido diploma legal cuidou apenas do conceito e das questões sucessórias, posteriormente foi promulgada a Lei 9.278/96 (BRASIL, 1996), com a finalidade de regulamentar a respectiva previsão constitucional. Esta última lei, modificou o conceito até então existente, para reconhecer, no seu artigo 1.º, “como entidade familiar a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família”. Assim foi retirado o lapso temporal ou a existência de filhos, anteriormente exigidos, para trazer parâmetros mais abertos, adaptáveis aos casos concretos. Igualmente, a necessidade de comprovação de esforço comum para a divisão/sucessão de patrimônio adquirido pelos conviventes, que era trazida na lei de 1994, passou a ser dispensada pela lei de 1996, bastando demonstrar a existência de união estável para tanto.37

Corroborando o reconhecimento constitucional e acompanhando as leis especiais promulgadas sobre a matéria, o Código Civil de 2002 (Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002), que entrou em vigor em 11 de janeiro de 2003, igualmente aponta a união estável como entidade familiar no artigo 1.723 (que repetiu o conceito trazido no artigo 1.º da Lei 9.278/96), além de trazer regras que complementam ou revogam as leis anteriormente referidas, em determinados aspectos, os quais não são o foco principal deste estudo38.

37

Leciona Gonçalves que os requisitos para caracterização de união estável se dividem em pressupostos de ordem subjetiva: a comunhão de vida e o ânimo ou objetivo de constituir família; e ordem objetiva: diversidade de sexos, notoriedade, estabilidade, continuidade, inexistência de impedimentos matrimoniais e relação monogâmica (2009, p. 557/567).

38

È oportuno observar que o Código Civil de 2002 faz a diferenciação entre concubinato puro, reconhecendo-o como união estável, prevista no artigo 1.723 e concubinato impuro, trazido no artigo 1.727: “As relações não eventuais entre o homem e a mulher, impedidos de casar, constituem concubinato”.

Ressalte-se, todavia, que a união estável, porque modalidade informal de constituição de família, para ser reconhecida, gerar a aplicabilidade de tais dispositivos legais e proporcionar a respectiva eficácia social destes, necessita de manifestação do Poder Judiciário neste sentido, ainda que exista contrato entre os companheiros reconhecendo expressamente a aludida união, conforme permite o artigo 5.º, da Lei 9.278/96,39bem como o artigo 1.725 do Código Civil de 200240.

Embora exista previsão legal de celebração de contrato escrito entre companheiros, a legislação não conseguiu (e não consegue) acompanhar a realidade social em sua totalidade, de modo que Dias (2006) e Gonçalves (2009) noticiam a elaboração de contrato de namoro com a finalidade de afastar a existência de união estável entre os contratantes. Face à ausência de regulamentação sobre tal contrato, ambos os juristas o analisam como sendo de eficácia relativa, eis que:

a união estável é, como já enfatizado [...] um fato da vida, uma situação fática, com reflexos jurídicos, mas que decorrem da convivência humana. Se as aparências e a notoriedade do relacionamento público caracterizarem uma união estável, de nada valerá contrato dessa espécie que estabeleça o contrário e que busque neutralizar a incidência de normas cogentes, de ordem pública, inafastáveis pela simples vontade das partes (GONÇALVES, 2009, p. 583).

Deste modo, o legislador conseguiu alcançar fragmentos dessa realidade, que foi juridicamente denominada de união estável, havendo aspectos que deverão ser apreciados pelos tribunais brasileiros, se a estes forem levados.

Além disso, tanto a Constituição Federal de 1988 (artigo 226, § 3.º), quanto o Código Civil de 2002 (artigo 1.726) trazem previsão expressa sobre a facilitação da conversão da união estável em casamento. Tais dispositivos legais demonstram que ainda há certo ranço daquela idéia de que a formação de família legítima está vinculada mais ao casamento que à união estável. Embora a intenção legislativa tenha sido digna de nota, ao possibilitar a aludida conversão, alcançando todo o período da união estável (e os respectivos efeitos jurídicos), não se deve admitir qualquer discriminação em relação à forma pela qual uma família foi originada.

39

“Art.5.º Os bens móveis e imóveis adquiridos por um ou por ambos os conviventes, na constância da união estável e a título oneroso, são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum, passando a pertencer a ambos, em condomínio e em partes iguais, salvo estipulação contrária em contrato escrito”.

40

“Art. 1.725. Na união estável, salvo contrato escrito entre os companheiros, aplica-se às relações patrimoniais, no que couber, o regime da comunhão parcial de bens”.

Outline

Documentos relacionados